A competição é “natural” (artigo de Vítor Rosa, 119)

Espaço Universidade 08-08-2020 16:24
Por Vítor Rosa

A Sociologia tem tido grandes avanços nas últimas décadas, nomeadamente pela ênfase crescente da análise histórica. Isso não significa uma mera aplicação da perspetiva sociológica ao passado, mas, sobretudo, uma forma de contribuir para uma melhor compreensão das instituições sociais do presente. Recuemos então à década de 1990. Numa entrevista dada um pouco antes da sua morte, numa espécie de balanço científico, o conhecido biologista francês Henri Laborit (1914-1995), que dirigiu a revista “Agressologie”, de 1958 a 1983, declarou: “para mim, a competição é obscena. Ela é a origem da infelicidade do homem” (Sport et Vie, novembro de 1994).

 

Omnipresente em todos os domínios de atividade (económica, política, religiosa, educativa, desportiva, artística, etc.), a competição é considerada como o comportamento normal das relações humanas. Tornou-se uma espécie de inconsciente social. Como se julga “natural”, e que se aceita como o motor necessário e inelutável da ação, promove a não colocação de questões sobre a sociedade e encerra a possibilidade de se imaginar o que pode significar um mundo sem competição.

 

Como alertava o sociólogo Émile Durkheim (1958-1917), os seres humanos veem-se a si próprios como indivíduos livres nas opções, mas, na realidade, os seus comportamentos são determinados pelo mundo social. A perspetiva competitiva é inerente ao desporto, mas o imperialismo da competição não é evidente e não é universal. O espírito de competição é determinado por um sistema social. Conscientemente ou não, ao pretender-se que a competição é inata, os desportistas, praticantes e espectadores, culturalizam a natureza. Eles arrogam a competição social para justificar um dado estado cultural.

 

A competição desportiva é uma injunção social, culturalmente interiorizada pelos seres humanos. No nossa sociedade, homens e mulheres devem se entregar aos “jogos” concorrenciais e sujeitarem-se a uma classificação para beneficiar da gratidão geral. Com a mania do número e do valor associado, a competição impõe-se como modelo dominante de legitimação do sucesso e até como ética de vida. Apesar da sua cruel seleção, e as suas implacáveis consequências, a competição é julgada por muitos como sã e formadora. Nada deve impedir a “corrida” dos melhores e os incessantes confrontos. A máxima “o essencial é participar”, atribuída a Pierre de Coubertin, é uma ilusão. No livro “La Concurrence et la mort” (La Découverte, 1995), o jornalista Philippe Thureau-Dangin”, ex-diretor do “Courrier International” e ex-presidente da “Télérama”, refere que “quando o principal artesão do olimpismo moderno afirma que ‘o essencial é participar’, não se pode ver neste slogan uma consolação para os vencidos. Trata-se de empurrar cada um de nós para entrar no jogo da concorrência (ou da competição desportiva)”. Será, então, que uma sociedade sem competição é irrealista? Para que serve ser mais forte do que o outro? O que nos traz de mais valia bater o recorde do mundo? Uma sociedade que propõe apenas a competição como a única moral de vida é uma sociedade doente.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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