O Martelo de Nietzsche VI (artigo de Gustavo Pires, 118)

Espaço Universidade 12-06-2020 12:31
Por Gustavo Pires

1- Segundo o biólogo Jean Rostand podemo-nos entender com pessoas que não falam a mesma língua, mas não nos podemos entender com pessoas para quem as palavras não têm o mesmo significado. Os maiores desentendimentos no âmbito do desporto surgem porque, muitas vezes, as palavras para os mais diversos protagonistas não têm o mesmo significado.

 

2- No inglês antigo a palavra “disport” proveniente do francês “desport” significava diversão fora de portas. No século XVII em Inglaterra podia até querer dizer “fazer a guerra” que era o divertimento dos reis. A partir do século XIX o “sport” era consubstanciado no prazer lúdico da prática de várias atividades recreativas em plena natureza, bem como no exercício de habilidades físicas, na utilização da força muscular, na destreza e no adestramento de várias acrobacias, entre elas as do circo, que deviam estar envolvidas na coragem, ser realizadas com astúcia, mas no respeito pelas regras pré-determinadas. Entre os “sports” menos formais, contavam-se, entre outros, a caça, a pesca, a natação, a equitação, a patinagem, a canoagem, os percursos pedestres, a navegação a remos ou à vela e, entre os mais formais o tiro de pistola e de carabina, o boxe, a luta, o tiro com arco, a ginástica, a esgrima ou o criket, entre outros,  que davam origem a competições formais com regras estabelecidas localmente e antecipadamente por mútuo acordo. Segundo o “Grand Dictionanire Universel du XIX Siècle” o “sport” implicava três condições: (1º) o ar livre; (2º) as apostas; (3º) uma ou mais destrezas do corpo.

 

3- Friedrich Schiller, na obra “Letters on the Aesthetical Education of Man” foi um dos primeiros filósofos a tratar das questões do jogo através do conceito de impulso lúdico, quer dizer, do instinto lúdico. Para ele, “o homem joga somente quando é homem no pleno sentido da palavra e somente é homem pleno quando joga”.

 

4- O homem é conduzido pelo instinto do jogo que, enquanto competição que é, é o fio condutor da explicação ontológica. Neste sentido, na sequência das posições de Friedrich Nietzsche e, entre outros, de Ortega y Gasset, mas ultrapassando as posições de Johan Huzinga  e, entre outros, de Roger Caillois, diremos que o jogo, enquanto competição que é, está inscrito no código genético da humanidade. Em consequência, é a atividade primeira, a mais espontânea, a mais livre, a mais criativa, a mais estética e a mais nobre da condição humana.

 

5- Pierre de Coubertin, para além das escolas de ginástica organizadas na educação física que, do ponto de vista corporativo, imperavam na Europa, numa perspetiva histórico-epistemológica, foi o primeiro a perceber a mudança de paradigma que, no quadro do industrialismo, já estava a acontecer nas atividades físicas de caráter lúdico-recreativo que vinham do passado da humanidade.

 

6- O desporto moderno arrancou quando Pierre de Coubertin, a partir do espírito do agôn do atleticismo dos gregos antigos, da pedagogia ativa das escolas públicas inglesas e do padrão burocrático-institucional do industrialismo. E, em 1892, anunciou a intenção de organizar os Jogos Olímpicos da era moderna; em 1894 fundou o Comité Internacional do Jogos Olímpicos que, posteriormente, se viria a designar Comité Olímpico Internacional e; em 1896, foi o principal responsável por se ter realizado em Atenas a primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna.

 

7- A sociedade de finais do século XIX até ao final do terceiro quartel do século XX, de acordo com a lógica dos princípios do industrialismo, viu nascer os jogos desportivos. O desporto moderno é um produto da sociedade industrial.

 

A sociedade de finais do século XX princípios do século XXI, de acordo com a lógica dos princípios do pós-industrialismo, está a ver nascer os jogos eletrónicos. Os Jogos eletrónicos são um produto da sociedade pós-industrial.

 

8- As diferenças epistemológicas entre a desportologia e a jogologia são abissais. A dinâmica livre e comercial dos jogos eletrónicos nunca se sujeitará à dinâmica politico-burocrática dos jogos desportivos. Quer dizer: (1º) O exercício do livre arbítrio dos protagonistas da jogologia jamais se sujeitará ao modelo estandardizado de procedimentos da desportologia; (2º) A dinâmica da especialização quantitativa da jogologia (variedade) jamais aceitará respeitar qualquer dinâmica qualitativa (mais do mesmo) da desportologia; (3º) A dessincronização espácio-temporal da jogologia jamais respeitará qualquer sincronização própria da desportologia; (4º) A jogologia nunca sobreviverá no quadro da  hierarquia de concentração de poder e de comando da desportologia; (5º) A lógica da responsabilidade económica da jogologia jamais se adaptará à lógica maximalista e irresponsável (gigantismo) da desportologia: (6) A lógica descentralizada da jogologia nunca se ajustará à lógica da estrutura piramidal centralizadora da desportologia.

 

9- Não tem qualquer sentido pretender-se denominar os jogos eletrónicos como desportos eletrónicos ou E-Sports. Trata-se de um paradoxo que não interessa nem ao desporto que tem um quadro epistemológico fechado fundado no espírito do agôn do atleticismo dos gregos antigos, da pedagogia ativa das escolas públicas inglesas e do padrão burocrático-institucional do industrialismo, nem aos jogos eletrónicos que devem encontrar o seu próprio paradigma num modelo aberto de desenvolvimento à escala mundial sem quaisquer constrangimentos de ordem epistemológica. Nada obsta que os jogos eletrónicos possam ter como objeto de jogo uma modalidade desportiva. Todavia não é por isso que o jogador se torna num ciberatleta. Desde logo porque, na aceção grega da palavra, um atleta (athletés) é um lutador real no sentido corpóreo da palavra.

 

10- O valor social e político do desporto com a lógica do passado sustentada na atividade física estandardizada, na ludicidade competitiva e na estrutura institucional à escala do Planeta, continua a ter todas as condições para se projetar no século XXI, assim os dirigentes políticos e desportivos o saibam compreender e amar. Todavia, em grande medida, o desporto não deixa de ser um produto acabado pelo que mudar regras ou introduzir novos desportos nos Jogos Olímpicos obriga a processos, pelo menos, demorados e pesados. Pelo contrário, os jogos eletrónicos serão sempre um processo inacabado, sem fim, desde logo porque têm na sua dinâmica de desenvolvimento um novo elemento a que os gregos antigos designavam por “tekhnè”. Na Grécia antiga a palavra “tekhnè” ligava ao trabalho dos artesãos a ideia de arte. Ora bem, no desporto, para além da estética do espetáculo, já pouco há inventar e aquilo que se inventa de novo, geralmente, tem um campo muito restrito de aplicação. Pelo contrário, os jogos eletrónicos têm a montante um espaço incomensurável de trabalho técnico-criativo de artesãos informáticos que se dedicam à concepção e produção dos jogos eletrónicos.  São eles que vão condicionar a organização do futuro pelo que o futuro dos jogos eletrónicos, em grande medida, está nas suas mãos. Por tudo isto, é pena que o desenvolvimento dos jogos eletrónicos, que, potencialmente, do ponto de vista económico e social, têm possibilidades como certamente nenhuma outra atividade à escala do Planeta, estejam a ser condicionados por lógicas de pensamento do século passado XX que nada têm a ver com a realidade que já é o desenvolvimento artístico-criativo, lúdico e competitivo da jogologia do século XXI. À jogologia o que da jogologia, à desportologia o que é da desportologia.

 

 

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