Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 9 – Comunicar as Diferenças (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 04-12-2018 13:34
Por João Oliveira

“Detetive Colombo” – dizia o Presidente do F.C. os Galácticos o Sr. Angie – “ao longo destas semanas, identificou vários “culpados” de estarem a “matar” a mudança no Clube. Quero que o Clube melhore e volte a proporcionar memoráveis experiências e resultados, aos seus adeptos e sociedade, mas quando tento mudar alguma coisa, tenho a sensação de que o resto da Direção não escuta as ideias diferentes”.

 

Detetive Colombo era uma pessoa habituada a escutar, dada a natureza da sua profissão, e considerando o seu propósito, descobrir os responsáveis de estarem a “matar” a mudança no Clube, ouvia atentamente e o Presidente Angie continuava – “estou a viver uma situação dramática, o Clube estagnou, parou no tempo, não evoluiu. Necessitámos de mudar, quero melhorar o Clube. Já conheço umas quantas coisas que estão a “matar” a mudança” – enquanto recordava algumas das oportunidades, como melhorar a qualidade da visão do Clube, da cultura, das normas, dos motivos, da estratégia e critério de decisão e da relação com os colegas, equipa e organização (ver noticias relacionadas); e continuava – “para isso, precisamos de fazer as coisas de maneira distinta, mas quando avanço com as ideias diferentes, parece que não me ouvem e consequentemente as ideias não são sequer consideradas, quanto mais implementadas. A situação é extremamente frustrante, fico irritado e começo a pensar que tenho de fazer alguma coisa, mas como não sei exatamente o quê, nem sempre o que faço provoca os resultados que desejo.”

 

“Como assim?” – perguntava o Detetive Colombo. “Frequentemente, acabo por impor a implementação das novas ideias e os meus colegas de Direção ficam irritados comigo, a nossa relação fica desconfortável, tensa e, em vez de avançarmos para as melhorias, as resistências aumentam, criam-se novos problemas entre nós e a energia da Direção passa a ser canalizada para as divergências e discussões, em vez de para as melhorias reais do Clube” – respondeu o Presidente Angie.

 

Faz-se uma pausa, ambos estão a olhar pela janela do escritório do Presidente Angie, no 44º piso, parecia estarem a contemplar a vista da cidade e a refletir, todos aqueles prédios, todas aquelas luzes, os milhares de famílias por trás desses pontos de luz e o contraste com o sossego da vista à distância, quando o momento é interrompido.

 

“Estou insatisfeito, quero melhorar a situação, não estou a conseguir, não quero ir pelo caminho fácil de apontar dedos, quero experimentar algo diferente, que me ajude a obter diferentes resultados, mas não sei exatamente o que posso fazer” – confidenciava o Presidente Angie ao Detetive Colombo, que estava admirado, quer pela relação de confiança que estava a construir com o mundialmente conhecido Presidente Angie, quer por estar a presenciar a sua grandiosidade, pois o Presidente não só reconhecia e aceitava o problema, como também assumia parte da responsabilidade em mudar a situação (em vez de arranjar bodes expiatórios), e queria efetivamente agir de forma eficaz. “São raras as pessoas que reconhecem os problemas, aceitam-nos, responsabilizam-se por eles e agem, fazem alguma coisa para os resolver” – dizia a si mesmo o Detetive Colombo.

 

“Presidente Angie, poderia contar-lhe várias histórias, de pessoas que fui conhecendo e que queriam mudar, melhorar as situações. Desde Pais que queriam evitar que os filhos cometessem os mesmos erros que eles cometeram no passado, a Líderes que pretendiam que as pessoas que com eles colaboram escutassem as ideias diferentes, passando por Professores e Treinadores que desejavam que os alunos ou atletas os escutem, para aprenderem, melhorarem, mudarem, mas os filhos, os alunos, os atletas e os colaboradores não os escutaram. Contudo e construindo a partir do que aprendi com todas essas situações, permita-me perguntar-lhe: como é que conversa, como é que comunica essas diferenças, aos seus colegas de Direção?” – perguntou o Detetive Colombo.

 

“Não estou a perceber” – devolveu o Presidente Angie. “Imagine que está na reunião de Direção, que eu sou um dos seus colegas e que pretende mudar alguma coisa no Clube. Como é que começava?” – esclareceu o Detetive Colombo. “Ok, agora compreendi. Pois chegava à Direção e dizia que a visão atual do Clube estava a comprometer a experiência e resultados do Clube, que tinha estado a estudar o problema e que devíamos fazer uma visão diferente do Clube, por exemplo” – respondeu o Presidente Angie.

 

“Como começou a sua intervenção Presidente, pelas diferenças ou pelas semelhanças?” – tentava explorar o Detetive Colombo. Após uns segundos de hesitação, como que a tomar consciência, o Presidente Angie pousou lentamente a chávena de café e respondeu – “pelas diferenças!”. “Como é reagia se alguém lhe dissesse que o que tem feito, tem que ser feito de maneira diferente?” – devolveu o Detetive Colombo. “Não o escutava, dizia a mim mesmo que não ia melhorar nada e que essa pessoa não percebia nada do assunto, sentia-me incomodado e acabaria por a ignorar ou por discutir com ela” – respondeu o Presidente Angie.

 

“Pois bem, Presidente é isso mesmo que os filhos fazem quando os Pais os abordam para fazerem as coisas de maneira diferente, que os alunos e atletas respondem quando os Professores e Treinadores tentam que os jovens façam as coisas de maneira diferente ou como um colega de trabalho reage, quando outro colega ou um líder tenta que trabalhe ou faça alguma coisa de maneira diferente. Todos eles podem ter a melhor das intenções, mas a forma como abordam a situação leva a que a sua mensagem não seja escutada” – devolveu o Detetive Colombo. “Já percebi” – respondeu o Presidente Angie – “quer dizer que embora a minha intenção seja a melhor (mudar o Clube para voltar a proporcionar experiências e resultados memoráveis), já saber o que há para melhorar, isso envolver diferenças, ao começar a abordar a situação, junto dos meus colegas de Direção, pelas diferenças, eles não só não as escutam, como consequentemente não as compreendem, nem as consideram e qualquer mudança fica comprometida.”

 

“Efetivamente o Presidente Angie descobriu mais um dos culpados de estar a “matar” a mudança no Clube, Comunicar as diferenças, isto é, a capacidade de as diferenças serem escutadas, compreendidas e consideradas. É normal as crianças, os jovens, os adultos, os colegas de trabalho, as pessoas fecharem as suas fronteiras às diferenças e com isso comprometer-se o progresso, o desenvolvimento e a transformação” – partilhava o Detetive Colombo e para sublinhar a ideia continuou – “recorda-se de como era a circulação das pessoas, no que agora se designa de União Europeia, antes e depois da União?”. “Claro, que sim” – respondia o Presidente Angie – “antes as diferenças entre os países eram mais acentuadas, as fronteiras estavam fechadas e a circulação de pessoas de nacionalidades diferentes era mais dificultada. Contudo, depois da união, as pessoas começaram a circular livremente e nem se dá pelas fronteiras, quando viajamos de automóvel, por exemplo”. “O mesmo acontece entre as pessoas quando comunicam” – aprofundava o Detetive Colombo – “quando as pessoas começam pelas diferenças é como se estivéssemos na era pré-união, as fronteiras fecham-se e as diferenças têm dificuldade em circular entre os “países” (leia-se pessoas). Todavia, quando as pessoas começam a comunicar através de semelhanças, a informação circula como as pessoas o fazem agora, na era pós-união, sem resistências”.

 

“Ou seja, se queremos que as diferentes ideias sejam escutadas, compreendidas, consideradas e possivelmente implementadas, nas diferentes organizações, paradoxalmente ajuda começar pelas ideias semelhantes, antes de apresentar as diferenças. Por exemplo, no caso da visão, podia ter começado o tema referindo que a visão existente no Clube tinha sido resultado de um excelente trabalho de todos, que tínhamos investido muito do nosso tempo e esforço na sua construção e que a mesma nos tinha ajudado a conseguir experiências e resultados muito positivos. Depois e só depois, perguntar se reconheciam oportunidades para a melhorar. No caso da conversa com os nossos filhos, podemos começar por partilhar a situação idêntica que vivemos, o que fizemos de parecido, o que sentimos de aproximado, que resultados obtivemos, o que aprendemos com a situação e o que hoje teríamos feito de diferente, e depois dar-lhes tempo e espaço para poderem aprender com a nossa experiência e conseguirem fazer diferente do que fizemos, se desejarem obter resultados diferentes do que conseguimos, em vez de lhes dizer logo que estão errados, que têm que fazer as coisas de maneira diferente ou esperarmos que deem com a cabeça na parede, para aprenderem” – concluiu o Presidente Angie.

 

O Detetive Colombo olhou pela janela do gabinete do Presidente Angie e começou a observar a aurora do novo dia, uma luz surgia por trás de todos aqueles arranha-céus. A conversa tinha sido muito agradável, ao ponto de entrar pela noite dentro, o Detetive sentia que também havia uma nova “aurora no modo de comunicar do Presidente” e pensava numa ideia simples, mas transformadora, que a atitude do Presidente lhe tinha relembrado: “se estamos satisfeitos com os resultados que obtemos, faz sentido repetirmos as soluções que provocaram esses bons resultados; mas, se não estamos agradados com os resultados conseguidos, é improvável aguardar melhores resultados, repetindo as mesmas soluções e, nesse caso, faz algum sentido tentar fazer algo diferente, para esperarmos alcançar resultados diferentes.”

 

Notas:

(1)    Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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