Foi criado um observatório das artes marciais e desportos de combate em Portugal - OAMDCP (artigo de Vítor Rosa, 1)

Espaço Universidade 29-01-2019 15:36
Por Vítor Rosa

O objetivo dos desportos de combate, sejam eles da tradição ocidental (e.g. boxe, as lutas amadoras) ou oriental (e.g. judo, aikido, karaté, taekwondo), é de colocar o Homem face a face com o seu semelhante. Assemelha-se à experiência ancestral da luta dos homens entre si mesmos. Se o “homem é um lobo para o homem”, as regras definidas eliminam ou limitam as lesões corporais e estabelecem uma fórmula de “regulação de contas” de forma leal. Os desportos de combate são considerados como um espaço suscetível de confortar e de preservar a identidade masculina, controlando e reprimindo a expressão da violência física. Aquilo que nós agrupamos com o termo “artes marciais” (desportos de combate orientais) faz referência a um conjunto complexo de práticas conhecidas depois do período Kamakura (fim do século XII) no Japão, que se repartem entre Budô (pacíficas, sem armas) e os Bugei (utilizando armas), fundadas sobre o respeito do Bushidô (código de princípios morais) ou a “via dos guerreiros”.

 

No século XX, com a ocupação americana do Japão (1945-1952), estas práticas foram proibidas. As artes marciais tinham sido transformadas no final do século XIX em práticas desportivas, isto é, codificadas, regulamentadas de forma a que fossem inofensivas para os praticantes, e algumas inscritas num quadro competitivo. Esta codificação teve a ver com a globalização/mundialização das práticas da tradição oriental para o Ocidente, ou por outras palavras, receberam influências do modelo de desporto moderno criado no Ocidente.

 

Depois da sua introdução no Ocidente, as práticas de combate asiáticas, popularizadas e depois mediatizadas, não pararam de suscitar interrogações quanto às razões do sucesso da sua implantação e difusão. Na sua origem são, antes de tudo, um fenómeno urbano, ainda que durante muito tempo sofrendo de má reputação, pois foram conotadas com movimentos políticos extremistas. Este fato levanta então a questão de como se poderá explicar o seu sucesso a partir dos anos 1970 na Europa? Uma parte da resposta encontramo-la em Braunstein (1999) quando afirma que: “a criação de clubes deve-se à desestruturação familiar, sobretudo com as separações e divórcios, dando origem a um individualismo”. Com o intuito de estudar e divulgar o conhecimento mais atual em matéria das artes marciais e desportos de combate em Portugal, foi criado, em janeiro de 2019, o Observatório das Artes Marciais e Desportos de Combate. Tem por vocação estudar e promover os valores das artes marciais e desportos de combate enquanto instrumentos de educação e bem-estar no desenvolvimento humano. Da sua missão destaca-se:

 

•        Promover o estudo e a investigação acerca das AM&DC em Portugal;

•        Fomentar o diálogo de culturas, apoiando e promovendo o intercâmbio entre instituições de educação e de ensino;

•        Contribuir para o estreitamento das relações de cooperação existentes entre os clubes, associações e federações;

•        Estimular a crescente participação dos jovens em iniciativas de cooperação para a promoção das AM&DC;

•        Dinamizar e apoiar projetos de cooperação para o desenvolvimento desportivo em Portugal;

•        Organizar modelos de formação de quadros, no âmbito das políticas de promoção do desporto;

•        Cooperar com os clubes, associações e federações em projetos de interesse comum.

 

Encontra-se em curso a realização de um estudo sociológico comparativo de três modalidades de combate dual (judo, aikido e lutas amadoras). Esperemos ter, brevemente, alguns resultados para melhor se conhecer os treinadores portugueses e as modalidades em apreço.

 

Vítor Rosa é Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática; Investigador integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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