26 janeiro 2025, 17:59
«Continuo a acreditar no plantel e disse tudo aos jogadores»
Bruno Lage, treinador do Benfica, tomou posição este domingo, em conferência de imprensa
Nada nestas atitudes do treinador do Benfica — a euforia na vitória em Belgrado; a rodinha depois do triunfo de última hora com o Mónaco; os murros de convicção na mesa da sala de conferências de imprensa; as palavras inflamadas a pedir a ajuda dos adeptos… — parece genuíno, tudo deixa o observador de nariz torcido e olho franzido. Este é o ‘Nunca mais é sábado’, espaço de opinião de Nuno Raposo
Mais um capítulo da série treinadores (ou dirigentes, ou jogadores) a falar com adeptos. Porém este com contornos diferentes e com jeitos de armar ao pingarelho. E quem quis armar-se ao pingarelho foi Bruno Lage. Não, o treinador do Benfica não quis ir «defender os jogadores», como disse ter feito: Bruno Lage quis apenas defender-se a ele mesmo, sacudir a água do capote e meter a guarda pretoriana do seu lado. Bruno Lage quis atrair as atenções pelas aparências, só que o feitiço, como tantas vezes acontece, virou-se contra o feiticeiro. E a bomba explodiu-lhe nas mãos logo na manhã seguinte.
Já aqui escrevi neste espaço, demasiadas vezes, que dirigentes, treinadores, jogadores não devem ir justificar-se junto dos adeptos nas noites de crise. Devem sempre respeitá-los em campo, sim, e fora dele também, mas neste caso para o autógrafo da praxe, a foto da moda ou a palavra de carinho mesmo que de circunstância. Ir dar explicações na hora da derrota é não apenas nada acrescentar como pode tornar-se perigoso — e não o digo para a integridade física dos protagonistas, mas antes pelo efeito perverso que isso causa. Ainda para mais quando o adepto que normalmente exige essas justificações a altas horas da madrugada é o mesmo que atira tochas aos autocarros, rebenta petardos na rua e muitos apresentam até cadastro por esses feitos. Foi o caso de Bruno Lage, que se viu a dar explicações a um arruaceiro condenado por atirar pedras a um autocarro de clube adversário. O petardo rebentou na mão de Lage.
Rebentou e desta vez porque foi o treinador o causador da confusão. Quis tirar benefício próprio da situação, sarar a sua ferida da derrota com o Casa Pia, sair por cima de jogadores e dirigentes. Na sua ideia, todos estiveram mal menos ele, que precisa dos adeptos para mostrar-lhes como se faz.
26 janeiro 2025, 17:59
Bruno Lage, treinador do Benfica, tomou posição este domingo, em conferência de imprensa
Tudo isto é ainda mais bizarro quando tudo soa a falso. Nada nestas atitudes de Bruno Lage — a euforia na vitória em Belgrado; a rodinha depois do triunfo de última hora com o Mónaco; os murros de convicção na mesa da sala de conferências de imprensa; as palavras inflamadas a pedir a ajuda dos adeptos… — parece genuíno, tudo deixa o observador de nariz torcido e olho franzido.
André Villas-Boas, naquela noite de espera após derrota em Moreira de Cónegos e precoce eliminação da Taça de Portugal aos pés do Moreirense, na 4.ª eliminatória, também foi lá justificar-se aos profissionais da arruaça. Fez mal mas terá aprendido a lição — tanto que não mais repetiu o erro. Bruno Lage não terá essa lição para aprender, porque o que fez nesta noite pós-Casa Pia foi pensado com preceito. Mas terá outra, sobre as palavras que disse mas que lhe saíram pela culatra. Só podiam ter saído, saiu-lhe o discurso nas redes para toda a gente ouvir e… bem entender. Por muitas explicações fora de tempo que tenha dado.
Ganhou no entanto em Turim com a Juventus, ganhou fôlego para respirar mas não resistiu a ir outra vez ter com os adeptos, aqueles que parece querer domar com palavras alvoraçadas. Está vista a tática…
Tenho para mim, porém, que justificações, cara a cara, os treinadores devem apenas às administrações e estas aos acionistas; as direções devem-nas apenas aos sócios e em assembleia geral. E podem usar depois os meios para os tornarem públicos e deve a comunicação social fazer o seu papel de escrutínio. E o resto é conversa… muitas vezes fiada.