Rúben Amorim: um projeto-esperança (artigo de Manuel Sérgio, 343)

Espaço Universidade 25-06-2020 16:50
Por Manuel Sérgio

Não me prevaleço poder dar do Rúben Amorim, treinador de futebol do Sporting Clube de Portugal,  uma  exaustiva noção das suas ideias, das suas convicções, das suas crenças. Há mais de 40 anos, o Carlos Alhinho, inscrito no 5º ano do ISEF/UTL e futebolista do Sport Lisboa e Benfica, findas as aulas, às quintas-feiras, convidava-me, de quando em vez,  a um jantar de dieta caboverdiana, em sua casa, preparado, com mão de mestre, pela sua esposa. Eu lecionava, então, a disciplina de “Filosofia das Atividades Corporais”, de que ele era aluno (aliás, aluno cumpridor, indócil e desempenado, como poucos).

 

À mesa, encontrava, quase sempre, o Humberto Coelho, o João Alves, o Vítor Martins, o Néné e alguns outros jogadores do Benfica; por outro lado, os jogadores do meu Belenenses e um ou outro treinador (a começar em Pedroto, o Mestre incontestado de todos nós) que faziam o favor de procurar-me – enfim, um convívio maleável e desartificial com “agentes do futebol” permitiam-me uma síntese da “mundividência” do jogador de futebol lusitano daqueles anos idos. Hoje, velho, no ocaso da vida, longe portanto do futebol e dos clubes que o dirigem e praticam (conquanto espectador sereno do “desporto-rei”) – não sei  se poderei ressoar os pensamentos e as emoções dos praticantes do futebol pós-moderno, ou seja, do futebol atual. O Rúben Amorim, com 35 anos de idade, antigo jogador profissional de futebol, é um jovem treinador. De voz suave e firme, quero eu dizer: não dando a ideia que se impõe pelos brados de comando, mas pelo peso e precisão das palavras, as quais articula pausadamente, para que bem se entenda o conteúdo do que diz – Rúben Amorim parece ter chegado atrasado ao Sporting  mas, publicamente, não pretende inculcar que é uma voz que clama no deserto, nem nada reivindica, nem a ninguém assaca culpas. O que de mais importante tem a dizer, di-lo ao seu presidente (o Dr. Francisco Varandas, médico e militar, pessoa que corajosamente instaurou um tempo novo, no Sporting Clube de Portugal). E, com a simplicidade de quem vai direto ao tema, sem rodeios nem inflexões, começa e recomeça o seu trabalho diário…

 

Alheio a Escolas e a Mestres, refratário a classificações sumárias, a sua visão do futebol deverá ser, se bem penso, uma curiosa encruzilhada, na qual se interpenetram os muitos anos que tem de profissional de futebol, algumas ideias dos treinadores que conheceu e uma inteligência viva, temperada por queirosiana ironia. Só assim se entende o determinismo das suas respostas aos jornalistas: “No Sporting, desde o primeiro momento que me contactaram, para vir para cá, o objetivo primeiro era ganhar jogos e ajudar a lançar jovens, porque o momento do clube assim o exigia. A pandemia ainda acelerou mais esta situação. Obviamente não vou falar pelos outros, mas no Sporting a crise está para durar, sabendo que temos de ganhar jogos e que não  vamos ter sempre este balão de oxigénio, esta almofada de dizer que são muito miúdos e precisam de tempo. Não, o Sporting exige resultados e… desde já! Mas sabendo que a nova aposta é na formação. Vamos reunir tudo e tentar chegar a bom porto!” (em 2020/6/18).

 

O Jorge Valdano, um “homem do futebol” que é simultaneamente um poeta, escreve, com muito saber e encanto, no jornal A Bola (2020/6/18): “No Barcelona, todos batem o pé à espera que um assomo de rebeldia de Messi cristalize em genialidade. Esse é o principal argumento de um guião, sem desenvolvimento ou desenlace. De Messi depende o resultado e o lado atrativo do jogo. Sem ele, custaria ver este Barça”. Rúben Amorim não tem um Messi, mas tem os jovens necessários e suficientes, para criar um tempo novo, uma Academia nova, um Sporting novo. E também um vocabulário novo, um discurso novo, novos ideais de excelência para um Sporting renovado. O Dr. Dias Ferreira, donde emerge a antiga vitalidade dos tempos áureos do Sporting, já não teme escrever: “Acho que posso dizer que o Sporting está a jogar mais e melhor que o Porto ou o Benfica. E para ser justo acho que devo atribuir mérito a Rúben Amorim, que está a saber muito bem misturar jogadores experientes com jovens com muito talento” (A Bola, 2020/6/20).

 

Na alta competição, ninguém ganha porque sabe, mas sabe porque ganha. Assim, no futebol altamente competitivo, para o adepto (para o “torcedor”) ou há vitórias, ou não há saber reconhecido. Dos meus Amigos brasileiros, que acompanham as “performances” do atual treinador do Flamengo, com atenção e admiração, um deles dizia-me há pouco, referindo-se ao Jorge Jesus: “Ele é só futebol! É futebol em estado puro!”. Mas o Jorge Jesus é campeão carioca, brasileiro e da taça “Libertadores”. Sem vitórias, quem ousava saudar a sua originalidade e criatividade? E o Brasil é a pátria do futebol-arte. Os próprios brasileiros o sublinham: “o nosso estilo de jogar futebol me parece contrastar com os dos europeus, por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de brilho e de espontaneidade individual (…). Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despitamentos, os nossos floreios com a bola, é alguma coisa de dança e capoeiragem que marcam o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e às vezes  adoça o jogo inventado pelos ingleses e, por eles e por outros europeus, jogado tão angulosamente, tudo isso parece exprimir de modo interessantíssimo , para os psicólogos e os sociólogos, o mulatismo flamboyant e, ao mesmo tempo, malandro que está hoje em tudo que é afirmação verdadeira do Brasil” (Aquino, Rubim de, Futebol: uma paixão nacional, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 2002, p. 109). Inteiramente de acordo! Mas o Brasil também é a pátria do Pelé e do Careca e do Zico e do Sócrates e do Ronaldo, o “Fenómeno”, e do Neymar, etc., etc., jogadores, todos eles, de remate potente e certeiro, para além do futebol-arte, em que eram (ou são) exímios. A “inspiração” supõe a eficiência. Sem esta, o futebol-arte perde boa parte do interesse. A arte, como evocação do sublime, do divino, pode ressaltar da genialidade de um Ronaldo ou de um Messi. Só que pode não representar a sociedade donde nasce. O futebol, como arte, pode ter espectadores, mas não tem adeptos. No espetáculo desportivo dos nossos dias, “ser” e “aparecer” têm de coincidir. Hoje, a fruição do futebol não é unicamente estética. Atualmente, num golo, o vencedor não é o futebol-arte, mas o futebol-competição de uma sociedade também altamente competitiva..

 

Tudo isto o Rúben Amorim e o seu Presidente sabem. E sabem mais – sabem que um “antigo jogador genial” não é sinónimo de “atual treinador competente”; que uma equipa, só com jogadores habilidosos, não ganha jogos (lembro a Holanda do Mundial de 1974 e o Brasil de 1982); que uma equipa não se prepara tão-só no campo, com treinadores e futebolistas, mas com um clube, devidamente organizado e especializado (quero eu dizer: uma especialização baseada no conhecimento e ao serviço dos objetivos da organização); e, por fim, que o conhecimento exige aprendizagem contínua, porque são contínuas também as mudanças epistémicas. Salvo melhor opinião, o nosso futebol de alguns clubes tem um defeito grave: há um “patrão” e pouquíssimos colaboradores, informados e responsabilizados  com rigor e, por isso, fiáveis colaboradores. Ora, um ponto de vista, único e absoluto, que não se articula com outros pontos de vista, pode ser tudo, navegar até nas águas doces e tranquilas da ilusão, mas não tem futuro.  Sou do tempo em que o presidente de um “clube grande” era, normalmente, um artífice da palavra retórica, pomposa, roçagante. Tenho presentes as assembleias gerais em que o Dr. Francisco do Vale Guimarães, ou o Juiz Gouveia da Veiga, ambos presidentes do Belenenses, discursavam. A definir os problemas do futebol, de há 50 e 60 anos, mostravam informação vária mas reduzido conhecimento. O Juiz Gouveia da Veiga mostrou-me um dia uma edição da Eneida… que ele lia e compreendia, em latim! Era, de facto, pessoa de vasta cultura! Mas o conhecimento do futebol (nele, medularmente um jurista insigne) não era o seu forte. O que é o conhecimento? É uma prática que é teoria e uma teoria que é prática e, porque síntese de estudo sério e de prática incansável – o conhecimento torna-se produtivo. Este conhecimento (e não outro) é, hoje, o maior investimento de todos os países desenvolvidos. O seu primeiro objetivo? Tornar produtivo o conhecimento.

 

Uma outra característica deste conhecimento: des-estabiliza. Sim, de facto, des-estabiliza os que não estudam (e não sabem o que devem estudar); os de impecável compostura mas que apresentam tão-só o que traz a marca do trivial e do banal; os bajuladores, os sabujos, os esbirros de qualquer situação apoiada pelo “status quo”; os permanentemente ressentidos, a quem a inveja condiciona o comportamento; as pessoas de débil mentalidade e de incipiente formação moral. Isto, para dizer que, em terreno naturalmente tão pródigo a uma competição desenfreada e embora o esforço dispendido, o perigo espreita em cada esquina e até a perder de vista. No entanto, os resultados no futebol-espetáculo são quase tudo, ou mesmo tudo. Não, ninguém toma em conta a natureza das ideias expendidas, nem o resíduo de ciência que encerram - ou há vitórias, ou o treinador passa de bestial a besta, inapelavelmente. Se não descambo em erro crasso, a alta competição atual sufocou, quase completamente, no espetáculo desportivo, o espírito lúdico. E o que era um jogo, com a mais vibrante, espontânea e fecunda alegria que imaginar se possa, converteu-se em trabalho, em trabalho tão-só. Participei, numa cavaqueira, na Direção-Geral dos Desportos, quando o Jesus Correia foi visitar o Fernando Peyroteo que nela trabalhava como técnico. Corria o verão de 1976. E o “Necas”, em determinado ponto da conversa, rompeu a falar, referindo-se aos futebolistas portugueses da década de 70: “O progresso também entrou no futebol. Mas estes “gajos” já não podem gozar o que nós gozámos”. E indagou do  Peyroteo: “Lembras-te da nossa vitória de 8 a 2 sobre o Lille, campeão de França?”.  E o Jesus Correia, continuou em voz suave e saudosa: “Marcaste três grandes golos”. E ainda proferiu: “Tudo se fazia com gosto”. No entanto, do futebol, como saber específico, já muito se sabia. Lembro-me do José Pedroto que muitas vezes dizia: “Se eu for dono da bola, serei dono do jogo”. Ainda outra frase de Pedroto: “O domínio do meio-campo é essencial”. E mais esta, por fim: “O golo é mais consequência da posse da bola do que do rendimento dos jogadores”. Entretanto li, há pouco, que estas frases são de Guardiola.  Eu escutei-as de um amigo, há mais de 40 anos, na cidade do Porto…

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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