Rosa Mota: Doutor “honoris causa” (artigo de Manuel Sérgio, 249)

Ética no Desporto 12-07-2018 15:08
Por Manuel Sérgio

Não vou aqui folhear o currículo desportivo, verdadeiramente espantoso, da Rosa Mota. É nome (e dos maiores) da História do Atletismo (em Portugal e no mundo todo). E, se “o Desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo”, bem é que a Universidade reconheça e saúde, nos atletas de indiscutível excelência, o seu vigor físico e espiritual e mental. O Desporto não é apenas um exercício físico. É, sobre o mais, uma escola de vida. Os desempenhos de um campeão, as suas espantosas “performances”, têm tanto de “bios” como de “logos”, ou de razão como de fé, ou de inteligência como de emoção, ou de ciência como de ética – porque, neles, está o homem todo! No último Conselho Nacional do Desporto (CND), um jovem conselheiro, aprumando-se, soberbo, no seu arcaboiço de hércules, segredou-me ao ouvido: “A Faculdade do Desporto da Universidade do Porto decidiu conceder à Rosa Mota o grau de doutor honoris causa”. Respondi-lhe com um ar decidido e calmo: “Só há que aplaudir esta Faculdade do Desporto e realçar a cultura atualizada que manifesta”. Dada a minha confessa admiração por tudo o que merece ser admirado, não resisti a confirmar a notícia junto da Rosa Mota, que é conselheira também do CND: “Sempre é verdade que, dentro em breve, será doutorada honoris causa, pela Universidade do Porto?”. Com a beleza de um sorriso profundo e sincero, respondeu-me: “Assim é, de facto”. E sublinhou: “Embora algumas pessoas, que se julgam cultas, o não quisessem”. Disse-lhe, então: “Pois não tenha dúvidas que este doutoramento honra tanto a Rosa Mota como a Universidade do Porto. É uma decisão pura, linear e difícil como todas as decisões autenticamente grandes? Mas é um ato criador de cultura. E, se a Universidade não cria cultura, não tem uma ideia, um ideal, um sistema de valores do Ser Humano, da Vida, da Sociedade e da História – para que serve a Universidade?

                Murmurejavam conversas. A Rosa Mota, sempre com animosa juventude, foi cumprimentar outros conselheiros. Fiquei só. O Michel Serres, em conversa com Bruno Latour, refere que é na solidão que se inventam os conceitos que anunciam o progresso (cfr. Éclaircissements, ed. portuguesa do Instituto Piaget, Lisboa, 1996). O que é o ser humano? Sem voz seca ou imperativa (porque não esqueço nunca os meus limites) assim o defino: é uma natureza que se faz cultura. Por isso, corpo e espírito formam um todo só. E, assim como Descartes não descobria outra coisa no corpo senão matéria, eu (e, antes de mm, tantos mais)) vejo no corpo uma complexidade em busca intencional da transcendência, como a motricidade o manifesta. O que eu sou não se resume a matéria ou ao espírito, mas a uma existência corporeamente vivida, num corpo donde emerge a minha vontade imparável de “ser mais”. Portanto, o ser humano é corpo para poder ser espírito e, ao ser espírito, para poder concluir que está no Absoluto a sua mais autêntica realização. O corpo é a “imagem espacial” da minha vontade e necessidade de Absoluto. No desporto, não há dúvidas a este respeito: o “esquema postural” não é biologia tão-só. Sempre fiel ao seu sestro de movimento, inquietação e aventura, o ser humano deixa, na sua “imagem corporal” o seu entranhado afeto pelo sentido da sua vida: a transcendência! O Papa Francisco, em breve apontamento pessoal diz-nos que o Desporto se distingue, por ser, simultaneamente: “lugar de encontro, em que pessoas de todos os níveis e condições sociais se unem, para alcançar um objetivo comum”. E ainda veículo de formação e meio de missão e santificação (Mensagem ao Cardial Kevin J. Farrell, que antecede o documento, também da autoria do Papa, Dar o Melhor de Si). Acode-me à memória o ditado castelhano: “en la mesa y el juego se conoce al Caballero”…

 

No valiosíssimo legado de Eduardo Lourenço, encontro a seguinte definição de cultura: “A cultura somos nós próprios, a cultura é o homem em si mesmo, a cultura é a consciência que nós temos, cada um de nós tem, do mundo que o rodeia, é a maneira como, digamos, guardamos dele sinais que podem ser transmitidos de seguida a outras gerações. E cultura é nós mesmos como sujeitos, como expressão da vida consciente de si próprio que é o Homem” (in AA.VV., Portugal – o Futuro é Possível, 2016, p. 17). Miguel Real, meu Amigo e meu Mestre, adianta que “o intervalo civilizacional que Portugal está a viver neste princípio do século XXI parece possuir três vertentes culturais do cruzamento dos quais se tecerá o seu futuro: 1. O aprofundamento da integração europeia, a todos os níveis. 2. O aprofundamento da integração lusófona, a todos os níveis. 3. O aprofundamento da integração na globalização informática, promovida pelas ciências da informação e comunicação” (Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa, Planeta, Lisboa, 2017, p. 57). Assim, se a cultura somos nós e a ideia de que nós fazemos e deixaremos, melhor ou pior, como legado, a outras gerações, uma Faculdade de Desporto deverá assinalar, sem receio e em termos hodiernos, a filosofia (ou, se quisermos, a mentalidade) que a norteia, a ciência que desenvolve e trabalha e o seu lugar insubstituível na cultura portuguesa.  Por vários motivos, nunca esquecerei o Rubem Alves, professor e pensador brasileiro, meu colega na Unicamp (Brasil). Dizia ele e repetia: “a tarefa da filosofia é, principalmente, uma luta contra todos os absolutos que se aninham no interior dos discursos e das práticas”. E eu acrescentava: “os absolutos do dualismo antropológico racionalista, reflexo do dualismo senhor-servo, homem-mulher, rico-pobre; os absolutos do positivismo, onde se estudam os factos e se desprezam os valores, onde conhecer é matematizar, quantificar e não é compreender, é uniformizar, não é libertar”…

 

E, após este longo exórdio, permitam-me a interrogação: se se concedem doutoramentos “honoris causa” a quem sabe teorizar o Desporto, como se explicam as reticências diante dos doutoramentos de quem exemplarmente o pratica? O saber mostra-se, principalmente, na teoria, ou na prática? Só atletas, como a Rosa Mota, podem inaugurar horizontes inéditos de cientificidade, mais através do “vivido” do que do “pensado”. Eu sei que, nas “ciências do desporto”, muitos especialistas continuam em cega obediência aos modelos verificacionistas e quantitativistas. Mas o ser humano resume-se à quantidade? Não há nele também o mundo fascinante da qualidade? Rosa Maria Correia dos Santos Mota (mais conhecida por Rosa Mota), com 60 anos de idade; reconhecida, sem votos contra, como a maior maratonista de todos os tempos; campeã europeia, mundial e olímpica – não terá muito que ensinar, a este propósito, à elite doutoral de uma universidade? Sou doutor e professor agregado e muito aprendi, como seu adjunto, com um treinador de futebol cujas habilitações literárias pouco excedem a Instrução Primária. Num arranque assombroso de energia e determinação, ele via e antevia jogadas que eu não sabia explicar e, muito menos, adivinhar. A sua “leitura do jogo” imobilizava-me e extasiava-me. Na suavidade vesperal dos treinos, muito aprendi, nas minhas intermináveis conversas, com o Jorge Jesus. E reforcei a ideia que tenho, há bem mais de 40 anos: só como ciência hermenêutico-humana o Desporto deve investigar-se e estudar-se. Termino, com um abraço fraterno de parabéns à Rosa Mota e a minha sincera admiração, pela ciência e cultura, que distinguem a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto que, ao honrar a Rosa Mota, honra-se a si mesma, pois honra nela a sua primeira razão de ser: criar cultura, disseminar cultura, ser cultura.   

                    

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