Ex-presidente das águias foi ouvido em tribunal esta segunda-feira, no âmbito do julgamento a Rui Pinto, criador do ‘Football Leaks’
Luís Filipe Vieira deslocou-se ao Juízo Central Criminal de Lisboa para prestar depoimento sobre o impacto que o caso dos e-mails teve no Benfica durante a sua presidência - isto no âmbito do julgamento de Rui Pinto, que é acusado de 241 crimes.
«Chegou uma altura que era mesmo desesperante e em que estava desacreditado como benfiquista. Não conseguia dormir nada. Para quem viveu o Benfica como vivi, era um ambiente terrível, com muita desconfiança entre todos nós», recordou, citado pela Lusa.
O Benfica recorreu da decisão no caso da divulgação dos emails no Porto Canal, face à absolvição parcial dos diretores do FC Porto Francisco J. Marques e Diogo Faria, que foram condenados apenas por alguns dos crimes imputados
O antigo presidente das águias, cargo que ocupou entre 2003 e 2021, contou também a forma como o dia a dia em torno do Benfica se alterou com a divulgação dos e-mails, que tornaram públicos contratos com atletas e patrocinadores: «Até pensavam que éramos nós a devassar esses dados, não éramos nós. Os primeiros tempos foram difíceis, sobretudo para dizer às pessoas que não fomos nós. Foi terrível, eu não conseguia estar lá mais tempo. Chegou a um ponto que era impossível, porque só se falava disso. Tive de me ausentar para o Seixal, onde praticamente só se falava de futebol. Suspeitávamos uns dos outros e ninguém podia estar satisfeito. As pessoas começaram a ter pavor de poderem aparecer coisas suas cá fora.»
O negócio «frustrado» na China
Para além deste ambiente, Luís Filipe Vieira comentou também os efeitos que esta divulgação teve para o clube, tanto dentro como fora de campo: «O Benfica cresceu muito ao longo dos anos e estava a ganhar muito no futebol. Não tenho dúvidas nenhumas de que foi para desacreditar o Benfica e travar o clube. Em termos empresariais, fomos bastante prejudicados. Em termos desportivos, basta ver o condicionamento que fizeram aos árbitros. Insinuou-se muito e há e-mails que foram completamente distorcidos»
«Ficámos desacreditados no mercado. Tenho a certeza de que um negócio relacionado com a expansão do Benfica na China foi frustrado em função da divulgação de informações», afirmou. O negócio em questão valia «à volta de 50 milhões de euros» e «implicava tudo o que estivesse relacionado com a marca Benfica».
Também nesta sessão falou o antigo vice-presidente do Benfica, José Eduardo Moniz, que afirmou que se «pretendia criar no público a noção de que o Benfica era semelhante a um ‘polvo’ que controlava e conseguia ganhar jogos e competições à conta da manipulação das mesmas».
Supremo Tribunal de Justiça condenou FC Porto a pagar cerca de 770 mil euros às 'águias'
Mais quatro testemunhas depuseram na mesma sessão, entre as quais Pedro Proença, ex-presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e agora líder da Federação Portuguesa de Futebol.
Rui Pinto responde em julgamento a 201 crimes de acesso ilegítimo qualificado, 22 de violação de correspondência agravados e 18 de dano informático.