A importância da saúde mental dos atletas (artigo Vítor Rosa, 210)

Espaço Universidade 13.10.2022 19:21
Por Vítor Rosa

Émile Durkheim é o primeiro a elaborar e a aplicar um método científico na sociologia. Como meio de análise, é preciso introduzir a noção de “factos sociais”, definindo-a pela sua generalidade ao interior da sociedade e descrevendo duas caraterísticas: a sua exterioridade relativamente às consciências individuais e a ação coercitiva que pode exercer sobre essas mesmas consciências. Para Durkheim, os factos sociais consistem em representações e/ou ações da sociedade, e não na pessoa. Segundo esta definição, a linguagem verbal num determinado país é um facto social. É preciso, por isso, considerar os factos sociais como coisas e não como ideias abstratas. Isso, torna Durkheim o primeiro sociólogo empirista. Ele aplica o seu método a um vasto estudo sobre o suicídio, que ele comparar com os diferentes dados demográficos (idade, sexo, local de residência e situação social).
 

A sociologia do desporto visa descrever o desporto, como facto social, e procura estudar a realidade desportiva, composta de ações, de práticas e de comportamentos. Procura compreender as interações que se estabelece entre a pluralidade desportiva e as organizações sociais. A sociologia do desporto surge tardiamente e, como a sociologia geral, os primeiros trabalhos sobre a sociedade desportiva emanam de filósofos. Os sociólogos começam a se interessar pelo fenómeno desportivo durante os anos setenta, sobretudo em França.
 

A prática do desporto, que associamos ao bem-estar e saúde, pode ser também destruidora. Um estudo escocês, realizado em 2016, com uma amostra de 6000 indivíduos, revelava que 10% dos jovens com menos de 16 anos se auto-mutilaram no quadro do seu desporto de competição e 1% tentaram o suicídio. Muito pouco estudada, esta violência infligida pelos atletas está bem presente e é preocupante. As tentativas de suicídio podem decorrer da “pressão associada à importância de ganhar”, ao abuso de substâncias (álcool e drogas) e da “reforma antecipada ou mal planificada”. Um atleta que deixa, prematuramente, o seu desporto de eleição e se encontra sem diploma escolar, e sem outro meio de assegurar a sua subsistência, pode entrar num estado depressivo e, eventualmente, suicidário. Michel Phelps, um nome bem conhecido no mundo da natação, revelou a sua experiência contra a depressão A ginasta Simone Billes e as tenistas Naomi Osaka e Ashleigh Barty decidiram colocar, em primeiro lugar, a sua saúde mental.

Em Portugal, um dos atletas a fazê-lo foi o surfista Vasco Ribeiro, que revelou ter pedido ajuda profissional. Mais recentemente, dia 10 de setembro de 2022, foi o jogador de futebol Cristiano Ronaldo a partilhar uma fotografia ao lado do Jordan Peterson, conhecido psicólogo. Phelps, que se tornou um dos grandes embaixadores mundiais em defesa da importância da saúde mental dos atletas, declarou que preferia ter a oportunidade de salvar uma vida do que ganhar mais uma medalha de ouro. Na sua opinião, já se perderam demasiados atletas olímpicos para o suicídio. Merece reflexão e a sociologia do desporto poderá contribuir nessa análise.


Vítor Rosa

Sociólogo, Pós-Doutorado em Sociologia e em Ciências do Desporto, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática.

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