Espírito desportivo: valores em conflito (artigo de Vítor Rosa, 152)

Espaço Universidade 14-06-2021 15:15
Por Vítor Rosa

Os universos moral e desportivo cruzam-se. Com a prática desportiva pretende-se inventar um universo à parte: ser “desportivo” é ser “moral”; ser “atleta” é ser “exemplar”. Cremos que é uma imagem demasiado fácil e redutora, até porque temos versões negativas da prática desportiva: os excessos, as lesões, as violências, as corrupções, etc. No geral, o desporto vive prosaicamente com o seu tempo, pretendo magnificar a sua imagem. Desejando ser um modelo, deixa-se devorar pela paixão. Quando se pretende perfeito, cria uma certa inquietação.
 

Que sentido dar, então, a estes “combates” regulamentados, do qual o desporto-espetáculo se tornou emblemático, esta “mise en scène” que se pretende exemplar e que fascina? O tema educativo está, inevitavelmente, presente, mas como compreender um desporto que afirma o seu valor formativo, quando, na verdade, pode trair o seu projeto inicial? Quais são os valores que são transmitidos aos jovens de hoje?
 

Se olharmos para a expansão do desporto no final do século XIX, ou seja, o das competições físicas abertas a todos, regulamentadas pelos clubes e associações, não parece existir uma exigência pedagógica. A moral da valorização da competição, em que se promete o seu controle, faz sonhar com uma prática onde triunfam os equilíbrios educativos: o prazer e a vontade, a iniciativa individual e solidária. Nasce um “espírito desportivo”, uma Morale des Sports, para retomar o título de um ensaio de Paul Adam (1907), que leva à “energia do caráter e o vigor”, e que alia o aperfeiçoamento individual e o respeito pelo outro. Nasce também o sentido da regra moral em que a gratuitidade do confronto desportivo leva ao “culto da honra e da sinceridade”, segundo Pierre de Coubertin.
 

Difundir o “fair-play” atravessa a vida doméstica e a vida do trabalho, e nas relações sociais. Daí a insistência do modelo exemplar do desporto. O desporto agrada pelo fervor competitivo e pela sua moralidade. A prática imposta constrói um mito, ou seja, um evento de uma perfeição credível e, portanto, realizável num mundo quotidiano, a crença da sociabilidade exemplar, idílica, que proíbe a banalidade dos dias.

O espírito desportivo é uma forma excecional de suscitar os modelos e de os exibir. Como todo o fenómeno de sociedade, a ligação entre desporto e educação, postulando a virtude do desporto, presta-se a diversas interpretações. O espírito desportivo assenta numa representação do homem e da mulher (corpo e alma) e a expressão de um jogo através de regras e de representação de um homem e de uma mulher aptos a desenvolver as suas qualidades físicas e intelectuais.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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