Tem sentido ético a “motricidade humana”? (artigo de Manuel Sérgio, 342)

Espaço Universidade 14-06-2020 14:41
Por Manuel Sérgio

Fiz, no espaço de uma semana, três videoconferências. E todas comecei,  com palavras do Padre Manuel Antunes, um dos mais perspicazes hermeneutas da cultura do nosso tempo: “Um simples olhar panorâmico pelo mundo de hoje divisa um universo em mutação, um horizonte móvel que, em cada dia, aparece outro. Teorias que se sucedem às teorias, descobertas que se sucedem às descobertas, quadros que se renovam em movimento incessante, técnicas que surgem a uma palpitação de vertigem, facilitando a vida, seduzindo a vista ansiosa desta criança eterna que é o homem. No entanto, neste universo em radical transformação, só ele - o homem – não mudou proporcionalmente” (Compreender o Mundo e Atualizar a Igreja, Gradiva, Lisboa, 2018, p. 158). Também, no âmbito da chamada Educação Física, já houve quem sustentasse que se tratava da “educação do físico” ou da “educação pelo físico”. Pensava-se, então, cartesianamente, que o corpo era físico tão-só, em oposição à alma, puro espírito, imaterial e eterno. Deu-se, depois, um passo em frente e a Educação Física passou a entender-se como educação corporal ou, como queria José María Cagigal, “educação do homem corporal” e referia-se que não se tratava unicamente do “corpo acrobático”, mas também do “corpo pensante” e do “corpo expressivo”. E afirmava-se, sem lugar para dúvidas, que reduzir a Educação Física à ginástica e ao desporto significava uma profunda ignorância, em relação às imensas virtualidades do corpo. Cito agora o livro La Educacion Fisica en la Educacion Basica de Benilde Vásquez (Gymnos Editorial, Madrid, 1989): “El cuerpo es el lugar morfológico-funcional de todas las estruturas psicoorgánicas, afirman los médicos; el cuerpo inaugura el mundo , en expresión de los filósofos existencialistas. El cuerpo es el primer medio de conocimiento y relación afirman los psicólogos infantiles. El cuerpo es um símbolo, dirán los sociólogos de la cultura” (p. 117). Adiantou-se, depois, a expressão “educação do movimento”, ou “educação pelo movimento”. Mas… de que movimento falavam os especialistas? A Educação Física passaria a ser “educação do movimento”, ou “educação pelo movimento”. Mas (repito-me) não é a palavra “movimento” demasiado vaga e abstrata, para transformar-se em paradigma científico de uma área do conhecimento?

               

Perante o amplo panorama de memórias, de evocações e de propostas, que a história da educação física e do desporto nos prodigaliza, fundamentado na fenomenologia (a última das escolas filosóficas, que estudei na minha licenciatura) compus um novo conceito de “motricidade”, para encontrar um paradigma, onde coubesse , com inéditas e arejadas perspetivas, o “corpo em ato”, quero eu dizer: o corpo no movimento intencional da transcendência. Em 1978, na revista Ludens (Vol. 3, nº 1, Outubro-Dezembro de 1978), há mais de 40 anos portanto, já eu deixei escrito: “O homem em movimento, nomeadamente em situação de jogo e desporto, é o objecto de uma ciência nova (…).O Homem passa a ter assim mais uma forma de conhecer e de conhecer-se e, como é óbvio, ao nível das ciências que sobre ele se debruçam, preferentemente: as Ciências do Homem!” E escrevi ainda que “o estatuto do corpo fundamenta a cientificidade desta disciplina”. E que “o Homem cria valores e significações e a sua motricidade revela-o. O Homem, ao transformar, transforma-se”. Nove anos depois, em documento que apresentei ao diretor da Faculdade de Educação Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas – Brasil), onde lecionei durante dois anos (1987 e 1988) já eu questionava: “Mas haverá lugar para a ciência da motricidade humana (CMH), no quadro geral das ciências? Se a consideramos um ramo da biologia, como pretendia Spencer em relação à psicologia, ela tem o seu lugar marcado entre as ciências da natureza; se a definirmos como a ciência que estuda a explicação e a compreensão das condutas motoras, ela cabe inteiramente entre as ciências do homem”. E, linhas adiante, escrevia que a motricidade supõe: 1. uma visão sistémica do Homem (que o mesmo é dizer: em termos de relação e de integração).2. A existência de um ser não especializado e carenciado, aberto ao mundo, aos outros e à transcendência. Lembrava mesmo a célebre frase de Pascal: “o homem excede infinitamente o homem”. 3. E, porque aberto ao mundo, aos outros e à transcendência e deles carente, um ser práxico, procurando encontrar e produzir o que, na complexidade, lhe permite unidade e realização. 4. E, porque ser práxico, com acesso a uma experiência englobante, agente e fautor de cultura, projeto originário de todo o sentido e “ser axiotrópico” (que persegue, apreende, cria e realiza valores).

               

E propunha, como objeto de estudo, a motricidade humana, tentando explicar o que essa opção significava, para mim: 1. Que a Educação Física não abrange todo o campo de ação dos seus profissionais. 2. Que a Educação Motora (que poderá substituir a expressão Educação Física) é, para mim, o ramo pedagógico da Ciência da Motricidade Humana (CMH). 3. Que as Faculdades de Educação Física ou de Desporto deverão passar a chamar-se Faculdades de Motricidade Humana. 4. Que a Motricidade Humana explica o absoluto do Sentido e o sentido do Absoluto, emergentes do movimento intencional, específico do ser carente, que persegue a superação (a transcendência) e o sonho. 5. Que desta forma, como ciência e consciência, a Motricidade Humana adquire lugar indiscutível entre os “curricula” universitários. 6. Que os “curricula” das Faculdades de Motricidade Humana hão-de acrescentar às disciplinas básicas de teor biológico e de teor técnico-desportivo, outras disciplinas de teor filosófico e cultural. 7. Que a Educação Física não morre, porque não morre nunca o que foi superado. 8. Que a área da Motricidade Humana tem a riqueza ontológica e a dignidade conceptual das restantes áreas científicas. 9. E, assim, como pela transcendência, ela é uma exploração ilimitada do possível, a CMH transforma-se, indiscutivelmente, em Ciência e Cultura. E assim terminava: “Não sei se todos os seres humanos coincidem em certos princípios éticos. Mas há valores, sem os quais impossível se torna viver humanamente”. E esses valores, pela transcendência, estão presentes na CMH. E, no meu entender, não têm Pátria. Os Lusíadas valem e valem para todo o mundo. Os Sonetos de Antero de Quental são tão compreendidos e admirados, em Portugal, como na Alemanha, na França e na Inglaterra. Afinal, como Verlaine tem irmãos em Portugal. A obra de José Saramago e a de António Lobo Antunes e de Gonçalo M. Tavares florescem em todas as culturas. Não esqueço o Padre Manuel Antunes, quando escreve: “Sim, as filosofias têm uma pátria. Porém, esta é, muito mais que um espaço geográfico, um espaço espiritual” (Do Espírito e do Tempo, p. 146).

               

Se a motricidade humana tem sentido? Eu faço minha a lei da complexidade-consciência, de Teilhard de Chardin. Ao redor de cada um de nós, os corpos não são unicamente pequenos e grandes, ínfimos e imensos, mas também simples e complexos. Os polos desta imensa cadeia, que vai do múltiplo puro, vestíbulo do nada, até ao cérebro humano, com biliões e biliões de células nervosas, dão-nos a convicção de que o mundo da complexidade é tão maravilhosamente grande, tão espantosamente astronómico, como o mundo galáctico, ou supergalático. Para Teilhard de Chardin, a lei da complexidade-consciência torna possível uma leitura integral do homem e do universo. De facto, o universo não é uma ordem, mas um processo. O cosmos desponta, veemente, como cosmogénese e, portanto, é uma visão dinâmica, e não estática, o que ele nos proporciona. “O homem torna-se a flecha, o sentido da própria evolução, toda a realidade cósmica se vem condensar na personalidade humana” José Gomes Silvestre, Acção e Sentido em Teilhard de Chardin, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, p. 150). É o próprio Teilhard de Chardin a dizê-lo: “antes de dar sentido ao mundo, o homem é o sentido do mundo” (I, p. 196). Para este cientista e filósofo, “o que, em última análise, conta em matéria de evolução é saber a quem cosmicamente cabe a última palavra, se à majestosa e universal corrente da entropia, se às forças ascensionais e convergentes da vitalização. Por outras palavras, saber se é em direção do inorgânico inconsciente (solução materialista) se na direcção do orgânico consciente (solução espiritualista) que o universo, em última análise, tomba” (José Gomes Silvestre, op. cit., p. 151). Desde a Cosmogénese à Cristogénese, passando pela Biogénese e pela Noogénese, toda a matéria se movimenta em direção ao espírito e do espírito a Cristo. Também para mim, à luz de Teilhard de Chardin, o ser humano é matéria que se faz espírito. E, segundo a teoria que rege a CMH, porque é bios e logos, pela transcendência, tende ao Absoluto. A transcendência não proporciona ao ser humano as últimas aquisições tecnocientíficas, mas oferece-lhe um “saber orientador” que lhe permite possa descobrir o sentido da existência, no processo evolutivo. O sentido da existência é, pela transcendência, Deus. É conhecida a invetiva de Nietzsche: “O homem é algo que deve ser superado”. Inteiramente de acordo – mas para ser mais homem! Reside aqui o sentido da motricidade humana! Por isso, o ainda denominado “professor de Educação Física”, mais do que ensinar a “durar” deve ensinar a “viver”…

               

O ser humano é um constante “tornar-se”, um constante “fazer-se”. Não deverá estranhar-se, portanto, que muitos vejam no Desporto uma “ética em movimento” – uma ética, ou seja, uma filosofia moral, uma reflexão filosófica sobre a moral,  a qual poderá entender-se como “um conjunto de regras ou normas que regulam a conduta das pessoas e prescrevem o seu modo de atuar”. O problema do que fazer, em cada momento, em cada situação concreta, é sobre o mais um problema prático-moral.  Demais, se o Desporto e o Jogo Desportivo deverão estudar-se como especialidades da Ciência da Motricidade Humana e se a Motricidade Humana assim a defino (“o movimento intencional e solidário da transcendência”) – a prática desportiva diz-nos que a pessoa, antes de ser um conceito jurídico, é um conceito ético, pois que a transcendência se situa, simultaneamente, ao nível do biológico e do espiritual, do empírico e do religioso, do individual e do sócio-político, enfim: da natureza e da cultura. Por isso, se bem penso, uma Filosofia do Desporto deverá completar-se com uma Teologia do Desporto, tendo até em conta os ritos religiosos dos atletas de alta competição, ao longo dos seus desempenhos. Mas… o que significa a transcendência, no âmbito da “motricidade humana”, ou seja, no Desporto, no Jogo Desportivo, na Dança, na Ergonomia e na Reabilitação, etc.? Que o ser humano não é objeto, mas sujeito recriador e construtor da História; que, pela transcendência, o desportista ensina a desfatalizar a História e o Futuro; que nenhuma realização histórica deve considerar-se a última e a definitiva; que o ser humano é sempre uma tarefa por realizar. Nasce assim, não só uma nova ciência hermenêutico-humana (não há jogos, há pessoas que jogam), mas também um novo humanismo – da pessoa com a natureza, da pessoa com a sociedade, da pessoa consigo mesma. A riqueza de um curso superior de Motricidade Humana, como encontro inédito entre a Ética e História, é tão grande que até dá pena quem não quer ver…    

               

“Eis-nos no século XXI, à entrada do terceiro milénio, num universo que parece sem limites. Um torvelinho de ciência e de tecnologia deu-nos uma compreensão do mundo físico, muito além do século precedente, muito além da do século precedente. Mas isso não é tudo. Progressos espetaculares influenciam a nossa capacidade de agir sobre o nosso ambiente, próximo ou distante, nomeadamente os meios de transporte e de comunicação, os computadores e a Internet, a medicina e a cirurgia, a eletrónica, a engenharia e a genética, sem esquecer, infelizmente, as armas. Todas estas inovações criaram uma nova civilização, ao biologismo? Simplesmente inconcebível há cem anos. Uma coisa perturba esta era em que todas as esperanças são possíveis. O elo mais fraco, temos de o admitir, somos nós, os humanos. Há milénios que a conceção do humano não evolui. Continuamos ainda, quase todos, a acreditar que o homem é feito de duas essências. Seríamos a única forma de vida constituída por uma parte material, o corpo, e outra imaterial, o espírito, a alma ou “the mind”, como lhe chamam os anglo-saxónicos”. Nunca ninguém provou esta lenda, mas trata-se de uma lenda resistente” (Pier Vincenzo Piazza, Homo Biologicus, Bertrand Editora, Lisboa, 2020, p. 17). Uma lenda? Mas um escritor de ideias, um cientista, um poeta, um escritor que bem sabe do seu ofício, um artista admirado com penhorante assiduidade – em tudo isto, não se desvenda mais do que biologia? O humano não é um excesso, em relação ao biologismo? Se o ser humano é um ser de projeto e de trancendência, a natureza moral dos nossos atos, enquanto expressão da liberdade, excede em muito tudo o que as ciências, ditas “exatas”, nos podem oferecer. Ninguém pode viver sem a tecnociência, mas é evidente que o seu objeto de estudo não é toda a realidade. O ser humano realiza-se, quando transcende e se transcende, porque nele há qualquer coisa que nenhuma ciência consegue definir. Recordo, neste momento, a frase de Pascal: “Não me procurarias se, antes, não me tivesses já encontrado”. A necessidade de Absoluto vive em nós muito antes de O procurarmos com os “metros” do conhecimento tecnocientífico. Esvasiamos de sentido a vida, sem o imparável desejo de perfeição que em nós habita e que, a partir de determinado momento, a ciência positiva e empírica já não abrange. Daí, tenha sentido ético a motricidade humana!  

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