Algumas interrogações (artigo de Armando Neves dos Inocentes, 67)

Espaço Universidade 12.09.2022 16:19
Por Armando Neves dos Inocentes

1

Antes da Volta a Portugal em bicicleta o ‘doping’ esteve na ordem do dia. Suspensão de oito ciclistas, detenção de um director e de um massagista...Em relação a este tema, "alguém acredita que um ciclista, para fazer 200 ou 300 quilómetros, sob sol, chuva, subindo, descendo, fazendo médias verdadeiramente impressionantes de 40 ou 50 quilómetros hora, não necessita de alguma coisa que o ajude a suportar todo esse esforço? Responda quem quiser, ou então que se submetam a esforços semelhantes e depois digam se têm de tomar ou não estimulantes..."
A pergunta foi feita por Joaquim Agostinho em 1982...


2

A tenista ucraniana Marta Kostyuk recusou-se a cumprimentar a adversária bielorrussa Victoria Azarenka no final do encontro entre ambas no US Open de ténis, por considerar que a antiga número um do mundo não tomou uma posição relativamente à guerra na Ucrânia. 

Os que condenaram o comportamento do judoca egípcio Islam El Shehaby, quando se recusou a cumprimentar o adversário israelita Or Sasson, nos J. O. do Rio de Janeiro, assim como os que condenaram o judoca argelino Fethi Nourine quando abdicou dos J. O. de Tóquio para não defrontar o israelita Tohar Butbul, também condenaram Marta Kostyuk?


3

Oito medalhas nos Europeus de 2022 parecem mostrar que a nível desportivo Portugal respira saúde… Mas só no atletismo foram 43 atletas para 2 medalhas (façam a conta: dá 0,047)… Pela primeira vez, Portugal apresentou-se sem um atleta que fosse para as maratonas. A questão que se coloca é: o que é feito do meio-fundo e do fundo português?


4

No norte do país disputou-se a 31ª edição do grande Prémio Jornal de Notícias – Leilosoc em ciclismo… Sem se consultar o Google, alguém saberá o que é, para que serve, ou o que quer dizer «Leilosoc»?


5

Foi preciso uma jornalista colocar a um treinador uma pergunta não relacionada com o jogo de futebol que tinha terminado para se descobrir que um artigo de um regulamento é inconstitucional. Foi preciso o Conselho de Disciplina da FPF instaurar um processo disciplinar a uma jornalista (porque os jornalistas são incluídos na condição de “agentes desportivos”) para se descobrir que um artigo de um regulamento é inconstitucional. E se o artigo 91º do regulamento das competições organizadas pela Liga de Futebol Profissional é inconstitucional, isso não torna todo o regulamento inconstitucional? Ou chega decidir-se “desaplicar o artigo 91.º ”?


6

O Conselho de Ministros aprovou uma verba de 31,2 milhões de Euros para Portugal preparar e estar presente nos J. O. de Paris 2024. Face a um aumento de cerca de 17,15% em relação a Tóquio, o aumento de medalhas será proporcional?


7

Por cá, Gabriel Silva, do Santa Clara, lançou a bola para fora de campo depois de esta ter acertado em cheio na cara de André Amaro, do Guimarães, para que este pudesse receber assistência de imediato. Por Espanha, no Cádiz – Barcelona, o guarda-redes do Cádiz, Ledesma, apercebeu-se que um espectador estava em dificuldades na bancada e, lesto, correu atravessando o campo para levar um desfibrilhador (que lhe foi facultado por um elemento do departamento médico do Barcelona) para que aquele pudesse ser assistido. Por cá uma criança foi obrigada a assistir a um encontro de futebol em tronco nu porque o clube não permite a utilização de adereços do clube visitante nas zonas das bancadas destinadas aos apoiantes da equipa da casa.

Quando teremos dirigentes (alguns) com posturas iguais às de (alguns) jogadores?


9

Beatriz Fernandes, campeã mundial de C1200 metros júnior (canoagem), 18 anos. Diogo Ribeiro, três medalhas de ouro no mundial júnior de natação e recorde do mundo nos 50 metros mariposa, 17 anos. Irão ter os apoios necessários e suficientes para se afirmarem na alta-roda dos seniores?


10

A 24 de Novembro de 2009, um jornalista desta casa, António Simões, na versão em papel de «A Bola», na página 39, trazia-nos a parábola da vaca:


"Profeta e discípulo em peregrinação perderam-se na negrura de uma montanha rude, descobriram cabana com gente pobre dentro. Deram-lhes o que tinham: o calor da fogueira, o leite que lhes sobrara do jantar, contaram-lhes que a vaca era o que os sustentava. Dormitaram, partiram. Era de madrugada, a vaca pastava à beira de um precipício – e o profeta ordenou ao discípulo, desconcertando-o:

– Atira-a para o penhasco!

– A vaca morre, a família fica sem alimento, balbuciou.

O profeta insistiu, o discípulo cumpriu a ordem em angústia. Várias vezes, culpando-se, lamentou-se, chorou...

Algum tempo depois, voltaram à montanha. Já não era a cabana miserável, havia plantações em redor, animais pastando. Ao jantar, não lhes deram leite, serviram-lhes carnes, frutas, vinhos, licores, tudo da quinta grande, deles. Dormitaram, partiram. E o profeta soltou em brado ao discípulo:

– Se não empurrasses a vaca para o penhasco, continuavam a alimentar-se apenas de leite, não tinham mudado de vida..."


Haverá por aí alguma vaca que seja necessário empurrarmos para o penhasco?


Armando Neves dos Inocentes é Mestre em Gestão da Formação Desportiva, licenciado em Ensino de Educação Física, cinto negro 6º dan de Karate-do e treinador de Grau IV.



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