Georges Vigarello e a sua História da Fatiga (artigo de Vítor Rosa, 201)

Espaço Universidade 25.06.2022 16:55
Por Vítor Rosa

Stresse, “burn-out”, esgotamento físico e mental: os séculos XX e XXI são vistos como uma extensão do domínio da fatiga. Os esgotamentos físicos e mentais vão desde o trabalho a casa, do lazer às condutas quotidianas. Uma hipótese atravessa o livro do historiador e agregado de filosofia George Vigarello, na “Histoire de la fatigue : du moyen âge à nos jours”, publicado pela Seuil: um ganho de autonomia, real ou imaginário, foi adquirido pelo indivíduo das sociedades ocidentais e a descoberta do “eu” mais autónomo e o sonho permanente de liberdade tornaram mais difíceis suportar tudo o que pode nos constrange ou entrava.

O autor, com quem tive o privilégio de conversar por breves momentos em Paris, coloca a questão: o que nos aconteceu? Este livro, inovador, revela uma história pouco estudada, rica de metamorfoses e de surpresas, desde a idade média aos dias atuais. As formas “privilegiadas” de fatiga evoluíram com o tempo. Os sintomas de cansaço se modificaram, as palavras se ajustaram, as explicações se desdobraram e as reivindicações surgem com maior acuidade. Esta obra é percurso apaixonante que cruza a história do corpo e das sensibilidades, as estruturas sociais e o trabalho, a guerra e o desporto, até às questões da intimidade.
 

A crise sanitária e o confinamento pela Covid.19 aceleraram o fenómeno: a fatiga está em todo o lado. A história da fatiga cruza-se com outro dos campos de investigação favoritos do autor: o do sentido de si mesmo. O aumento do individualismo inventa novas formas de fadiga, que nascem do fosso entre os sonhos cada vez maiores de autonomia e de autorrealização e as formas de constrangimento e de controlo que estão constantemente a reforçar o seu domínio, particularmente no que diz respeito a ritmos e a condições de trabalho.

Os leitores familiarizados com o trabalho de George Vigarello encontrarão nele a marca do seu interesse pelas práticas desportivas, ou pela silhueta, cujo cânone evoluiu no século XIX com a crescente importância da respiração e a consequente valorização de novos índices de robustez física, a circunferência do peito em primeiro plano, medida por recrutadores militares e acentuada pela moda dos coletes. A fatiga pode revelar uma sociedade e a sua evolução.


Vítor Rosa

Sociólogo, Pós-Doutorado em Sociologia e em Ciências do Desporto, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática.

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