Desporto e valores (artigo de Vítor Rosa, 135)

Espaço Universidade 29-11-2020 16:40
Por Vítor Rosa

O interesse pelo desporto tem vindo a ganhar, ao longo dos tempos, um importante significado social, sobretudo nas sociedades ocidentais (industrializadas), assim como se tem assistido a uma diversificação nas formas de estar e de participar neste espaço social. O desporto, desde o início da sua história, foi associado a valores (fair-play, solidariedade, autoestima, respeito pelo próximo, etc.), tendo em vista a promover a sua prática. A sua existência foi estabelecida sobre pressupostos, tornando-se um mito. Para demonstrar o seu interesse e justificar a sua legitimidade, os promotores do desporto procuram apresentar a prática como um elemento de bem-estar individual e coletivo. Muitos discursos relativos ao desporto não economizam palavras laudatórias sobre para que ele serve e o que vale.

 

As competições internacionais são sempre momentos importantes para relembrar a sua natureza e exorcizar a sua prática. Mais do que um simples jogo ou uma atividade de divertimento ou de performance, o desporto deve ser compreendido a partir dos benefícios que pode promover, sobretudo para aqueles que o expõem, o admiram, o praticam ou o organizam. Longe das teorias deterministas, que consideram a prática desportiva exclusivamente dependente das suas componentes objetivas (motrícias, fisiológicas, etc.), convém abordar o lugar social do desporto por intermédio das mais-valias associadas. Produto de uma história que coloca os valores no centro do seu projeto universal, o desporto é regularmente associado às funções que os atores sociais lhe atribuem. Investido de missões e de ideais, a sua prática reveste-se de uma importância considerável para todos aqueles que procuram transformar o homem e a sociedade.

 

A representação social de um “desporto +” é claramente dominante, deixando pensar que nada pode incomodar uma prescrição desportiva naturalmente estabelecida. Permitindo validar a legitimidade e condenar a ilegitimidade, os valores associados ao desporto constituem uma escala para julgar a sua utilidade. Afirmar que o desporto provoca excessos, violência, rejeição das diferenças, reforço do individualismo ou imoralidades de certos comportamentos desportivos, não significa que o desporto não tem valor, mas, pelo contrário, que o desporto é portador de valores que convém precisar para clarificar este fenómeno e dar-lhe a importância merecida. Ao se aceitar a realidade, não nos devemos fechar numa beatitude submissa que associa os princípios sedutores, desfasados ou contraditórios da sua prática. Um exame sobre o desporto como ele é, e não como deveria ser, torna-se indispensável para se ter uma ideia dos incidentes de percurso. Se não é possível contestar a existência desportiva, parece-nos primordial questionar a sua natureza.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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