O dinheiro no desporto: amadorismo e profissionalismo (artigo de Vítor Rosa, 118)

Espaço Universidade 05-08-2020 17:21
Por Vítor Rosa

A questão é legítima e qualquer um de nós poderá colocá-la: será que o dinheiro é um problema no desporto? Nas práticas desportivas como o futebol, o basquetebol, o ténis, o golfe, as corridas de automóveis, o ciclismo, entre outras, podemos pensar que sim. Quanto maior for o cálculo económico desta atividade humana, podemos dizer que maior é o risco de fazer desaparecer a cultura desportiva, caraterizada pela incerteza fundamental produzida pela competição entre iguais e pela lógica de identificação que liga uma equipa ou um clube a um determinado território. A dopagem, a corrupção e a violência não são fenómenos novos no desporto. No entanto, eles agravaram-se nas últimas décadas. O olimpismo constrói-se no final do século XIX contra o nascente profissionalismo e contra as derivas pressentidas do desporto-espetáculo. Ora, o dinheiro permite engendrar uma vantagem, não permitindo organizar a competição entre dois atletas iguais: o profissional recebe um rendimento que lhe permite treinar, enquanto o amador trabalha para ganhar a vida ou ocupa-se de outras atividades. A presença do dinheiro choca a moral aristocrática desse tempo, que considera o desporto como uma atividade desinteressada e de alto valor educativo. O olimpismo pretende construir, assim, uma contra-sociedade, que seria, no fundo, a imagem idealizada da sociedade moderna. Na realidade, ele coloca em prática um sistema desportivo onde a igualdade é entre os melhores, traduzindo-se pelo caráter socialmente exclusivo dos clubes e as interdições feitas aos operários de entrar nas associações desportivas. E isso leva à separação do desporto amador e do desporto profissional. Esta filosofia é sustentada ao mesmo tempo que a democratização do desporto ao longo do século XX, pela intervenção, em nome de diversas conceções de interesse geral, dos Estados, dos municípios ou das igrejas. A partir dos anos 1930, e depois a Guerra Fria, a competição política entre os totalitarismos e as democracias, assim como a vontade de colocar em evidência a grandeza nacional graças ao desporto, concorre para o desenvolvimento do desporto-espetáculo e da profissionalização dos seus atores, esbatendo as fronteiras que parecem evidentes entre amadorismo e profissionalismo.

 

Vítor Rosa: Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa
 

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