Os jogos olímpicos e os tempos modernos (artigo de Vítor Rosa, 137)

Espaço Universidade 13-12-2020 14:51
Por Vítor Rosa

“Os jogos olímpicos constituem o espaço necessário para a emulação muscular da juventude, o concurso quadrienal onde são coroadas as performances individuais da elite. Eles não devem sofrer nenhum constrangimento: o seu caráter e a sua autonomia impõem-se. Mas, no domínio da educação, o desporto deve ser considerado como uma alavanca poderosa e ao mesmo tempo delicada, que não deve ser manobrada por qualquer um e de qualquer maneira” (Pierre de Coubertin, La Suisse, 3 de abril de 1928).

 

Colocada aqui em evidência, com esta declaração Pierre de Coubertin (1863-1937), que na altura já não era Presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), organização não-governamental, precisa um pouco mais o significado da sua obra e do seu compromisso. Desde os seus 20 anos de idade, despendendo a sua energia e dinheiro, ele tenta convencer os seus contemporâneos dos benefícios possíveis de uma prática desportiva codificada, colocando em evidência os valores consubstanciais. O desporto, que ele preconiza como uma atividade relacionada a um constrangimento social, contrariamente ao jogo, tem duas componentes: educativa e política.

 

Com efeito, o desporto parece ter resolvido uma equação: partindo da igualdade de oportunidades, o desporto produz uma desigualdade de estatutos. Desde o fim do século XIX, este paradigma parece ser admitido por todos, provoca reações tanto hostis como favoráveis e prova que os valores que a opinião atribui ao desporto não são concordantes com o desenvolvimento efetivo das práticas desportivas. A forma como foi progressivamente instituída a universalidade do desporto e das inerentes questões políticas e ideológicas, leva a que seja necessário compreender em que medida as grandes manifestações desportivas, e em particular os jogos olímpicos, inicialmente concebidos para celebrar o ideal de Coubertin, foram progressivamente transformados em “feiras de músculos”, onde os valores do olimpismo surgem cada vez mais ultrapassados face às novas realidades desportivas. Se o olimpismo participa nas crenças coletivas, cada um deve ter a capacidade de distinguir os valores supostos e os valores reais do desporto moderno.

 

Em 1990, ou seja, um século depois da renovação dos jogos olímpicos, o COI define o olimpismo como uma “filosofia de vida, exaltando e combinando um conjunto equilibrado de qualidades do corpo, da vontade e do espírito. Aliando o desporto à cultura e à educação, o olimpismo quer-se como criador de um estilo de vida fundado na alegria do esforço, do valor educativo do bom exemplo e do respeito pelos princípios éticos universais” (Carta Olímpica, 1990). A evolução dos valores do desporto durante o século XX parece rejeitar esta visão idealista, ao ponto de nos perguntarmos se o mito olímpico não participa, de forma evidente, à cegueira coletiva. E, como diria José Saramago, no seu Ensaio sobre a Cegueira, “a pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos à frente”.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

 

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