«Ronaldo vai bater o meu recorde»

Irão 12-09-2019 09:05
Por Gonçalo Guimarães

Ali Daei. Se pronunciarmos este nome no Irão, o mais certo é qualquer adepto de futebol curvar-se, mesmo que o ponta de lança conte já 50 anos e tenha deixado de jogar em 2006/2007, após uma carreira maioritariamente construída no país natal (Bank Tejarat, Persepolis, Saba Battery e Saipa, onde terminou), mas com passagens breves pelo Catar (Al Sadd) e pelos Emirados Árabes Unidos (Shabab Dubai) e várias temporadas no futebol alemão, primeiro no Arminia Bielfeld, depois no Bayern Munique (expoente máximo da sua caminhada futebolística) e depois no Hertha, onde permaneceu mais tempo, três épocas.


Mas onde Ali Daei efetivamente fez história foi na seleção do Irão, com um registo que parecia estar destinado por muitos anos ao rótulo de inatingível - 109 golos (em 149 jogos) e a coroa de melhor marcador de sempre ao serviço de seleções. Talvez fosse assim se não existisse Cristiano Ronaldo, apenas 16 anos mais novo mas que parece ter descoberto o elixir da juventude.


A dupla jornada da fase de qualificação para o Euro-2020 rendeu cinco golos a CR7 (um à Sérvia e quatro à Lituânia), o que permitiu ao capitão da Seleção Nacional uma aproximação ainda mais consistente ao registo de Ali Daei. Com 93 festejos com a camisola das quinas, Ronaldo está agora a apenas 16 tentos de igualar o iraniano e a 17 de o ultrapassar. Mais um desafio a juntar a tantos outros que contam, em números, a história de uma carreira ímpar que teima em não declinar, quanto mais acabar.


Ronaldo, de resto, há muito que segue isoladíssimo na perseguição a Ali Daei, sendo por isso o único que pode aspirar, nos próximos tempos, a bater o recorde - para se ter uma ideia, o jogador no ativo que surge mais próximo é o indiano Sunil Chhetri, 35 anos, com 72 golos (ainda recentemente marcou na derrota com Omã). Messi, o grande rival de Ronaldo, tem 68, é o 15.º da lista.


A BOLA quis saber o que acha Ali Daei de tudo isto. O inglês do antigo jogador não é o mais fluido, mas serviu perfeitamente para o efeito. Aliás, assim que nos identificámos, Ali Daei percebeu logo do que se tratava. É caso para dizer que foi só encostar, como nos bons velhos tempos. E respondeu à pergunta de forma tão objetiva como ela foi feita. «Sim, acho que Ronaldo vai bater o meu recorde. É um grande jogador, sem dúvida, e parece-me que vai acontecer», atirou a velha glória iraniana, que depois de pendurar as chuteiras abraçou imediatamente a carreira de treinador no seu país, inclusive com uma fugaz passagem pela seleção, entre 2008 e 2009 (atualmente está sem clube).


Ali Daei encara com naturalidade a possibilidade cada vez mais forte (embora ainda não ao virar da esquina) de ser passado pelo português. «Porque não? É futebol, faz parte. Todos os recordes existem para um dia serem batidos. Para mais, estamos a falar de um grande jogador», repisou, não o dizendo mas dando a entender que, a ter de perder o estatuto de máximo goleador de seleções, que seja para um nome com lugar eterno no Olimpo do futebol. Aliás, uma curiosidade: os dois quase se defrontaram no Mundial-2006, na Alemanha, na fase de grupos, quando Portugal venceu o Irão por 2-0: Ronaldo jogou os 90 minutos e marcou um dos golos, de penálti, da vitória lusitana por 2-0, mas Ali Daei, já com o final de carreira à espreita, não saiu do banco - curiosamente, alinhou todo o tempo nos outros dois jogos do Grupo D, frente a México e Angola, embora sem fazer o gosto ao pé.

 

O antigo ponta de lança não viu o jogo da Lituânia com Portugal nem tem qualquer tipo de relação com Ronaldo - «cruzámo-nos duas ou três vezes nas galas da FIFA», diz -, mas deseja-lhe tudo de bom: «Que continue a jogar bem, a marcar golos e que tudo lhe corra bem na vida.» E despediu-se com um abraço para o «amigo Carlos Queiroz», vincando a enorme «estima» que tem pelo treinador português, atual selecionador colombiano após vários anos à frente da seleção iraniana, onde deixou marca.


Como disse Fernando Santos, após a goleada à Lituânia, «Ronaldo não está acabado, os outros é que precisam de ter cuidado se pensam isso». No caso de Ali Daei, já parece conformado.

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