É do lado esquerdo… (artigo de Manuel Sérgio, 326)

Espaço Universidade 16-02-2020 15:19
Por Manuel Sérgio

Nasci na freguesia da Ajuda, em Lisboa. E lá morei até aos 57 anos de idade. Jamais esquecerei  aquela paisagem citadina onde, nos meus tempos de criança e de rapaz, só se via um automóvel, de duas em duas (ou de três em três) horas. Mas via-se o almirante Gago Coutinho a subir, já velho e gasto (como eu, hoje) a Calçada da Ajuda e o general Carmona, montado em luzidio cavalo, a caminho do centro hípico do 4º. Esquadrão da G.N.R., onde o meu pai era motorista dos “senhores oficiais” e, mais tarde, mecânico de automóveis, depois de ter feito a terceira classe da Instrução Primária. Ao longe, distinguiam-se os pingos brancos da casaria esparsa, na Trafaria e no Porto Brandão. Esta era a imensidade do meu mundo que se ampliava, episodicamente, até Santo Amaro e Algés e eu percorria embevecido, com a malta minha amiga, desde a manhã até ao passamento do dia. O sol morria, todo o poente ardia em cores vermelhas e eu regressava a penates, pois que o meu pai não permitia que eu me afastasse da casa paterna, quando as cores do dia esmoreciam. Duas exceções: a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, no Largo da Boa-Hora, e o Estádio das Salésias, quando a luz elétrica, em pleno deslumbramento dos meus olhos, por lá chegou. Os meus pais não dispensavam o calor espiritual do templo católico, apostólico, romano e o meu pai (a minha mãe foi um dia “à bola” e, por entre surdos remoques, adormeceu) era adepto ferrenho do Belenenses e, em qualquer jogo, em Lisboa, do seu Clube “de camisola azul e cruz ao peito”, ele não deixava de o apoiar, com palavras e com gestos e… com o filho ao lado! Se bem me lembro, eu vejo alta competição futebolística, desde 1939. Foi meu pai que mo disse: fomos ambos ao jogo final da Taça de Portugal. “In illo tempore”, era no primeiro campo relvado do país,  que se realizavam os jogos presididos pelo Senhor Presidente da República. Quero eu dizer: era nas Salésias. Se me deixo guiar por uma sensibilidade enternecida, relembro que foi nas Salésias que eu conheci os atletas Joaquim Branco, Rui Ramos, a minha querida Georgette Duarte. E uma extensa galeria de praticantes, na qual incluo o Sr. José Maria Pedroto que, durante duas épocas, representou o Belenenses, como jogador de futebol. Mas tudo passa, até o Sol!

 

No entanto, o Sol passa para voltar, no dia seguinte, e insistir, com a mesma beleza, intensidade e potência. Por isso, continuo a relembrar o muito que devo ao Belenenses onde fui, duas vezes, presidente da Assembleia Geral e vice-presidente da Direção e diretor do jornal “Os Belenenses”. E sou “sócio de mérito”. Teria lucrado mais, se fosse portista, ou sportinguista, ou benfiquista?... Quando se ama, não se olha a lucros. E, depois, também não sou bruxo ou futurologista. O Mao-Tse-Tung é que foi perspicaz. Conta o Dr. Kissinger que, quando Nixon, um dia, tentou fazer uma série de considerações sobre o que teria sucedido se, no lugar do Presidente Kennedy, tivessem assassinado Nikita Kruschtchev, ele comentou: “O que teria acontecido não sei. Mas tenho quase  a certeza que o Onassis não casava com a viúva do Kruschtchev”. E rematou, sorridente: “Veja bem que eu nem sei o nome da mulher do Kruschtchev…”. Estou a ver a rapaziada que eu acompanhava. Cuspiam fininho, frequentavam o cinema “Salão Portugal”, deitavam olhos gulosos às “miúdas” que passavam e, com devoção pasma, eram todos do Belenenses. Os pais de quase todos eram proletários… mas sem qualquer amor ou paixão, pela ditadura do proletariado! Eram castiços demais, para lerem Marx, Engels ou Lenine. O “capitão” do grupo era o Chico Fontes. No seu rosto bronzeado, clareava a paz de um humor benévolo. Jogava nos juniores do Casa Pia (como guarda-redes, se não estou em erro) e o facto de ser jogador de futebol dava-lhe um particular estatuto. Jogava no Casa Pia, mas erguia-se numa energia bem vincada, quando afirmava: “Estou no Casa Pia, mas sou do Belenenses”. E, com ar doutoral, ensinava-nos a interpretar a tática do Belenenses, que se desenvolvia pelo lado esquerdo, com o Quaresma (interior esquerdo) e o Rafael (o ponta esquerda) depois de ter passado pelo Mariano Amaro, uma inteligência que passeava, pela relva das Salésias, como um repto da razão à estupidez.

 

Quando ingressei no Arsenal do Alfeite, os artigos do “Avante” flamejavam, como vitrais, nas mentes de alguns operários. E o Brito, um colega meu, que nunca tinha lido qualquer escritor de filiação marxista, mostrava-me um amor férvido, quando repetia frases da autoria do Marx. Como esta: “A ideologia dominante é a ideologia da classe dominante”. E da sua lavra acrescentava: “A classe dominante é, sempre, da direita. Para nós, proletariado, o progresso desenvolve-se, sempre, pelo lado esquerdo”. Já não era só o Belenenses que deveria jogar pela esquerda, também a política, ou era de esquerda, ou borbulhava de rebentos fascistas. Certo dia, ainda questionei o Brito: “Portanto, o Salazar é de direita?”. E ele, atenuando as arestas de uma conversa que não era fácil, naqueles anos em que a PIDE espreitava em qualquer esquina, ainda murmurou: “Que te parece?”. Na Faculdade de Letras de Lisboa, quando a frequentei, como trabalhador-estudante (como agora se diz)) era com gente da esquerda que eu me relacionava. Alias, no meu curso (de Filosofia) pontificavam o Sottomaior Cardia e o Medeiros Ferreira, gente de muita e seleta leitura e, politicamente, de esquerda. Com o Medeiros Ferreira, fiz amizade sólida e fraterna. Era um iluminista, sempre interessado em “desmitificar” o salazarismo e um certo catolicismo que com o Presidente do Conselho se confundia. O António Borges Coelho licenciava-se em História. Mas algumas disciplinas de História eram de Filosofia também. E então juntávamo-nos ambos, na mesma carteira, onde eu escutava a inalterável litania de um anti-salazarismo que já o levara sete anos à prisão do forte de Peniche. Quando ele falava destes assuntos, eu apurava a orelha, pois que tinha muito a ensinar-me. Enfim, trabalhando no meio operário e a licenciar-me em Filosofia; cristão-católico, mas amigo do Padre Felicidade Alves; leitor fervoroso de Emmanuel Mounier e Pierre Teilhard de Chardin – com um certo verniz de erudição, tornei-me “católico progressista” e colaborador da “República” e do programa radiofónico “Limite”…

 

Agora, até nos jornais e programas desportivos, a esquerda vem à tona das conversas, principalmente nos relatos dos jogos de futebol do Sport Lisboa e Benfica. No processo defensivo dos “encarnados”, o lado esquerdo parece o mais frágil. E não quero dizer com isto que o Ferro e o Grimaldo não tenham o “quantum satis” de velocidade e de força, necessárias ao alto rendimento. Para mim, o jogador genial não é tanto o mais forte, ou o que mais corre, mas o que decide melhor, ou seja, o mais lúcido no momento da decisão. Diz-se que o Cruyff educava os seus jogadores numa cultura que fazia da posse da bola o principal elemento. O Sr. Pedroto tinha iguais objetivos. Assim mo dizia: ”Com mais posse de bola, uma equipa está mais próxima do golo”. E não deixava de referir: “Pode não acontecer, mas quase sempre acontece”. E, pedagogicamente, explicava-me: “A essência do futebol é ter a bola, para marcar golos, para ganhar”. E continuava; “É por isso que os jogadores que o povo mais recorda são avançados”.  De facto, o Ronaldo e o Messi são avançados. Como avançados foram o Maradona, o Pelé, o Puskas, o Eusébio e o Di Stéfano. Daquela equipa brasileira, vencedora do Mundial de 1970 – de quem hoje se fala? Do Pelé, principalmente. Dos restantes focam-se as suas pessoas, com  uma luminosidade fatigada. Mesmo o Jairzinho e o Tostão e o Gerson e o Rivelino, que acompanhavam o Pelé, em linha avançada que ficou famosa. Também o adepto (o “torcedor”) quer ser muitos, num só. Quer fazer o resultado de um jogo, sem nunca entrar em campo. E com uma característica essencial: é adepto (“torcedor”) em tempo integral, enquanto jogadores há que trocam de clube como quem troca de camisa. No Brasil vi eu cantar-se o hino do clube com a mão sobre o lado esquerdo. Segundo Jesus Cristo, somos todos filhos do mesmo pai. Somos todos irmãos. Só que, na nossa Sociedade do Conhecimento, não há observação sem supostos teóricos. E há quem se diga de esquerda e viva o mais à direita possível. O que a política (e a ciência) produz de melhor não são “evidências” mas “argumentações”.              

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto  

 

 

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