Masoquismo nacional (artigo de José Antunes de Sousa, 111)

Espaço Universidade 15-11-2021 19:33
Por José Antunes de Sousa

Não, não é por termos perdido que escrevo - escreveria mesmo que tivéssemos ganho, porque, de certeza, que teria sido à rasquinha essa vitória - aliás, como de costume.

 

Sejamos sinceros: tomou-nos o sangue uma estranha propensão para a auto-tortura, para a auto-flagelação.

 

Feitos grandiosos levam-nos à exaurição - ficamos de rastos e toma-nos o pânico só de pensar em repetí-los. A grandeza sempre como excepção!

Temos Ronaldo, temos Cancelo, temos Bernardo e temos até o Jota, mas não temos uma grande equipa e, como acontece nestes casos, não temos um grande treinador. Somos adeptos da excepção, não da regra (o nosso feitio transgressivo faz com que nos pelemos por uma escapadela, como atestam as histórias de Alves dos Reis, de Dona Branca, João Rendeiro, ou do Robin dos Bosques à portuguesa, o Zé do Telhado): há um insanável hiato entre a inspiração individual e a transpiração colectiva, ou seja, temos, por exemplo, quem seja bom de bola, como nos demais sectores de actividade, mas não o somos enquanto expressão colectiva dessa privilegiada inspiração.

 

Somos boa gente, sem dúvida, mas algo nos falta que faça de nós um grande povo: precisamente a consciência de sê-lo.

Temos Viriato, Afonso Henriques, Gama, Dias e Cabral, Magalhães e Colombo (sim, pois 15 anos de aturada investigação científica empreendida por Manuel da Silva Rosa e Eric J. Steele, arrasam a versão oficial: Colombo não era genovês, mas sim um espião português ao serviço de D. João ll), Nuno de Santa Maria, Vieira (o Padre pregador) e Bartolomeu dos Mártires, Pedro Nunes e Egas Moniz, Mouzinho, Sidónio, Salazar e Sá Carneiro- sim, temos, que a grandeza expressa-se sempre no presente, não no passado. Mas os feitos destes nossos maiores são invariavelmente entendidos como motivo de espanto- não era de esperar tamanha façanha.

 

É sempre o minimamente digno aquilo que nos satisfaz - só que apontar certeiramente para alvo tão ambíguo dá quase sempre para o torto: quem joga para empatar perde pela certa. Que era o que teria acontecido à Sérvia se tivesse vindo à Luz conformada com a fatalidade da aritmética.

Está mais que visto que nos damos mal com o desígnio de fazer o que tem que ser feito: as expectativas do povo paralisam os protagonistas que, face ao desafio definitivo, se encolhem até à inanição - como aconteceu em 2004, ironicamente no mesmo palco.

 

Apesar da conjunção favorável de múltiplos factores - ou talvez por isso mesmo - o medo de falhar sobrepôs-se à vontade de triunfar.

Os treinadores não podem continuar a negligenciar o peso opressivo do antecedente: o subconsciente guarda tudo com beneditina diligência. E, como estamos muito mais habituados às experiências negativas, é a estas que mais prontamente nos dispomos a reeditar - como aconteceu ontem no Estádio que, sendo da Luz, virou casa assombrada em que todos os fantasmas da nossa estimação se juntaram para nos estragarem o S. Martinho.

 

E, agora? Agora aguarda-nos esse objecto tão da estima dos portugueses, autêntico ícone da idiossincrasia nacional: a máquina calculadora!

 

 

 

 

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