O Desporto não é uma questão de vida ou de morte… (artigo de Gustavo Pires, 129)

Espaço Universidade 07-05-2021 18:39
Por Gustavo Pires

Num já habitual eterno retorno, um grupo de doze líderes de outros tantos clubes europeus, encabeçados pelo presidente do Real de Madrid, anunciou a criação de uma sociedade comercial, desta feita a European Superleague Company S.L., com a incumbência de institucionalizar uma Superliga europeia de futebol para, no pleno usufruto da exploração económica dos emblemas que representam, organizar um campeonato à revelia do potentado com pés de barro que é a UEFA. Ora, perante este cenário, estamos na presença de duas questões fundamentais: (1ª) Trata-se de uma questão nacional ou de uma questão europeia? (2ª) Trata-se de uma questão económica ou de uma questão desportiva?

 

Os poderes da União Europeia

 

Quanto à primeira questão a resposta parece-nos clara na medida em que, tratando-se de um problema cuja solução não está nas mãos de um ou vários países só pode ser ultrapassada no quadro da UE.

 

O problema é que o desporto não tem tido uma abordagem consequente à sua importância no âmbito da EU. Na realidade, o desporto não teve qualquer referência no Tratado de Roma (1957), no Ato Único Europeu (1986), nem no Tratado de Maastricht (1992). Só em 1997 foi acrescentado ao Tratado de Amesterdão um anexo sobre o desporto amador que, bem vistas as coisas, não serviu para coisa nenhuma a não ser para talvez marcar posição, uma vez que as organizações desportivas europeias sempre se mostraram hostis à intervenção das instâncias europeias sob o argumento da “exceção desportiva” que, na maioria das vezes, não passa de uma farsa.  Em Novembro de 2000, Viviane Reding, ao tempo encarregada da educação, cultura, juventude, média e desporto da Comissão Europeia, afirmava que os regulamentos privados da FIFA e da UEFA que funcionam como autênticos carteis não podiam estar acima das leis da UE. Entretanto, para além dos interesses do desporto o que tem prevalecido como se está a verificar com a autoproclamada Superliga é a existência da UEFA como entidade económica supranacional que gere o negócio do futebol à margem da ordem jurídica da União Europeia (UE). Senão, vejamos...

 

A UE tem por objetivo gerir a vida em comum dos cidadãos europeus. Este desígnio está expresso nos Tratados que respondem às situações conhecidas e estabelecem as condições em que nova legislação deverá ser produzida a fim de responder às situações imprevisíveis que, todos os dias, ocorrem numa comunidade de 27 países e cerca de 450 milhões de cidadãos. Em conformidade, os países pertencentes à UE renunciaram a uma parte da respetiva soberania em favor da própria UE conferindo-lhe poderes e competências para adotar legislação europeia de efeito equivalente à legislação nacional. E, assim, o Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE) estabelece que nos domínios da política económica e de emprego, os Estados-Membros reconhecem expressamente que as suas medidas nacionais devem ser coordenadas no âmbito da UE. Já nos domínios da saúde humana, da política industrial, da cultura, do turismo, do ensino, da juventude, do desporto, da formação profissional, da proteção contra catástrofes e da cooperação administrativa, cabe aos Estados-Membros a proteção e a responsabilidade da melhoria do seu desenvolvimento.

 

Portanto, tratando-se a Superliga Europeia de futebol de uma questão supranacional, a sua resolução passa a estar na alçada da ordem jurídica da UE que sobre a matéria deverá produzir legislação concreta sobre o assunto. E, estamos em crer que assim será na medida em que o estatuto com que a UEFA intervém no âmbito nacional bem como internacional permitindo-se até ameaçar excluir as seleções nacionais e os atletas dos países dos clubes “prevaricadores” dos campeonatos europeus, mundiais e dos Jogos Olímpicos, parece-nos um abuso inaceitável que conflitua com os próprios Direitos Humanos.

 

Será que os líderes europeus ainda não perceberam, como referiu Sergio Cragnnotti, o líder, ao tempo, do Lazio de Roma, que “o futebol é o negócio mais global do mundo…”? Por isso, vemos com muito agrado a posição de Florentino Pérez, o presidente do Real de Madrid, que está a preparar um processo judicial contra a UEFA não só pelas ameaças produzidas contra os clubes e os cidadãos europeus e outros jogadores de futebol, bem como por considerar que, à revelia do direito europeu, aquela organização está indevidamente a funcionar num regime de monopólio relativamente à gestão económica do futebol na Europa em geral e do negócio das competições europeias inter-clubes em particular. Se Florentino Pérez conseguir provocar uma decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) que ponha fim à cultura de promiscuidade em que funciona o MED ficará, certamente, na história do futebol europeu e, até, mundial.

 

Mas, afinal, o que é o desporto?

 

O desporto moderno, é o produto mais genuíno: (1º) Do paradigma industrial porque foram os condicionamentos, oportunidades e os princípios do industrialismo que determinaram a passagem dos “sports” recreativos das elites rurais inglesas, para a agonística do “sport” popular institucionalizado nos grandes centros urbanos; (2º) Da dinâmica do capitalismo uma vez que a sua institucionalização cortou e sobrepôs-se à visão marxista da cultura física das escolas de ginástica do século XVIII e; (3º) Das ambições imperiais inglesas porque o desporto, através das Escolas Públicas, foi um dos meios mais eficazes para, entre os jovens ingleses, desenvolver a condição física, a coragem, a disciplina, o controlo emocional e, entre outros aspetos, o espírito de sacrifício a fim de os preparar com as capacidades e as competências necessárias à ressurreição do espírito e da dinâmica imperial ressurgida a partir de meados do século XIX após um período de quase cem anos de esmorecimento devido aos desaires militares na América do Norte e da consequente independência dos EUA em 1776. E foram os antigos alunos das Escolas Públicas, a fim de acordarem um conjunto de regras que deviam padronizar as competições desportivas que, até então, ocorriam na base da anarquia generalizada, que, a 26 de Outubro de 1863, fundaram a Associação de Futebol inglesa. Depois, com a evolução dos jogos, a partir da dinâmica do capitalismo, os espectadores começaram a pagar para assistirem aos espetáculos e, em 1885, foi introduzido o profissionalismo que permitiu a abertura do futebol às classes trabalhadoras.

 

Geometria variável

 

O desporto, hoje, tem uma geometria variável. A pirâmide de Coubertin, que fundamentou o MED desencadeado a partir dos anos cinquenta, hoje, apresenta um padrão de complexidade que, ao tempo, não se colocava, incluindo problemas que, ao cabo de 70 anos, continuam por resolver. Note-se, por exemplo, que um desporto vocacionado para a educação, a superação pessoal, o lazer e, eventualmente, o alto rendimento, deve merecer um tratamento completamente diferente de um desporto com vocação para o virtuosismo atlético, a indústria do entretenimento, o espetáculo e o profissionalismo. Enquanto sectores de uma cultura desportiva justa, nobre e leal os dois modelos integram-se, completam-se, são importantes, mas como não são a mesma coisa não podem ser geridos e tratados da mesma maneira. Nestes termos, a velha Pirâmide de Pierre de Coubertin continua de pé, mas já não está sozinha porque, na sua complexidade, ela integra as várias pirâmides que, hoje, formatam a multiplicidade de sistemas desportivos que, em rede, interagem por esse mundo fora. 

 

O Modelo Europeu de Desporto (MED)

 

O MED foi idealizado por Pierre de Coubertin em finais do século XIX a partir da ideia “todos os desportos para todos. Entretanto, após a Segunda Grande Guerra, o modelo sofreu um novo impulso a partir de um envolvimento mais acentuado e eficaz dos governos europeus através de um programa conduzido pelo Conselho da Europa denominado Movimento Europeu de Desporto para Todos. Este movimento foi concebido numa lógica: (1º) Político-social; (2º) Corporativa (mestre, oficial, aprendiz); (3º) Unitária; (4º) Educativa; (5º) Benévola; (6º) De economia local.  Foi neste espírito que, entre outras associações europeias, a 15 Junho de 1954, foi fundada a UEFA (Union of European Football Associations).

 

Entretanto, passaram-se quase setenta anos pelo que o mundo do desporto foi objeto de profundas transformações. Entre muitas outras, existem três que nos parecem significantes na medida em que, só por si, desencadearam muitas outras: (1ª) A entrada em larga escala da televisão nos grandes eventos desportivos a partir dos anos sessenta; (2ª) A rutura espácio-temporal desencadeada pelos satélites geoestacionários a partir de finais dos anos oitenta; (3º) O colapso da União Soviética e países satélites em 1989.

 

Em consequência, o espírito que levou à institucionalização do MED no quadro de um paradigma sociopolítico fortemente determinado pelas sequelas psicológicas do pós-guerra, alterou-se profundamente pelo que, tal qual “sistema vivo”, numa dinâmica autopoiética nem sempre organizada no melhor sentido, o MED começou a funcionar numa lógica: (1º) Económica de negócios; (2º) Liberal anarquista; (3º) Desagregada e desintegrada; (4º) De entretenimento freudiano; (5º) Profissional desregulada; (6º) De economia global descontrolada. E, entre outras organizações desportivas nacionais e internacionais, a UEFA, concebida no quadro do MED com uma configuração missionária de responsabilidade social, evoluiu ao ponto de, hoje, poder ser considerada uma empresa multinacional monopolista que tem por objectivo regulamentar o negócio do futebol a nível europeu a partir da organização das várias competições europeias entre clubes e entre países, à margem de quaisquer controlos minimamente sistematizados e credíveis. E se os resultados do passado são conhecidos, quanto ao futuro, a arrogância comportamental do atual presidente da UEFA relativamente aos 12 clubes da Superliga não augura nada de muito positivo. Em conclusão, hoje, a UEFA, desenvolve um discurso suportado na narrativa do MED dos anos cinquenta quando, na realidade, é gerida na lógica de uma multinacional que no espaço europeu gere numa dinâmica capitalista em regime de monopólio, o negócio do futebol.

 

Assim sendo, Florentino Pérez tem razão quando, no quadro do direito comunitário, questiona a legitimidade da UEFA gerir o negócio das competições europeias interclubes em regime de monopólio utilizando-se, para o efeito, de entidades privadas que são os clubes e as sociedades desportivas que também interagem no negócio do futebol. Que a UEFA de acordo com o espírito que conduziu à sua fundação pretenda gerir as competições interpaíses nada há a obstar desde que os países assim o decidam por opção das respetivas federações nacionais a quem os respetivos governos delegam competências de representação. Que no atual processo de desenvolvimento do desporto a UEFA pretenda gerir em regime de monopólio ao estilo do quero, posso e mando, as entidades privadas que são os clubes parece-nos, para além de ilegítimo, simplesmente imoral. Hoje, os clubes que interagem no negócio do futebol estão organizados em Ligas que devem estar fora das Federações Desportivas que, enquanto entidades com funções públicas delegadas, nada devem ter a ver com o negócio (legítimo) do desporto. Devem, tão só, ter a ver com o processo de desenvolvimento das modalidades que representam nos respetivos países que é o que mais faz falta ao desporto mundial.

 

A derrota do pensamento

 

O problema é que, nem nas estruturas internacionais nem nas estruturas nacionais na generalidade dos países, aconteceram medidas eficientes e eficazes de reajustamento às novas realidades sociais, económicas e políticas desencadeadas pela desagregação do desporto. Esta desagregação deu origem a um novo paradigma desportivo que apresenta uma constelação de novos modelos organizativos com credo e vocação próprios. Estes novos modelos apresentam características diversas que podem ir do político-social de desenvolvimento ao económico-mercantilista de negócios. Numa concepção unitária mas não unicitária do desporto, todos os modelos têm uma função integrada e sistémica a cumprir a fim de contribuírem para a melhoria do Nível Desportivo dos países. Todavia, infelizmente, devido à ausência de pensamento crítico de controlo social, a ideia principal passou a ser mais dinheiro a fim de alimentar o medalheiro olímpico ao serviço do ridículo ego de alguns dirigentes desportivos e políticos, em substituição da ideia de mais desenvolvimento ao serviço da educação, da cultura e da qualidade de vida das pessoas. Em consequência, o desporto europeu está constrangido num modelo de configuração anárquica, suportado em discursos profundamente hipócritas e oportunistas, em que, na maior das promiscuidades e na mais completa ausência de limites éticos entre aquilo que é eminentemente social e aquilo que é eminentemente económico, cada entidade faz o que muito bem entende em função das circunstâncias que lhe forem mais favoráveis. Em conclusão, ninguém se entende como agora se está a verificar no mundo do futebol europeu que acabará por contagiar as demais modalidades desportivas.

 

As maiorias ululantes

 

Desde que foi anunciada a criação da Superliga europeia de futebol tivemos a oportunidade de assistir a extraordinárias performances ao nível do que melhor acontece nos palcos do teatro realista pós-moderno, quando o povo saiu à rua em defesa do futebol que lhe queriam roubar. E, perante o clamor do povo apaniguado do futebol que entrou em modo de histeria, os políticos que nunca se interessaram pelo desporto a não ser por motivos de cosmética política, sabidos que são de tantos anos a virar frangos, não perderam tempo para saltar para o dorso do povo carente de futebol a fim de cavalgarem a demagogia e o populismo dos tempos que correm. E gritaram aos quatro ventos que os malandros dos presidentes dos clubes – queriam roubar o futebol ao povo. Como se, algum dia, o povo tivesse sido dono do futebol ou, algum dia, o possa vir a ser.

 

E a comunicação social esquecendo-se que, regra geral, quem faz as maiorias espontâneas são muito mais os imbecis do que pessoas inteligentes e cultas, associou-se ao discurso político e afinou pela mesma cantilena num uníssono “querem roubar o futebol ao povo”. E, mais uma vez, ficou demonstrado que as maiorias espontâneas podem ter poder sem terem nenhuma razão. Porque, o surgimento institucional das ligas de clubes nas mais diversas modalidades desportivas a fim de gerirem os interesses e as competições profissionais dos clubes privados, é um processo em curso no sentido de higienizar o desenvolvimento do desporto que pode ser contrariado, mas nunca parado.

 

Todos falam e ninguém se entende

 

A institucionalização da Superliga de futebol, tal como de outros desportos como já acontece no basquetebol (Cf. Eduardo Monteiro, “Braço de Ferro entre a FIBA- Europa e a Euroliga de Basquetebol”, In: A Bola on line 06-06-2016), será o primeiro passo para que, de uma forma clara, no âmbito do desenvolvimento do desporto, comece a existir uma separação clara e honesta entre, por um lado, o modelo social, da educação, da cultura e do lazer e, por outro lado, o modelo económico, das empresas, dos negócios e da indústria do entretenimento.

 

Para além: (1º) Da ingenuidade platónica dos “supporters” como se uma movimentação de massas movida por fervores de características religiosas e, estimulada externamente por emoções frenéticas desprovidas de racionalidade, possa ter alguma validade; (2º) Da ilegitimidade económico-monopolista do desporto federado (clubes, federações nacionais e internacionais, Comités Olímpicos Nacionais e o Internacional); (3º) Da legítima oportunidade de negócios dos empreendedores económicos e; (4º) Do oportunismo político-instrumental dos governos…, o que é facto é que, por ausência de um pensamento estratégico capaz de gerar um normativo justo e claro em termos de organização do futuro, o desporto europeu não pode continuar a funcionar num paradigma socioeconómico enviesado em que todos falam, mas ninguém se entende, que caracteriza o processo entrópico em que se encontra.

 

Boris Johnson, o Primeiro-ministro inglês

 

Quando olhamos para o futebol europeu a primeira coisa com que nos deparamos é, por um lado, o futebol inglês e, por outro lado, o futebol do continente. Por isso, não nos podemos admirar que o Primeiro-ministro inglês tenha saído em defesa do “status quo” na medida em que a situação atual é a que mais interessa aos clubes ingleses, à economia inglesa e à diplomacia inglesa. E Boris Johnson até se permitiu avançar com uma metáfora belicista, uma "bomba legislativa" disse ele, a fim de despertar no povo um sentimento nacionalista e amedrontar aqueles que eventualmente até se lhe podiam opor. E, para que não restassem dúvidas aos clubes ingleses que insistiram na institucionalização da Superliga ameaçou-os de os expulsar da “Premier League”. Boris Johnson sabe o que está a fazer e sabe que está a fazer uma jogada de alto risco porque não tem outra atitude possível. Trata-se de uma jogada que, se a curto prazo pode resultar, a médio prazo está, e ainda bem, certamente condenada ao fracasso. Por isso, não podemos deixar de lamentar que a comunicação social não tenha colocado em cima da mesa a questão fundamental: O que é que pode levar um Primeiro-ministro, de um governo de um dos países mais liberais do mundo, tal qual ditador da América Latina, a empenhar-se num controlo de características fascizantes dos clubes privados de futebol do seu país?

 

Quer-me parecer que nem a generalidade da comunicação social sem tempo e meios para analisar os problemas com a devida profundidade, nem a generalidade dos líderes europeus, para além da demagogia populista do costume, compreenderam aquilo que está em jogo. Porque, na lógica do infantilismo que, geralmente, toma conta da maioria das pessoas ao tratar de matérias relativas ao desporto, os líderes europeus, quando correm a apoiar o Primeiro-ministro inglês, não fazem a mínima ideia daquilo que verdadeiramente está em jogo. E Boris Johnson, tal como os seus antecessores, não deixou de se aproveitar disso.

 

Líderes europeus

 

Os líderes europeus, perante o anúncio da Superliga, numa incompreensível atitude pavloviana, lançaram-se perigosamente de cabeça nas redes sociais afirmando estar ao lado das instituições desportivas nacionais e internacionais pelo que, em absoluto, rejeitavam a ideia dos doze clubes refratários. E, numa cacofonia confrangedora, afinada pelo discurso do Comissário Europeu da Promoção do Modo de Vida Europeu, passaram a debitar um conjunto de frases feitas que primam pela hipocrisia uma vez que, entre aquilo que expressam e a realidade não existe qualquer coincidência. E, tal qual “píndaros” do século XXI, cantaram em uníssono que defendiam um MED baseado na diversidade e na inclusão, alicerçado numa construção piramidal e num princípio de mérito desportivo, recusando uma competição fechada, reservada a uma elite de clubes. E, solenemente, concluíram que os princípios da solidariedade, da valorização do resultado desportivo e do mérito, não podem estar à venda.  Porém, só pela mais perfeita ingenuidade, é possível dizer que, hoje, o MED se baseia na diversidade e na inclusão, está alicerçado numa construção piramidal e no mérito desportivo, não se trata de uma competição fechada reservada a uma elite de clubes, é regido por princípios de solidariedade e a valorização do resultado desportivo e o mérito não estão à venda. Barak Obama, ao tempo presidente dos EUA, o país em que o desporto profissional está organizado por ligas, no dia 2 de Outubro de 2009, na Sessão do Comité Olímpico Internacional (COI) em que se decidiu a cidade que receberia os JO da XXXI Olimpíada, teve a oportunidade de constatar o estado em que o desporto europeu se encontra depois de, contra todas as expectativas, a cidade de Chicago e outras, terem sido preteridas relativamente à cidade do Rio de Janeiro. Em consequência, o presidente dos EUA manifestou o seu profundo descontentamento ao afirmar ser o COI similar à FIFA e a decisão, relativa à cidade que iria receber os Jogos da XXXI Olimpíada (2016), ser "a little bit cooked". Pois bem, é este o ambiente em que o MED funciona desde logo porque os problemas, regra geral, são mal resolvidos por gente incompetente que não faz a mínima ideia daquilo que está a decidir, enquanto gente competente com interesses próprios (legítimos e, eventualmente, ilegítimos) acaba por tirar partido do estado de degradação epistemológica e moral em que, na Europa, o desporto se encontra.

O desporto inglês.

 

Os ingleses, que em matéria de culinária, para além do “roast beef”, não fazem inveja a ninguém, há muito que se aproveitaram da “vichyssoise” em que o desporto europeu funciona a fim de tratarem dos seus próprios interesses. Na realidade, esta posição não surgiu por acaso na medida em que, em Inglaterra, o desporto não nasceu como no continente europeu a partir da ação dos militares, dos médicos e dos professores de ginástica. O desporto inglês é um dos produtos mais genuínos do social darwinismo colonial do império britânico pelo que os ingleses nunca o consideraram como favas contadas. Foram eles que inventaram o jogo desportivo em geral e o futebol em particular, e fizeram-no na maior das racionalidades com intuitos meramente utilitaristas em termos do futuro económico que, no quadro das oportunidades do industrialismo, desejavam construir. Nesta perspetiva, associaram a fundação dos clubes de futebol às fábricas do industrialismo. E enquanto na Europa se organizavam quermesses gímnicas de solidariedade social, se discutiam questões de superioridade rácica, se pretendia combater a tuberculose através da educação física e se criticava a prática desportiva considerada demasiado especializada, em Inglaterra os proprietários das fábricas fundaram os próprios clubes a fim de garantir um espírito de corpo entre os operários capaz de, pela positiva, estimular a produção. E os donos das fábricas, não deixavam as suas responsabilidades por mãos alheias. Em conformidade, à quinta-feira reuniam com o pessoal dirigente a fim de decidirem a composição da equipa de futebol que havia de jogar no domingo. Depois, o manager, tratava exclusivamente da logística porque a tática e a estratégia para o jogo eram da responsabilidade do capitão de equipa que, se as coisas não corressem de feição era “chicoteado”. Quer dizer, enquanto na Europa, no espírito de Pehr Ling (1776-1839) e da Escola Central de Ginástica de Estocolmo, as atividades gímnicas que renegavam a competição, estavam ao serviço da solidariedade social sem que, para além das boas intenções e altos sentimentos promotores de consciências tranquilas, bem vistas as coisas, não resolviam coisa nenhuma, pelo contrário, em Inglaterra o desporto e o futebol estavam ao serviço da produção e da economia através da promoção da autoestima dos trabalhadores que viviam a fábrica e a produção motivados pelo emblema do clube que se confundia com o da própria fábrica. E como era necessário libertar os domingos para a prática desportiva e a disputa dos campeonatos porque, até então, eram exclusivamente dedicados à ao Senhor, a partir da ação do Reverendo Charles Kingsley (1819-1875) e do antigo aluno da Escola Pública de Rugby, Thomas Hughes (1822-1896), foi provocado um “spin religioso” que levou as igrejas a assumir o Cristianismo Muscular até então de má fama que resultou numa abertura das portas dos domingos ao desporto e, por assim dizer, a uma “entrega desportivisada” a Cristo. E, assim, os ingleses deixaram para o continente europeu e para Pierre de Coubertin a dimensão platónica, social e política da prática desportiva ao serviço do entendimento dos povos que havia de nascer em finais do século XIX.

 

Boris Johnson, licenciado em literatura clássica, há muito que, certamente, sabe tudo isto e, eventualmente até, muito mais. Por isso, quando ele surge a defender o atual MED não o faz porque acredita nas suas virtualidades. Ele acredita é que o atual MED é aquele que mais interessa aos ingleses independentemente de interessar aos portugueses, aos franceses ou, entre outros, aos espanhóis. E neste jogo de oportunidades em que o futebol está envolvido, também não o faz em defesa dos interesses dos “supporters” ingleses que, são os que por delegação mais gritam e os que menos jogam, desde logo porque não fazem a mínima ideia qual é o jogo que estão a jogar embora sejam eles que o pagam.  

 

Política, diplomacia e dinheiro

 

O que é facto é que a Inglaterra está fora da UE, no entanto, como há muito tempo soube tratar dos interesses do seu futebol, é o país que mais lucra com o atual MED. Por isso, Boris Johnson apressou-se a prometer aos fãs que o seu governo “não ficará parado enquanto um pequeno punhado de proprietários privados criam uma loja privada”. E até o príncipe William, que é o presidente da Associação de Futebol, acrescentou sua voz à torrente de protestos contra os planos da Superliga dos clubes europeus ao afirmar que compartilha das preocupações dos fãs sobre o plano de separação de alguns clubes ingleses que pode "prejudicar" o jogo nacional. Pois bem, esta posição, que coloca sem qualquer condescendência os interesses dos ingleses acima de tudo e de todos, não é de agora e os portugueses, depois do estuporado Mapa Cor de Rosa e do Mundial de Futebol de 1968, há muito que o deviam saber.

 

O Imperial colonialismo inglês

 

Este espírito inglês do qual o desporto faz parte começou a ser construído a partir de meados do século XIX quando John Ruskin (1819-1900), a 8 de Fevereiro 1870, na sua primeira conferência aberta ao público, realizada no âmbito da cátedra “Slade Professor of Fine Art” na Universidade de Oxford, voltou à questão imperial sob a expressão “imperial duty”, desafiando a juventude a assumir as suas responsabilidades levantando os estandartes (oriflames) que deviam orientar a afirmação imperial inglesa. Passados que estão cento e cinquenta anos, enquanto os líderes europeus vêm passar os comboios, Boris Johnson, no velho espírito imperial, voltou a levantar os “oriflames”, desta feita do futebol e, numa espécie de “football duty”, mobilizou os mais profundos sentimentos nacionais uma vez que o jogo do povo pode funcionar como um substituto dos saudosos empreendimentos imperiais a fim de, por esse mundo fora, catalisar os interesses políticos, diplomáticos e económicos dos ingleses.

 

Não estou a comparar Boris Johnson com esse visionário que foi John Ruskin porque seria o mesmo do que comparar uma ervinha de cheiro com uma rosa. Trata-se, tão só, de relembrar que os lamentos do império colonial ainda andam perdidos na memória dos ingleses que veem no futebol os últimos resquícios de um passado glorioso entretanto perdido. John Ruskin, ressuscitou os desejos coloniais da nação num momento em que Inglaterra estava sequiosa das matérias-primas necessárias às fábricas da era industrial que laboravam a todo o vapor em Inglaterra. Boris Johnson, no século XXI, ameaça tudo e todos na medida em que o futebol, com extraordinários proventos diretos e indiretos que é capaz de gerar, mantém Inglaterra dentro de um espaço económico do qual decidiu sair. E, para o efeito, numa das economias mais liberais do Mundo, até utiliza ameaças intervencionistas que, certamente, fariam corar de vergonha Margaret Thatcher se a antiga Primeira-ministra ainda fosse viva.

 

Os únicos verdadeiramente prejudicados com a institucionalização da Superliga europeia são os ingleses. Por um lado, passariam a ter de partilhar os proventos americanos, russos e árabes que financiam os clubes ingleses e, por outro lado, os milhões de adeptos chineses dos clubes ingleses passariam a apoiar o Paris Saint-Germain Football Club e a visitar o Museu do Louvre onde podem observar realmente a cultura europeia, em alternativa ao Museu Britânico com o seu património proveniente do império colonial do qual os chineses também foram vítimas. E não se percebe a atitude ingénua de Emmanuel Macron, uma vez que devia olhar para o passado e para Jacques Chirac, quando em 1997 o então presidente francês se fez acompanhar do então famoso pelas boas razões Michel Platini ao continente sul-americano, a fim de, através do prestígio do futebolista e do futebol francês, quebrar a tradicional supremacia económica dos EUA.

 

Boris Johnson tem, certamente, há muito tempo consciência disto. Quer dizer que, Inglaterra é o país que mais beneficia do “status quo” de ignorância, confusão e mediocridade em que o MED se encontra.

 

Independent European Sport Review

 

Boris Johnson sabe que os clubes ingleses, que são instituições privadas geridas por autênticos “tycoons” da economia mundial, têm uma enorme vantagem quando competem no atual MED com clubes com uma configuração social, geridos por gente que, regra geral, tem uma enorme dificuldade em perceber o futebol espetáculo de alienação e entretenimento como um negócio que só em circunstâncias muito especiais, que é necessário conhecer e saber gerir, tem alguma coisa a ver com o desporto social da base e das estruturas intermédias da lógica da pirâmide desenvolvimento pela qual alguns políticos, que nunca ligaram nada ao desporto para além da cosmética política, agora, parece estarem apaixonados. E esta vantagem competitiva ainda se vai alargar mais agora que o Reino Unido está fora da UE.

 

A posição de Boris Johnson não é de agora. Ela vem, pelo menos, desde 2006 quando, durante uma presidência inglesa da UE, Durão Barroso, ao tempo Presidente da Comissão Europeia, indicou José Luís Arnaut (sem comentários) para presidir a um grupo de trabalho com a incumbência de realizar um relatório sobre o estado do desporto europeu. Em resultado, foi produzido um relatório intitulado “Independent European Sport Review”. E Arnaut, na ingenuidade que se lhe reconhece, esclareceu:  "Fizemos um conjunto de auditorias e ouvimos todas as partes envolvidas no mundo do desporto e em particular no futebol europeu. Vou preparar um relatório onde faço o diagnóstico do actual estado do desporto europeu e do futebol em particular". O problema é que o relatório, de independente nada tinha na medida em que foi elaborado por uma equipa de ingleses (o Ministro do Desporto e o Director Geral do Desporto) e de desporto também não porque, bem vistas as coisas, o relatório, verdadeiramente, só tratou daquilo que interessava ao futebol e, em especial, ao futebol inglês. E, assim, o então designado G-14, fundado em 2000 pelos mais poderosos clubes de futebol europeus com quem a UEFA se recusava a comunicar, viu os seus interesses subordinados aos interesses dos ingleses para quem o futebol passou a ser uma espécie de nova Companhia Britânica das Índias Orientais.

 

“Football Duty”

 

John Ruskin entendia que “a beleza manifesta o espírito do Universo”. Claro que, para ele, a beleza estava na sociedade inglesa e na liderança que devia assumir perante o Mundo. E era neste sentido que deviam ser conduzidos os destinos do império numa visão “top down”, isto é, numa visão elitista da organização social a fim de desencadear as grandes mudanças nos regimes colonizados que se deviam sujeitar à superior cultura inglesa. Pois bem, perdidas que foram as possessões em África e no Oriente, a nova “joia da coroa” passou a ser o futebol com os regimentos que são os clubes que contratam soldados nos mais diversos territórios dos bons velhos tempos coloniais a fim de, através das disputas, desta feita, desportivas catalisarem a economia inglesa por todo o mundo.

 

Os ingleses não brincam em serviço

 

Boris Johnson, com o seu estilo, até pode ser considerado “uma boa piada política”, no entanto, é necessário compreender que, ao contrário de alguns líderes europeus que não passam de uns pilha galinhas que só se representam e mal a si próprios porque, alguns deles, não têm sequer capacidade para perceberem os países que governam, aquilo que Boris Johnson representa está muito para além dele. Os ingleses consideram-se donos do futebol moderno. Como tal, é a sua visão do jogo (negócio) que deve prevalecer, como diria John Ruskin, na estética social, económica e política do futebol mundial. Por isso, os clubes ingleses até podem ser propriedade de autênticos lanistas estrangeiros, todavia, não foi por isso que Boris Johnson deixou de os chamar à pedra a fim de lhes explicar que, no espírito do “football duty”, têm de administrar os clubes de acordo com os desígnios imperiais da coroa inglesa que orientam os destinos do País.

 

Apesar de, entretanto, terem passado cento e cinquenta anos, as palavras de John Ruskin, num eterno retorno, continuam vivas no espírito das elites inglesas. Dizia John Ruskin: “Há um destino agora possível para nós… o mais elevado já estabelecido perante uma nação antes de ser aceite ou recusado. Ainda não somos degenerados em raça; uma raça misturada com o melhor sangue do Norte. Ainda não somos dissolutos em temperamento, mas ainda temos firmeza no governar e dignidade no obedecer. Ensinaram-nos uma lição de pura misericórdia, que agora devemos trair ou aprender a defender cumprindo-a. Porque somos ricos de herança de honra, que nos foi legada através de mil anos de uma nobre história, que deve ser a nossa sede diária que aumenta com esplêndida avareza, para que os ingleses, se é pecado cobiçar honra, sejam as almas vivas mais ofensivas”.

 

Ora bem, é este espírito que se mantém vivo na sociedade inglesa e se propaga nas mais diversas áreas sociais entre elas a do desporto. Para os ingleses, o desporto é, sempre foi, uma metáfora espiritual que os leva a assumir a sua superioridade moral perante tudo e todos.

 

O doloroso que é ver os líderes europeus

 

Foi doloroso, mas compreensível ver alguns líderes europeus a claudicarem perante as ameaças de Boris Johnson e, de cócoras perante o poder imperial de uma Inglaterra que até já nem faz parte da UE, querendo-nos convencer que estão a defender os princípios de solidariedade, a valorização do mérito e a nobreza dos resultados desportivos do desporto europeu. Foi pungente ver a demonstração de uma inferioridade étnica e cultural internalizada em resultado de uma colonização que inculcou no espírito dos colonizados uma desprezível subserviência aos valores e imposições coloniais. Gente sem princípios, sem valores, sem conhecimentos, sem história e sem mundo, não devia estar em lugares de responsabilidade que são os da governação dos países e dos seus mais diversos setores sejam eles económicos culturais, científicos ou desportivos.

 

Ligas europeias

 

O projeto da Superliga Europeia de futebol e das eventuais superligas de todos os desportos desde que, através da indústria do entretenimento, do marketing e da publicidade, sejam capazes de gerar as receitas necessárias à sua sustentação, é uma tendência natural do desporto europeu que, a prazo, gerará benefícios significativos por duas ordens de razões: (1ª) Acaba-se a promiscuidade entre a prática desportiva amadora e a prática desportiva profissional existente no atual sistema; (2ª) As Federações Desportivas passam a estar dedicadas a tempo pleno ao desenvolvimento social das modalidades.

 

Note-se que o sistema piramidal que hoje está a servir de argumento por quem nunca se interessou por ele, em alguns países (read my lips), está completamente deturpado à imagem e semelhança daquilo que se passava na República Democrática da Alemanha (RDA) em que só existia uma estrutura de base a nível da disciplina de educação física a fim de, através de programas especiais, detetar potenciais talentos, e uma estrutura de alto rendimento no vértice da pirâmide cujos atletas eram agentes profissionais da propaganda política do regime. Verificava-se, por isso, uma completa ausência de programas de prática desportiva nas estruturas intermédias do sistema desportivo pelo simples facto de elas não existirem.

 

A rutura entre as Federações Desportivas e as Ligas Desportivas é uma das condições “sine qua non” para salvar o MED porque, só assim, se garante um desenvolvimento de geometria variável que responda coerentemente e com transparência às especificidades do funcionamento das diversas áreas, setores e etapas de prática desportiva.

 

Em conclusão

 

(1º) A crise politico-futebolística da Superliga, mais uma vez, veio provar que, nem a UE nem os países, como se comprova pelo vazio de pensamento e a hipocrisia dos discursos, faz a mínima ideia do papel que o desporto tem e pode vir a ter na construção no futuro da Europa. Significa, antes de tudo, da derrota do pensamento.

 

(2º) Hoje, o desporto apresenta uma geometria variável pelo que:

(a) No domínio da educação está mais ou menos, pior ou melhor, presente nos programas curriculares dos ensinos básico e secundário;

(b) No domínio do entretenimento processa uma dinâmica de eventos profissionais que acontecem a uma escala global;

(c) No domínio da política alimenta uma significativa massa populacional que encontra nas vitórias dos seus emblemas um sentido de satisfação para as suas próprias vidas;

(d) No domínio da economia, numa estratégia de “soft power”, catalisa os interesses económicos dos países no quadro do neomercantilismo da economia global.

 

(3º) O presidente do Real Madrid afirma que a Superliga servirá para “salvar o futebol” europeu. Os líderes europeus deviam compreender que a institucionalização de Ligas nas mais diversas modalidades desportivas a fim de, com autonomia e transparência, gerirem o desporto profissional do espetáculo e do entretenimento é de fundamental importância para salvar o próprio Modelo Europeu de Desporto.

 

(4º) As Superliga Europeia e as Associações de profissionais que congregam os atletas de modalidades desportivas individuais que alimentam a indústria do espetáculo e do entretenimento são questões supranacionais cuja regulamentação está na alçada da ordem jurídica da UE que, sobre a matéria, deverá produzir legislação concreta sobre o assunto.

 

(5º) Hoje, o desporto não é guerra sem tiros… é economia política por outros meios.

 

(6º) Parafraseando Bill Shankly, um dos mais famosos treinadores da história do futebol inglês – o desporto não é uma questão de vida ou de morte é muito mais do que isso. Trata-se, por isso, de uma questão desportiva em que, em algumas circunstâncias, prevalece a questão político-económica.

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