Ver Longe, Analisar em Profundidade, Promover a Inovação, Pensar no País (I) (artigo de Gustavo Pires, 125)

Espaço Universidade 14-09-2020 19:08
Por Gustavo Pires

Tomar medidas difíceis em tempos difíceis é fácil. As populações amedrontadas, na ânsia de se salvarem, até aceitam chefes autoritários e demagógicos que, imediatamente, se aproveitam das circunstâncias para reforçar o seu poder. Todavia, os verdadeiros líderes, aqueles que são portadores de futuro, afirmam-se naturalmente através de decisões  difíceis nos tempos fáceis, porque, regra geral, são as decisões difíceis nos tempos fáceis que, realmente, têm o potencial necessário para desencadear um futuro melhor do que aquele que aconteceria caso não tivessem sido tomadas.

 

1.      A fragilidade do desporto nacional.

Esta reflexão ocorre-me precisamente no âmbito da extrema fragilidade em que o desporto nacional se encontra. Não pelo desporto em si, mas pela incapacidade das suas lideranças. Não pelo Covid-19 que, tudo indica, será superado, mas pela mais confrangedora incapacidade de, nos últimos vinte anos, se terem tomado as medidas necessárias ao desenvolvimento sustentado do desporto. Antes pelo contrário, têm sido bastas as medidas que têm colocado o desporto nacional no caminho dos dinossauros. Por isso, não vale a pena, agora, chorarem-se lágrimas de crocodilo a lamentar a irrelevância sociopolítica do desporto porque os seus protagonistas são irrelevantes. Se bem interpreto a prosa de António José Silva (A Bola, 2020-08-27), a irrelevância sociopolítica do desporto não é porque os seus protagonistas são irrelevantes é porque os seus protagonistas políticos e desportivos são responsáveis.

 

2.      Planos estratégicos.

O desporto, mais uma vez e não será certamente a última, foi olimpicamente ignorado em dois documentos relativos ao desenvolvimento económico e social do País: (1º) Programa de Estabilização Económica e Social (2020-06-07); (2º) Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 (2020-07-21). E foi ignorado não porque os responsáveis não gostam de desporto, mas porque dele têm uma visão infantilizada o que significa que não lhe conferem a massa crítica que, na realidade não tem, mas podia ter, a fim de, numa perspetiva transversal, figurar como catalisador, num plano estratégico para o desenvolvimento do País.

 

3.      Turismo cultura e desporto.

Quando os dirigentes desportivos comparam o desporto ao turismo e à cultura reivindicando um tratamento  idêntico acabam por não compreender o ridículo em que caem. Como se a final da Champions no seu pacóvio nacionalismo pudesse ser comparada ao patriótico nacionalismo da Nabucco, ou se a dimensão económica do desporto nacional pudesse alguma vez comparar-se à importância económica do turismo que, para além dos  336,8 mil empregos em 2019, vale 14,6% da economia nacional. Este tipo de argumentos faz-nos lembrar os desejos libidinosos de Íxion e as respetivas consequências, ao “tomar a nuvem por Juno”. Na realidade, o pior que o desporto nacional tem é que muitos dos  seus dirigentes, encantados com as luzes e o foguetório das cerimónias olímpicas, ou, completamente embriagados pelas odisseias da seleção nacional de futebol, regressados ao planeta Terra, acabam por não ser minimamente capazes de enquadrar o processo de desenvolvimento do desporto a partir das virtualidades do próprio desporto no desenvolvimento do País.

 

4.      Capital social.

É claro que a generalidade dos políticos não tem a mínima noção daquilo que é o capital social do desporto para além dos espetaculares golos do Ronaldo. Todavia, a culpa não é deles, a culpa é dos dirigentes desportivos que, salvo as devidas exceções,  ao atingirem os lugares de cimeira do desporto passam a preocupar-se fundamentalmente com a longevidade do lugar que ocupam, sua imagem pública, as comendas e os honoris, o “dress code” das cerimónias institucionais, a recandidatura, o acesso a cargos em instituições internacionais ou, entre outros, a organização de eventos que não servem para nada a não ser para o seu próprio prestígio. E fazem-no em prejuízo do desenvolvimento do desporto, das respetivas modalidades e do bolso dos contribuintes. Portanto, não vale a pena agora os dirigentes desportivos chorarem lágrimas de crocodilo na medida em que eles, por ação e omissão, são os principais responsáveis pela Situação Desportiva em que o País se encontra e o miserável Nível Desportivo que o desporto apresenta. E esta situação é tanto mais lamentável quanto se sabe que, enquanto os políticos vão e vêm às dezenas, dirigentes desportivos há que têm as suas raízes nos anos setenta e oitenta do século passado.

 

5.      Rasgar de vestes.

O problema de os Governos ignorarem olimpicamente o desporto não é de agora. Vem de há muito tempo e, sobretudo, para não irmos mais longe, desde as pretensas políticas públicas desencadeadas a partir de inícios do corrente século, pelo que foi com espanto que assisti ao público rasgar de vestes do presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) de seu nome JM Constantino a criticar o Governo pela “ausência de uma visão estratégica para o desporto” na medida em que, nos últimos vinte anos, tanto no domínio da Administração Pública quanto no domínio do associativismo, ele foi uma das figuras mais preponderantes no desporto nacional, pelo que, certamente, a mais capaz de explicar o que se está a passar.

 

6.      A insustentável leveza do ser.

Segundo a  Lusa/RTP (2020-08-19) para o presidente do COP "a apresentação do Programa de Estabilização Económica e Social (PEES), no âmbito do qual o desporto primou pela ausência, constituiu um elemento revelador do parco peso político que o desporto tem junto dos outros setores da governação (...) e da total desconsideração e ausência de uma visão estratégica para o país na qual o desporto tenha lugar". E o presidente do COP censurou ainda o facto de o desporto não estar incluído na Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030, projeto que define dez eixos estratégicos para a recuperação do país onde o desporto, de facto, "é totalmente ignorado e negligenciado". E lembrou que tal opção vai ao arrepio de diretrizes das Nações Unidas e da União Europeia sem referir quais. Melhor seria ter citado Kundera na insustentável leveza do desporto, na fragilidade da sua natureza, nas paixões que desencadeia, na imaginação de um destino comum e na liberdade que proporciona.

 

7.      Ao tempo de Passos Coelho.

Ao ler as dolorosas críticas do presidente do COP, relativamente à falta de visão estratégica do Governo, vieram-me à memória os difíceis anos de 2011 a 2015, ao tempo do XIX Governo presidido por Passos Coelho, quando o País estava envolto numa enorme crise financeira. Então, o presidente do COP, JM Constantino, numa entrevista ao Record disse: “Não ignoro o quadro que estamos a viver”. E  explicou: "Reconheço que num quadro de redução significativa do financiamento público, não ao projeto olímpico, mas designadamente às federações desportivas, seja difícil estabilizar uma linha de orientação estratégica para o desporto nacional”. (Record, 2014-03-25)

 

8.      Entre a velocidade e o esquecimento.

A velocidade que, de Ciclo Olímpico em Ciclo Olímpico, é exigida ao processo desportivo, mesmo que não se tenha a mínima ideia para onde se vai, nos seus paradoxos e contradições, está a desmemoriar os dirigentes. Voltando e parafraseando Kundera, direi que fica por perceber se os dirigentes se esquecem porque vão com muita velocidade ou  vão com muita velocidade para se esquecerem. Claro que só eles podem esclarecer.

 

9.      Pedido de Esclarecimento.

Aqui fica um pedido de esclarecimento ao presidente do COP: Porque é que, em Março de 2014, quando existia uma única crise (financeira) que atingia sobretudo os países ocidentais,  com uma evolução previsível  e controlável como se veio a verificar, era “difícil estabilizar uma linha de orientação estratégica para o desporto nacional” e, em Agosto 2020, quando existem três crises (pandémica, económica e financeira)  a laborar a uma escala mundial, de difícil ou, até mesmo, de impossível previsão e controlo, se critica o Governo por “ausência de uma visão estratégica para o desporto”?

 

10.  Diferentes leituras no meio da tempestade!

Uns dias depois, o presidente do COP voltou à comunicação social a fim de anunciar a possibilidade de se estar perante “o colapso do desporto em Portugal” (A Bola, 2020-08-25)  afirmando a sua surpresa para com a interpretação dada à normativa de retoma da atividade desportiva da Direção-Geral da Saúde (DGS). E disse ter “uma leitura contrária à do Governo” pelo que afirmou serem "de enorme gravidade" as orientações da DGS para a retoma da atividade desportiva” (O Jogo, 2020-08-26) que estabelece as normas a cumprir por cada modalidade desportiva no regresso ao treino e à competição. Infelizmente, no meio da tempestade com o navio a colapsar, não ficámos, no seu concreto, a conhecer as soluções do presidente do COP.

 

11.  E o contrato-programa IPJD x COP?

Quanto ao hipotético colapso do desporto nacional, devido ao quadro de constrangimentos das modalidades no regresso à prática desportiva, a posição do presidente do COP devia merecer uma explicação tendo, conjuntamente, em atenção três questões: (1ª) Em caso de tragédia de doença com graves sequelas ou morte quem assume as responsabilidades relativamente a atletas e seus familiares, mas, também, a técnicos e a dirigentes? (2º) Onde estão os planos de contingência? Segundo um estudo do Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde da Universidade de Washington, Portugal poderá ter quase 20 mil novos casos diários de covid-19 em Dezembro. E a projeção aponta para um número acumulado de óbitos entre os 4 mil e os 11 mil em Janeiro;  (3º) No quadro do Contrato-programa (n.º CP/1/DDF/2018 - Diário da República, 2.ª série, N.º 18 - 25 de janeiro de 2018) o que é que o COP, em matéria de retoma do desporto nacional, propôs concreta e objetivamente ao Governo?

Existindo um contrato programa de desenvolvimento do desporto entre o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ)  e o COP, o que se esperava era que houvesse uma concertação de posições a fim de, no meio da tempestade, não se verificar um desacordo operativo entre as duas entidades. Ficam-se a aguardar explicações do presidente do COP.

 

12.  O hipotético colapso do desporto.

A hipótese de colapso imediato do desporto nacional não tem qualquer sentido. Perante a crise suponho mesmo que, colapsar por colapsar, é mais fácil acontecer o colapso do COP do que o dos clubes que, por esse país fora, garantem a prática desportiva e, na verdade, são eles a verdadeira força motora de sustentação do desporto nacional. Por isso, o anúncio de um hipotético colapso do desporto parece-nos, no mínimo, um exagero que não se esperava de quem tem a obrigação de dar um rumo e um sentido de esperança ao futuro do desporto nacional. E é tanto mais grave quanto ignora o que foi a institucionalização do desporto português desde há cerca de cento e quarenta anos.

 

13.  As origens do moderno desporto português.

O moderno desporto português, que nasceu no último quartel do século XIX, não surgiu nem das estruturas burocráticas do Estado nem das estruturas civis que, ao longo dos últimos anos, em regime de monopólio, se têm vindo a apropriar do desporto. Este, nasceu no seio das famílias, entre elas a Família Real, que por iniciativa e a expensas próprias organizaram e desenvolveram as primeiras atividades desportivas que chegavam ao país vindas dos mais diversos pontos da Europa e começaram a fundar os primeiros clubes que, na lógica do industrialismo, deram forma a partir da base ao desporto nacional. Quer dizer, para além das estruturas burocráticas públicas e privadas (muitas delas só servem para atrapalhar) se existe algum desporto em Portugal é porque as famílias não o deixam morrer nem deixam morrer os clubes que elas próprias fundaram e sustentam. Por isso, o hipotético anúncio do imediato colapso do desporto nacional não tem qualquer sentido. A visão catastrofista do desporto devido ao Covid-19 só pode ser prevista por quem não é capaz de compreender a base que o sustenta. Por quem, numa visão hiperburocratizada, só é capaz de olhar para o desporto de cima para baixo. Felizmente, contrasta com a posição do presidente da Confederação dos Treinadores de Portugal, de seu nome Pedro Sequeira que, em cooperação com a Direção Geral de Saúde e a Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, garantiu o regresso à prática desportiva dos escalões de formação assim que estejam definidos os moldes em que os treinos e as competições deverão ocorrer. (A Bola, 2020-09-10).

 

14.  Discursos de vitimização.

Para além do Covid-19, o principal problema do desporto já vem de longe e tem a ver com a incapacidade dos diversos organismos públicos e privados racionalizarem Políticas Públicas verdadeiramente ao serviço dos portugueses e do País. As aparições públicas que têm vindo a acontecer, protagonizadas por diversos agentes do desporto nacional, pecam por um deficiente processo de análise da Situação Desportiva do País nas suas relações sociopolíticas e técnico-funcionais, com as quais nunca se preocuparam. Em consequência, remetem-se a um discurso de vitimização que, no estado de emergência que o País vive, só serve para demagogicamente entreter os apaniguados e, pior ainda, atrapalhar aqueles que têm de tomar decisões no meio da tempestade. De resto, por informação do Secretário de Estado da Juventude e Desportos, não há conhecimento de que algum clube tenha fechado portas. (Público, 2020-09-06). E não acredito que algum clube o venha a fazer.

 

15.  Congresso dos clubes desportivos.

Creio que chegou o momento de dar voz à base do Sistema Desportivo, às famílias, aos clubes, aos treinadores (95% dos quais voluntários) e a todos aqueles que, na base do Sistema Desportivo, nas mais diversas atividades, para além das luzes da ribalta, todos os dias e em todo o País, dão vida ao desporto nacional. É tempo de regressar às origens, como deve acontecer nos momentos de grandes crises e recordar o I Congresso dos Clubes Desportivos realizado em 1933. Ao tempo, os clubes desportivos através dos seus representantes,  solicitaram a Oliveira Salazar que olhasse com olhos de ver para o desporto nacional. Claro que Salazar não se fez rogado, mas isso é outra história. A partir deste facto histórico, para além das realizações entretanto levadas a cabo pela  Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto que não podem ser ignoradas, deixo a Vítor Pataco a sugestão de, no quadro da divulgação dos resultados do inquérito aos clubes, proponha superiormente a realização de um Congresso dos Clubes Desportivos Portugueses a fim de, a partir da base, se debaterem os verdadeiros problemas do desporto nacional.

 

16.  Acontecimentos imprevisíveis.

Para além das inglórias lágrimas que se possam verter, o cenário criado pelo  Covid-19, deve ser aproveitado pelos clubes da base do desporto, para mudar a lógica de funcionamento e o dramático rumo do desporto nacional, institucionalizado a partir do início do corrente século. Trata-se de uma oportunidade única. Recordo que, na linha de pensamento de Gilbert Heebner, uma das leis para prever o futuro diz-nos que, de tempos a tempos, surge um acontecimento, geralmente imprevisível, que obriga a sociedade a mudar de rumo. Nesta perspetiva, espero que, a dramática situação que a pandemia veio criar, permita aos dirigentes que estão na base do Sistema Desportivo perceber que chegou o momento para desencadear uma mudança estratégica no funcionamento do desporto em Portugal, uma mudança que institucionalize um modelo orgânico de desenvolvimento a partir da base do Sistema Desportivo que é onde o desporto verdadeiramente acontece. Um desenvolvimento que parta das famílias, das escolas e dos clubes e não dos idílicos sonhos de alguns dirigentes políticos e desportivos que, regra geral, à custa do dinheiro dos contribuintes, acabam em dramáticos pesadelos.

 

17.  Salve-se quem puder.

O surgimento do Covid19 tratou-se de um acontecimento imprevisível para o qual a sociedade global, bem como a multiplicidade das organizações públicas e privadas, com e sem fins lucrativos, não estavam preparadas para enfrentar. Por isso, o que mais se tem visto durante a pandemia é  vários responsáveis sem saber o que fazer. Decisores sociopolíticos que, habituados a governar ao estilo “magister dixit” do “quero posso e mando”, estão a revelar não ser capazes sequer de perceber  o padrão de imprevisibilidade do cenário que decorre da pandemia. Então, exigem a elaboração de planos estratégicos quando os cenários não permitem a mínima previsibilidade necessária para os idealizar. E pretendem impor tomadas de decisão “em cima do joelho”, isto é, sem os dados, a informação e o conhecimento necessários quando estão em causa a vida e a saúde das pessoas, o funcionamento do sistema de saúde e a economia do País. E, pior ainda, perante o desconhecido, têm revelado ser incapazes de constituir equipas de trabalho de competências diversas que preparem processos de tomada de decisão minimamente coerentes e credíveis. Esta incapacidade é tanto mais grave quanto se sabe que, na maioria das vezes, o consenso cruzado das previsões de especialistas de várias áreas científicas costuma estar certo. O problema é que como se habituaram a um estilo de liderança em que só se ouvem a si próprios, agora, não são capazes de ouvir ninguém. E tomados pelo pânico do “salve-se quem puder”, vão para a comunicação social anunciar o caos e estabelecer mais confusão do que aquela que já existe.

 

18.  Exercícios de inutilidade.

Planos estratégicos e decisões definitivas em cenários de grande imprevisibilidade não passam de meros exercícios de inutilidade. Antes de fazer qualquer predição todo e qualquer planeador deve estar convicto do alto grau de probabilidade de ocorrência do elemento a que a predição diz respeito. Isto é, deve estar consciente de que vai controlar elementos que vão ser objeto de planeamento. É, simplesmente, absurdo aplicar o termo planeamento a matérias que não são controladas pelo planeador, quer dizer, a elementos que fogem ao seu próprio controlo. Nesta conformidade, o planeador tem de começar por adaptar as suas decisões ao ambiente e tipo de acontecimentos com que está a liderar porque: (1º) Aquilo que está na esfera de controlo do planeador é suscetível de ser planeado; (2º) Aquilo que não está ou foge da esfera de controlo do planeador, pode, se necessário, ser considerado, mas não planeado.

 

19.  Acontecimentos.

Todo e qualquer plano, seja ele estratégico ou não, deve ser elaborado tendo em vista as diversas categorias de acontecimentos que, numa primeira análise, podem ser  (1º) conhecidos e (2º) desconhecidos.

 

20.  Acontecimentos conhecidos

Os acontecimentos conhecidos podem ser certos e incertos.

(1º) Os acontecimentos conhecidos certos ocorrem repetidamente no decorrer da vida de todos os dias, semanas, meses e anos.  Estão dentro da esfera de controlo do planeador pelo que podem ser geridos (previstos, planeados, executados, controlados e corrigidos) através da  implementação de rotinas e de compromissos (protocolos, planos, contratos-programa, etc.) que, no quadro de uma estratégia deliberada, consubstanciam-se em trabalho (fluxos, conjugação, coordenação).

(2) Os acontecimentos conhecidos  incertos podem ou não ocorrer. A possibilidade de ocorrência deve ser considerada a fim de serem, em tempo útil, superados através uma estratégia contingencial e respetivos planos de contingência A, B, C, etc.

 

21.  Acontecimentos desconhecidos

Os acontecimentos desconhecidos surgem para além de todas as previsões sustentadas no conhecimento e na experiência pelo  que é impossível a sua previsão. Exigem uma adaptação constante de ajustamento às circunstâncias, por inexistência de soluções de rotina, de compromisso ou de contingência. Quando acontecem, requerem uma superior capacidade de adaptação através de soluções de emergência estratégica que vão acontecendo de acordo com as circunstâncias, através de ações, em tempo real, de improviso em constante reajustamento. Tal como os navegadores portugueses de quinhentos que nas viagens e explorações marítimas, para utilizarmos uma metáfora de Sophia, “navegavam sem o mapa que faziam”. Perante o desconhecido e as ocorrências que dele resultavam, os marinheiros de então eram portadores das  necessárias competências básicas de marinharia que lhes permitiam, enquanto desenhavam os mapas que não tinham, num ambiente de emergência estratégica, improvisar as melhores soluções a fim de superarem os desafios de morte dos mares nunca dantes navegados. E as soluções resultavam porque havia uma extraordinária capacidade de improviso em tempo útil sustentado numa bem estruturada competência de navegação. Uma navegação que, antecipadamente, tinha: (1º) As rotinas e os compromissos bem estabelecidos que respondiam às necessidades logísticas dos processos de manutenção de vida e organização do futuro; (2º) Os acontecimentos incertos bem identificados pelo que estavam antecipadamente definidos os planos de contingência (A, B, C, etc.) capazes de, em tempo real, responder aos acontecimentos conhecidos incertos, por exemplo, uma tempestade que surgia inopinadamente. E, as tripulações das naus e das caravelas estavam em condições para improvisar, com competência e em tempo real, soluções expeditas capazes de responder numa dinâmica de trabalho de grupo às maiores e mais imprevisíveis contrariedades da navegação.

A competência do improviso só acontece quando: (1º) As rotinas estão bem concebidas,  assumidas e praticadas; (2º) Os compromissos estão bem estabelecidos, são respeitados e cumpridos; (3º) A contingência tem os problemas bem identificados e os respetivos planos estabelecidos a fim de os resolverem.

 

22.  O popular desenrascanço.

Note-se que a capacidade de improvisação é bem diferente do popular desenrascanço que significa o atrevimento de tentar resolver problemas sem os compreender, recorrendo a uma criatividade técnica irresponsável que, na grande maioria das vezes, conduz a maus resultados. O desenrascanço surge quando as rotinas estão mal concebidas, os compromissos não são suficientemente claros e fortes para serem respeitados, os planos de contingência não existem e tudo passa a acontecer através a adaptação pelo  desenrascanço. E, então, cai-se no círculo da incompetência caracterizado por procurar resolver a adaptação, que não se compreende, com contingência da qual se desconhecem os planos, a contingência com compromissos nunca estabelecidos, os compromissos com rotinas que ninguém conhece e as rotinas com desenrascanço.

Nestes termos, num cenário completamente imprevisível, que obriga a uma constante adaptação,  o último comportamento que se pode esperar de um dirigente são propostas de planos estratégicos e decisões de efeitos longos, quando só é possível e aconselhável tomar decisões de emergência,  passa a passo, de acordo com os novos dados, a informação e o conhecimento que surgem a todo o momento.

 

23.  Cultura de desenrascanço.

A cultura do desenrascanço não surgiu com o Covid-19. Ela vem do início do corrente século quando foram tomadas pretensas decisões estratégicas sem a participação dos interessados, sem qualquer fundamentação e sem uma visão esclarecida acerca da organização do futuro que se desejava construir. Então, sob o signo do desenrascanço:

(1º) Foi precipitado um processo de revogação da Lei de Bases do Sistema  Desportivo (Lei  1/90 de 13 de Janeiro) que não chegou a ser implementada na sua plenitude e, muito menos, avaliada. Tratou-se de um processo extemporâneo, precipitado e sem participação dos agentes desportivos, quer direta, quer indiretamente envolvidos no desporto;

(2º) Foi produzido um documento com 59 páginas completamente inúteis, intitulado “Opções Estratégicas para o Desenvolvimento Desportivo Nacional (2003-2013), constituído por um conjunto de generalidades: (a) Sem profundidade ou quaisquer bases de sustentação; (b) Sem levantamento e análise de situação tendo em atenção as etapas, as áreas e os sectores do processo de desenvolvimento; (c) Sem uma visão de futuro para o desporto nacional; (d) Sem objetivos e metas; (e) Sem estratégia; (f) Sem programas  devidamente orçamentados; (g) Sem qualquer projeção no tempo e no espaço do território nacional. Por ausência de utilidade, acabou por cair no esquecimento;

(3º) Foi elaborada uma nova lei, a Lei de Bases do Desporto (Lei 30/2004 de 21 de Julho) de características napoleónicas que contestada pelo ao tempo presidente do COP não chegou a ter três anos de vida;

(4º) Foi assinado um contrato-programa entre o Instituto do Desporto de Portugal e o COP o Contrato-programa de desenvolvimento desportivo nº 48/2005 (DR - II Série Nº 70 - 11 de Abril de 2005) que, numa visão do ponto de vista social distorcida e do ponto de vista do rendimento irrealista, previa a obtenção de cinco medalhas nos Jogos Olímpicos de Pequim (2008);

(5º) Foi publicada a  Lei de Bases da Atividade Física e Desporto (Lei n.º 5/2007 de 16 de Janeiro) que tal como a anterior mereceu a contestação dos agentes desportivos e, vendo bem o que tem acontecido nos últimos anos, não serve para nada. De então para cá tem sido o descalabro. Taxas de prática desportiva miseráveis e resultados nos Jogos Olímpicos medíocres.

 

24.  Reforço da estrutura burocrática do vértice.

O referido processo conduziu ao reforço da superestrutura burocrática do vértice do  desporto nacional com dramáticas consequências a nível intermédio (federações desportivas) e da base (clubes) do Sistema Desportivo onde, realmente, é desencadeada a prática desportiva. As federações desportivas deixaram de ter uma visão sistémica sobre as modalidades que lideram e os clubes deixaram de ser considerados a célula base do desenvolvimento do desporto.

 

25.  Sob o desígnio do desenrascanço e da inutilidade.

Só por esquecimento daquilo que tem sido o desenvolvimento do desporto nos últimos, pelo menos, vinte anos é possível estranhar a sua ausência no Programa de Estabilização Económica e Social ou em qualquer outro documento relativo ao desenvolvimento do País. Porque, no estado atual do desporto nacional, por mais que os dirigentes desportivos avancem com citações e pomposas recomendações de entidades como as Nações Unidas ou a União Europeia, não faz qualquer sentido reivindicarem um plano estratégico para o desporto e, muito menos, que o desporto passe a estar presente, enquanto linha estratégica, nos planos de desenvolvimento do País quando se sabe que a sua organização decorre sob o signo do desenrascanço. Consequentemente, ninguém sabe quais são os seus grandes objetivos para além de duas ridículas medalhas olímpicas que, muito provavelmente, até vão ser conseguidas por atletas naturalizados de aviário precisamente para esse efeito. E, de acordo com a distopia do sistema neomercantilista que organiza o País, caso o desporto fosse considerado como um eixo estratégico do desenvolvimento não ficava muito admirado se a solução encontrada fosse a de, simplesmente, construir uma espécie de legião estrangeira a fim de, em nome de um triste Portugal, conquistar medalhas nos mais variados eventos desportivos internacionais.

Nos tempos que correm, em que nada é claro e tudo imprevisível e questionável, no quadro de uma cultura inculta dominada pelo esquecimento e o desenrascanço como é a do desporto, pedir planos estratégicos e decisões de efeitos longos, quando o barco está  a meter água por todos os lados, parece-me um perfeito exercício de inutilidade.

 

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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