Para o perfil de Nelson Mendes (artigo de Manuel Sérgio, 275)

Ética no Desporto 19-01-2019 18:39
Por Manuel Sérgio

Quando, em Outubro de 1968, depois de ter trabalhado, durante 13 anos, nos Armazéns do Arsenal do Alfeite, ingressei, como técnico de 3ª. classe, no Centro de Documentação e Informação do Fundo de Fomento do Desporto (CDI/FFD), sediado no INEF (Instituto Nacional de Educação Física) logo me deu a honra de uma visita: “Sou o Nelson, professor de Educação Física a lecionar na Escola de Educação Física de Lisboa”. E aduziu, com simpatia: “Venho dar-lhe as boas-vindas. Já me disseram que é pessoa de muita leitura. Vem portanto para o lugar certo”. Conversámos mais alguns minutos. E, dois ou três meses mais tarde, ainda tive ensejo de aproveitar e valorizar um conselho seu: “Tenha a seu lado um professor de Educação Física, para o elucidar, em relação a algumas necessidades escolares dos alunos do INEF e da Escola”. De facto, poucos meses mais tarde, já eu beneficiava da presença de um professor de Educação Física, no CDI/FFD: o professor Mário Cabral, pessoa de invulgar generosidade e diligência, diplomado pelo INEF e o editor do livro da autoria de Nelson Mendes, Conceito Actual de Educação Física – A Humanização do Movimento”.  Não posso relatar miudamente, pois que já muitos anos se passaram, as conversas de pendor mais ou menos intelectual, que nos uniram – conversas entrecortadas, aqui e além, por um comentário espirituoso, tão do seu agrado.  Sendo também tenente-coronel da Força Aérea, nunca macaqueou um “estadonovismo” regenerado, passou-lhe à porta, distraído, e virou na primeira esquina, em direção à sua própria festa, com a família (que ele venerava!), os amigos ou os alunos. Agarrado a princípios que, por coisa nenhuma, consentia em abandonar,  foi com denodo ocupar um novo posto, o de diretor do INEF, cargo que tanto ilustrou. E onde, sem qualquer assomo de um catedratismo pedante, cultivou com a mesma honestidade o Orçamento do INEF, como as suas aulas que pareciam unicamente de um surpreendente improvisador e eram afinal de um professor do INEF que, em determinado  momento, encarnou a alma da sua Escola e assegurou o seu prestígio. Fernando Nelson Corrêa Mendes, mais conhecido por Nelson Mendes, deixou no INEF uma sementeira que anunciou o “corte epistemológico” que outros, mais tarde, tentariam concretizar.

 

                “É opinião nossa que a expressão Educação Física é atualmente uma expressão limitadora, estática e não válida (…). O físico não pode atualmente existir, como objetivo específico de qualquer acção de âmbito educativo”. São palavras de Nelson Mendes no livro acima citado. Por seu turno, Jorge Crespo , antropólogo e professor de educação física, escreveu:  “A educação física experimenta, neste momento, um difícil período de transição, caracterizado pela progressiva desactualização das antigas práticas e teorias e, ao mesmo tempo, pela inexistência de novas soluções. As recentes transformações do mundo levaram a que a educação física perdesse as suas funções tradicionais, deixando em aberto um vazio que é indispensável preencher” (A Economia do Corpo em Portugal, nos finais do Antigo Regime, ISEF/UTL, 1984, nota prévia). Henrique de Melo Barreiros, figura inapagável da história da Faculdade de Motricidade Humana, para quem a reformulação da Educação Física  não constitui vago recurso ideológico, aspiração evanescente, reconstituição de pendor historicista, adiantou : “Sem pretender entrar em discussão sobre o estatuto da Educação Física, no contexto das ciências, pode constatar-se que a sua inserção na Universidade comporta já um princípio de resposta, no reconhecimento de que se trata de um domínio da realidade cujo estudo (…) contém uma originalidade final própria. E não esconde a seguir que a sua cientificidade está por desvendar, na busca de objetivos e métodos de pesquisa específicos (L’Apprentisage Centré sur la Disponibilité Motrice, Faculté de Médicine – Institut d’Éducation Physique, Université de Louvain, 1977, introduction). Melo de Carvalho, um professor de Educação Física de veia combativa e com a inquietude necessária para ousar e inovar, vem defendendo a Educação Física “como ciência individualizada, no sistema geral das ciências e no interior do quadro operacional e institucional” (Cultura Física e Desenvolvimento, Compendium, Lisboa, s/d., p. 215). Todos eles estudiosos que chegaram ao tema da crise da Educação Física muito depois de Nelson Mendes…

 

                Também a minha tese de doutoramento, Para uma epistemologia da motricidade humana, tentou aproveitar o legado de Nelson Mendes e dar mais um passo: através de um corte epistemológico, anunciar a possibilidade de uma nova ciência hermenêutico-humana, a ciência da motricidade humana, com as especialidades seguintes: o desporto, a dança, a ergonomia e a reabilitação. Procurei assim produzir um saber novo, pela mediação da reflexão pessoal e até de uma convivência franca e amiga com alguns treinadores desportivos, entre os quais quero distinguir o José Maria Pedroto. Não procurei apropriar-me intelectualmente de um campo empírico de factos, ou de um campo conceptual de ideias. Apresentei tão-só uma respeitosa discordância, em forma de contestação criadora, da ausência de fundamentação epistemológica da Educação Física, o que me valeu uma hostilidade tão desvelada quanto agressiva de certas pessoas que, ainda hoje, não sabem respeitar o que de mais sagrado um homem (uma mulher) pode ter: a sua liberdade de pensamento. Nelson Mendes,  ao invés, era um “homem do diálogo”. Não é fácil esboçar o seu perfil, quer pela extrema variedade, quer pela invulgar sobreposição dos traços que o caracterizam. Desportista, pedagogo, escritor, ensaísta – em todos estes domínios, desenvolveu ele uma atividade inconfundível, fecundíssima, sempre marcada pelo selo da vocação. E é sabido como o INEF lhe deve, em todos aqueles géneros, a realização de obras absolutamente exemplares, que merecem mais estudo e mais elaborada atenção. Mas é como “homem do diálogo”, aspeto marcante da sua personalidade, que o pretendo realçar, na data em que se celebra o 79º. aniversário da Faculdade de Motricidade Humana, o dia 23 de Janeiro de 2019. Um “homem do diálogo” foi, de facto, o Prof. Fernando Nelson Corrêa Mendes, até ao fim dos seus dias, designadamente como antigo diretor do INEF, antes ainda do 25 de Abril de 1974. Não me seria difícil acrescentar, aqui, uma galeria viva de testemunhos, em abono emocionado do que venho de afirmar.  Repito-me: Nelson Mendes, um “homem do diálogo”.

 

                Como hermeneutas da cultura, José Eduardo Franco e Miguel Real têm, no nosso País, lugar cimeiro. Desta feita, quedo-me pelo que releva da obra de Miguel Real, Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, Lisboa, 2017) acerca das características tradicionais, atribuídas ao povo português: “Na tentativa de encontrar uma característica determinante da cultura portuguesa, exaltámos a definição de António José Saraiva de desejar ser o português o que não é, ou estar onde não está, manifestação da característica de suspensão do tempo histórico. Esta asserção encontra-se igualmente de acordo com a tese de Boaventura de Sousa Santos sobre a cultura de fronteira do português e com a de Eduardo Lourenço sobre a hiperidentidade irrealista do povo português, mas também com a vocação universalista (tornar-se outro) dos portugueses de Jaime Cortesão e Agostinho da Silva e com o cosmopolitismo de Fernando Pessoa” (pp. 193/194). Em síntese, sem recorte definitivo, permito-me extrair da investigação levada exemplarmente a cabo pelo Miguel Real sobre as constantes culturais da conduta dos portugueses, que vagabundeiam sempre, entre dois polos: o religioso, mas também herético; o ortodoxo, mas também heterodoxo; o pobre, mas generoso (comunitarismo); o aventureiro, explorador, descobridor, mas radicado (o sentimento da saudade); e, por fim, uma ternura que se confunde com uma exemplaridade ética. Em Nelson Mendes, tanto nas relações pessoais e presenciais, como nos seus escritos, ou nas suas aulas, ou seja, nas circunstâncias mais diversas, era sempre o mesmo homem que surgia, precisando ideias, esclarecendo conceitos, despojado de qualquer assomo de egoísmo e tratando a todos, com generosidade e bondade e respeito, pois que sabia encontrar, à sua maneira, o divino, em tudo o que o rodeava. Daí, a sua necessidade de diálogo. Daí, com toda a certeza, o ter findo os seus dias (ele, que era cristão, mas não era católico) com as palavras de S. Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira e guardei a fé”.          

    

                Na Introdução da minha tese de doutoramento, escrevi (escusado será acrescentar que o fiz, com o coração): “Por isso, razões muito especiais não consentem que deixe de expressar o meu profundo agradecimento: Ao Instituto Superior de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa, sem esquecer ninguém, nem minudenciar cargos ou hierarquias, que me acolheu, incentivou e concedeu o espaço necessário à investigação epistemológica, na ciência da motricidade humana. E aos profissionais de Educação Física portugueses, aos jovens e aos menos jovens, aos vivos e aos mortos, já que a minha teorização seria impensável, sem a sua prática diligente e transformadora”. E, com o mesmo espírito de há 33 anos, afirmo, hoje: estou grato a todos os professores de Educação Física portugueses, principalmente àqueles que  discordam das minhas pobres ideias, pois que me obrigam a mais estudo e à necessária autocrítica. Dirigente desportivo, no Clube de Futebol “Os Belenenses”, durante 28 anos (de 1964 a 1992), na Associação de Basquetebol de Lisboa e na Associação de Andebol de Lisboa; professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp-Brasil); eterno “aprendiz de filosofia” (não passo, de facto, na filosofia, de um simples aprendiz) – foi no INEF, no ISEF/UTL e na FMH que pude entender a complexidade da motricidade humana e a inteligência e a vontade  boa e a profícua e extensa ação de intelectuais, como o Prof. Nelson Mendes – o Prof. Nelson Mendes que poucos dias antes do seu passamento me telefonou e, em voz murmurejante, me disse: ”Manuel Sérgio, precisamos de falar e… sem tempo!”. Meu querido Nelson Mendes, como afirmou o Fernando Pessoa: “A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto”. É que tu, sem “o sentimento trágico da vida” de Unamuno, continuas vivo, na galeria de grandes personagens que, no INEF, ou no ISEF, ou na FMH, e através da motricidade humana, deixaram-nos uma imperecível reflexão sobre o mistério do tempo e o mistério da vida. Recebe estas modestas palavras, escritas no tempo e para além do tempo…           

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto      

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