A integração social pelo desporto: representação e realidades (Artigo Vítor Rosa, 199)

Espaço Universidade 27-05-2022 18:00
Por Vítor Rosa

Antes de explorar as relações que o desporto tem com as noções de integração e/ou inserção social, convém aqui discuti-las. Numa primeira análise, podemos nos contentar com a definição emitida numa aproximação durkheimiana, postulando que a integração designa o processo pelo qual um grupo social se apropria do indivíduo para assegurar a sua coesão. Quanto à inserção, ela reenvia para a incorporação de uma pessoa num ambiente social mais restrito. Muitas vezes utilizados indiferentemente, e sobretudo em matéria desportiva, estes termos são complexos e fonte de evidentes fachadas. Convida também a alguma prudência. O desporto integra por “natureza” é, muitas vezes, veiculado pelos atores sociais do desporto ou pelos políticos de todos os horizontes ideológicos e pelos meios de comunicação social. Apoiando-se sobre as pretendidas virtudes educativas, cívicas e cidadãs, inalteradas no tempo e aos eventos do exterior, o desporto terá uma capacidade natural de integração e/ou de inserção social. Mais do que redutora, esta visão é um construto ideológico. No entanto, ela perdura e se reforça, ajudada por algumas atualidades simbólicas e pela mediatização de percursos isolados ou excecionais. Mais do que uma crença, a integração pelo desporto é hoje erigida a postulado, passando do estatuto de mito a quase uma realidade, a uma certeza, independentemente das condições em que a prática desportiva se desenvolve.

 

A realidade é que não existem resultados tangíveis que mostrem que uma integração e/ou inserção pelo desporto se opera de maneira automática e constante. É necessário, para avaliar os efeitos a médio e a longo prazo das práticas desportivas, ditas integradoras, ter em consideração várias variáveis ligadas à prática, ao seu enquadramento e aos praticantes. Este tipo de estudos ainda não se realizou em Portugal, ou os que se realizaram são pontuais. Alguns elementos reforçam a ausência deste tipo de estudos: a parte consagrada às políticas públicas não é tida em consideração e não existem grandes preocupações de rigor metodológico e científico. Raros são os estudos sobre a inserção profissional pelo desporto, a luta contra a exclusão profissional, a seletividade do mercado de trabalho desportivo ou a reinserção pelo emprego desportivo de público em dificuldade. Por outro lado, o contexto económico do financiamento da investigação em Portugal é mais ou menos dominado por uma rentabilidade económica.

 

A integração social supõe que os indivíduos se inscrevam em solidariedades, que eles adiram aos objetivos e aos valores da sociedade, e que se conformem às regras prescritas.  A integração não se reduz à entrada numa prática desportiva. A integração social pelo desporto é também simbólica. Na realidade, os dispositivos de integração pelo desporto apenas podem ajudar no âmbito dos efeitos negativos criados pelas sociedades neoliberais.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Pós-Doutorado em Sociologia e em Ciências do Desporto, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática.

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