Entrevista A BOLA «No Benfica fiz um golo na estreia e iludi-me...»

INTERNACIONAL20.03.202507:35

Pepa treinador visita a carreira do Pepa jogador. Da ilusão inicial às lesões no final

Pepa teve um começo de sonho na carreira profissional de jogador: marcou logo na estreia pelo Benfica, a 23 de janeiro de 1999, numa vitória por 3-1 frente ao Rio Ave, após substituir Nuno Gomes, com o escocês Graeme Souness no banco. Esse golo acabou por moldar a carreira do então jovem de 18 anos. «Criou-se uma expectativa alta demais no início da carreira», defende Pepa, hoje com 44 anos e uma carreira sólida como treinador.

«O Benfica, como o Corinthians ou o Flamengo aqui no Brasil, vende muito e quando aparece um jogador da formação na equipa principal, ainda por cima ponta de lança, que fazia muito golos nas camadas jovens, e marca logo na estreia, a imprensa naturalmente começa a dizer ‘está aqui o novo Eusébio’, o que é ridículo, não é?».

«E eu não tinha estrutura para suportar esse tipo de mediatismo», continua o agora treinador do Sport. «Iludi-me ali um pouco, não havia psicólogo no Benfica na altura, não estou a responsabilizar o clube, atenção, mas não havia ninguém para me dizer ‘calma aí, rapaz’, como sou filho de pais separados, eles confiavam tanto em mim, também não tinha aquela estrutura familiar ideal, até porque saí de casa com 12 anos...»

«Depois quando comecei a levar o futebol mais a sério começaram as lesões, talvez já fosse tarde», conclui.

Agora quem se serve dessas lições são os jogadores sob o comando do treinador. «Eu conto tudo isso, com a experiência na primeira pessoa, aos jogadores, que num dia estás a começar a carreira e no outro estás a acabar e que, para se manterem no auge muito tempo, é preciso ter uma estrutura mental muito forte e é preciso fazer muitas escolhas».

Pepa, no entanto, recusa a ideia de que possa ter sido um mau profissional. «Eu estive ali seis meses, mais ou menos, iludido mas antes e depois daquele golo eu fui um profissional exemplar, caso contrário não tinha chegado às seleções e à equipa principal do Benfica, os meus amigos iam para os bares, para os restaurantes, e eu não ia porque tinha jogo... Ser jogador é uma vida fantástica mas temos de abdicar de algumas coisas...»

«Voltar a trabalhar em Portugal? Sim, quero, por causa da família»

Com contrato até ao fim de 2025, Pepa só pensa no Sport Recife. Mas, como qualquer emigrante, o regresso a Portugal não deixa de estar sempre em cima da mesa. «Se a médio prazo sonho em trabalhar em Portugal? Sim... mas por causa da família», admite o treinador. «Vou acompanhado a liga portuguesa, por enquanto, porque quando começar a Série A, com tanto rival, nem vou ter tempo para isso, e por isso penso mais a curto prazo e a curto prazo imagino-me a cumprir os objetivos do Sport, gostava muito de disputar com o clube uma prova internacional, Sul-Americana ou Libertadores... depois, logo se vê».

«Disse aos jogadores portugueses que o povo brasileiro é muito bom»

Pepa convenceu três compatriotas – Gonçalo Paciência, João Silva e Sérgio Oliveira – a jogarem no Brasil. E no Sport. O próprio treinador explica o método para o convencimento. «Há aquele estereótipo do medo de vir para o Brasil por razões de segurança mas falei-lhes do quão seguro é vir para aqui, do tão bom que o povo brasileiro é, de tão grande que o Sport é, das boas condições que temos aqui, que, não sendo ainda excelentes, há a vontade de perseguir a excelência, da qualidade do campeonato, de Pernambuco, do Recife...». Depois foi esperar: «Eles pensaram, em família, e hoje parece-me que estão todos bem integrados e viram que é um passo firme.»

«Paulo Sérgio, pela frontalidade e pelo momento, foi quem mais me marcou»

O treinador que mais marcou o mister Pepa foi Paulo Sérgio, no Olhanense. «Pelo estilo frontal e terra a terra mas talvez também por ter sido o meu treinador no meu último clube como jogador e, por isso, já estava mais disposto a absorver o trabalho de treinador», explica «Antigamente, os treinadores mandavam-me para a direita e eu ia para a direita, mandavam-me para a esquerda e eu ia para a esquerda, ali com o Paulo Sérgio não, quis saber mais a razão por estar a fazer as coisas... Mas aprendi com todos com quem trabalhei, desde a liderança, à forma de trabalhar, passando pela gestão do grupo».