O desporto como biblioteca de memórias (artigo de José Augusto Santos, 24)

Espaço Universidade 13-09-2021 19:14
Por José Augusto Santos

Na minha longa e vivida experiência desportiva fui fautor, ator e vítima de episódios que demonstram a maravilhosa plasticidade da personalidade humana. A canoagem foi, sem dúvida a modalidade desportiva mais rica em acontecências. Numa das minhas primeiras idas a Riba de Sella, cidade asturiana onde acontece a mais multitudinária prova de canoagem da Europa, desenvolveu-se uma saga que só tem paralelo com alguns filmes de aventuras ou ficção científica.

O problema do sempre era arranjar as viaturas para nos levar à prova que era, naquele tempo, o nosso Eldorado. Nos anos 60 do século passado, aquilo era um pouco assim: quem se portasse bem no Remo tinha como prenda as provas de canoagem. Ora, eu sempre me portei bem (só no desporto é que me porto bem, no resto abandalho um pouco) e por isso era um dos eleitos a viajar até ao Sella. O chefe da altura, Fernando Barbedo de seu nome, tinha um Fiat 600 que transportava 2 kayaks de dois lugares e mais quatro gentes inside.  Numa das idas convidou, para condutor, o pai do nosso colega Barros que tinha um vetusto chaço, se não me engano era um Nash dos anos de 1950, transviatura idêntica à que Vasco da Gama chegou à Índia. Carro forte que levava 6 lá dentro. Descida para Redondela, antes de Pontevedra. Olho para trás e vejo uma coisa aos saltos descendo a ladeira atrás de nós em grande velocidade. O que era? Nem mais nem menos que o depósito da gasolina. Como só havia solução mecânica robusta na Corunha, um mecânico do sítio arranjou uma lata para a gasolina que foi colocada em cima do capot e com ligação direta ao motor. Estão a imaginar a gasolina a saltar e o limpa-para-brisas a funcionar espargindo gasolina para tudo o que era sítio. Dentro enjoávamos com o cheiro intenso do combustível. De vez em quando o pai Barros deixava o motor ir a baixo e lá ia ele chupar no canudo, segurando o cachimbo aceso numa mão e fazendo a manobra puxadora connosco longe. Alvitrei bem alto: Ó Sô Barros, você ainda arrebenta. Por estranho milagre o homem não rebentou e chegamos a Sella após 4 furos. As porcas da jante estavam tão calcinadas que só com a ajuda de um camionista e a sua super-chave-de-cruz é que conseguimos mudar um dos pneus. Na viagem de regresso, o bólide arrefeceu de vez as quatro patas em Mondoñedo – colaça do motor queimada, e tivemos de regressar a casa em épica viagem em quatro tipos de transporte terminando com a viagem Valença-Porto em comboio.
 

Outra estória interessante passou-se com o jovem Bártolo, meu atleta na seção de canoagem do CDUP. Estive vários anos como treinador de canoagem no CDUP sem receber qualquer maquia. Um dia, fui ter com o presidente da direção, o Cipriano Alegre, que tinha sido meu companheiro no basquetebol e disse-lhe que a partir dali queria receber também como os outros treinadores. Fiquei a ganhar 7 contos. Naquele tempo a seção de canoagem estava em grande expansão e o material – kayaks e pagaias, começou a faltar, destruídos pela usura induzida pelo excessivo uso. Reunião geral para discutir o assunto e apresentar soluções à direção. Levanta-se o Bártolo, então com 14 ou 15 anos, com uma solução extraordinária. Afirmou ele com o maior à-vontade do mundo: - Como o Zé Augusto nos ensina tudo quando nos treina, ele deixava de ser treinador e nós treinávamos por nossa conta e com os 7 contos compramos um barco todos os meses ao Nelo, que se estava a iniciar na aventura profissional que o alcandorou a melhor e mais importante construtor mundial de embarcações de canoagem. Retorqui: - Estás a dar-me o melhor elogio como treinador que tive até agora, mas como amigo és um grande sacana. 
 

Primeira Maratona de Crestuma (Entre-os Rios até Crestuma). Eu e o José Manuel éramos os vencedores crónicos de todas as provas longas em K2. A dupla Bártolo-Jorge Gomes, então juniores, tinham ido reconhecer o percurso, a meu mando, pois eu e o José Manuel não o podíamos fazer por obrigações profissionais. Depois da largada de imediato tomamos a dianteira e levávamos na nossa onda os nossos juniores. Com a prova quase a terminar chegamos a uma enorme bifurcação e perguntamos-lhes o caminho, eles indicam esquerda e nós aí vamos enquanto eles rumam à direita. Quando terminamos a bifurcação eles estavam aí uns 300 metros à nossa frente e nunca mais os apanhamos. Quando o respeito humano não se bebe no berço nunca mais é recuperado.
 

Outra história interessante diz respeito à importância do aquecimento. O desporto vive subordinado ao determinismo do aquecimento embora ele possa ser dispensado em certas situações. Descida do rio Minho entre Salvaterra e Tuy. Viajamos na carrinha da DGD e os procedimentos legais na fronteira atrasam-nos. Quando chegamos ao local da partida já os barcos das equipas espanholas estavam na água a alinhar. Berramos para o juiz-árbitro, D. Jacinto Reguera, professor do primeiro curso de árbitros de canoagem em Portugal: - D. Jacinto, por favor, espere um instante. “Teneis cinco minutos”, foi a resposta. Nunca ninguém desamarrou tão rápido os kayaks, se equipou e meteu o barco na água. Isto feito, D. Jacinto dá a largada. O stresse induzido pela situação provocou uma forte descarga de adrenalina que substituiu, para melhor, o aquecimento habitual. Nunca me senti tão bem numa largada de canoagem.
 

Mais tarde, esta situação foi replicada por um aluno meu, corredor de 400-m. Estava na bancada a relaxar com a cabeça no colo da namorada. Ele pensava que a prova era às 6 horas da tarde, mas era às 16 horas. Confundiu a hora. Os altifalantes avisam: - Os atletas para a prova de 400-m devem dirigir-se para a linha de partida. Ele, esbaforido, veste rapidamente o equipamento e sem qualquer tipo de aquecimento dirigiu-se para o local de partida. Bateu a sua melhor marca pessoal por 1 segundo. Lembremo-nos que uma acentuada descarga adrenérgica propicia uma reação de alarme em todo o organismo, músculo esquelético inclusive, que substitui muito bem as adaptações induzidas pelo aquecimento.

O desporto é um território de excesso e imprevisto que alarga os limites de cada atleta para zonas desconhecidas que têm o maravilhamento como referência. Outras dimensões humanas permitem tal desiderato, mas não com a força implícita que o desporto comporta. Deixem-me ser um sectário fundamentalista. Só o desporto e a dança permitem o homem elevar-se para patamares em que o convívio com os deuses é coisa normal.

 

 

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