O boxe (artigo de Vítor Rosa, 30)

Espaço Universidade 25-04-2019 22:12
Por Redação

Existem vários trabalhos que têm como objeto de estudo o boxe, mas a análise etnológica de Wacquant (2000) é certamente a mais rica sobre a construção dos “habitus pugilísticos” masculinos no domínio do boxe inglês, num bairro negro de Chicago. O autor descreve a importância das aprendizagens técnicas no processo de incorporação das normas e valores no ginásio. De forma detalhada, descreve as relações entre o mundo fechado (o ginásio), o universo pugilístico, a rua, o bairro e o gueto. De forma contrastante de um ambiente hostil, o clube constitui uma ilha estável e ordena as relações sociais, onde os interditos são possíveis. O ginásio não é apenas um espaço de confronto. Ele é protetor, permitindo escapar ao quotidiano e à tentação de os praticantes viverem da ilegalidade. Este espaço regula a violência e permite quebrar a rotina. Os pugilistas distinguem-se dos outros jovens do gueto pela vantagem da integração social e pela ligação a uma família não decomposta e relativamente intacta. Eles provêm de famílias de classes operárias, do sub-proletariado e exercem pequenos trabalhos nos serviços. A grande maioria trabalhava como seguranças, canalizadores, pedreiros, limpezas, nas fábricas. Wacquant colocou as luvas e descreve a aprendizagem das práticas, das codificações e das normas implícitas, afastadas de um investigador branco que nunca antes tinha praticado boxe e pertencia às classes sociais cultivas dos universitários.

Mennesson e Clément (2009) prestaram especial atenção às mulheres nas práticas pugilísticas violentas, reservada aos homens, até um período recente. É um estudo inédito. Os autores procuram estudar este universo das mulheres no boxe francês de 1997 a 2005. Para isso, realizaram trinta entrevistas às pugilistas que participavam em competições de nível nacional e internacional. Para elas, minoritárias neste espaço essencialmente masculino, a aprendizagem das técnicas pugilísticas e o trabalho de “feminização” de aparência corporal são simultâneas. Os autores concluem que a relação diferenciada com a prática do boxe (num estilo mais “hard” e noutro mais “soft”) inscreve-se nas trajetórias escolares e sociais diferentes. São sobretudo mulheres originárias das classes populares que aderiram ao estilo mais “hard”. As pugilistas “soft”, maioritariamente em situação de sucesso escolar no ensino primário e secundário, começam o boxe pelos 20 anos ou mais e as pugilistas do estilo “hard”, muitas vezes confrontadas com o insucesso escolar, iniciam o boxe com cerca de 15 anos. As primeiras descobrem por acaso os aspetos estéticos da prática do boxe francês, as segundas começam a praticar esta modalidade para exprimir o seu gosto pelo confronto e a sua combatividade.

 

Como nasce e se exporta o boxe?

Grande parte dos desportos que são praticados atualmente no mundo, de uma maneira mais ou menos idêntica, são originários da Inglaterra. Eles expandiram-se para outros países, sobretudo na segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX. O futebol, a luta, o boxe, o ténis, o críquete, o atletismo, a corrida a cavalos, entre outros, são alguns exemplos. Estas modalidades desportivas eram passatempos dos ingleses que se expandiram por um grande número de países entre 1850 e 1950.

 

Também conhecido por pugilismo, o boxe é um desporto de combate que se carateriza pela arte de defender e atacar usando apenas os punhos. Na Inglaterra, o primeiro regulamento de boxe surge em 1743. Face à brutalidade nos combates, que não é o que mais agrada a um público no seu conjunto bastante aristocrático, em 1747, é recomendado o uso de luvas e aperfeiçoaram-se as regras. Um primeiro “campeonato do mundo” tem lugar em 1810 entre um branco e um negro, com 25 mil espectadores (Terret, 2008: 16). A federação amadora de boxe é criada em 1884.

 

O boxe masculino entrou nos jogos Olímpicos em 1904. Relegado para segundo plano, o boxe feminino surge apenas como desporto de demonstração. Praticamente invisível, só entrará, oficialmente, nos jogos Olímpicos de Londres de 2012. 36 mulheres, em três classes de peso, competiram nestes jogos, em comparação com os 250 homens em 10 classes de peso.

 

E em Portugal?

Em Portugal, o boxe surgiu no início do século XX. Os primeiros duelos de boxe são disputados a partir de 1909, suscitando interesse e curiosidade do público e dos adeptos da modalidade, sobretudo nas grandes cidades. Pouco a pouco, vão-se criando alguns clubes amadores, como, por exemplo, o Ginásio Clube Português, o Clube Arte e Sport, o Sport Cruz Quebradense, o Clube Português de Recreio e Desporto. Da necessidade de se organizar e regulamentar a “nobre arte”, é fundada, em 1914, Federação Portuguesa de Box (FPB).

 

Após o final da Grande Guerra de 1914-1918, o boxe populariza-se e evolui. Nos anos 20, o boxe partilhava os mesmos lugares onde se representava espetáculos de música e de teatro. O boxe, desde muito cedo, inseriu-se num produto comercial. Nos bairros populares de Lisboa (Alcântara, Bairro Alto, Madragoa, etc.), vão surgindo vários clubes desportivos (Grupo Desportivo da Mouraria, Clube Rio de Janeiro, Sport Lisboa Oriental, Ateneu Comercial, etc.), promovendo a modalidade.

 

Existem duas categorias de lutadores de boxe: o profissional e o amador. As diferenças entre ambos baseiam-se essencialmente no uso ou não de proteções físicas em combate e na duração dos mesmos. No boxe profissional os lutadores não usam capacete e os combates podem chegar aos 12 “rounds” de 3 minutos cada. Já no boxe amador, considerada modalidade olímpica desde 1920, os lutadores usam capacete e os combates caracterizam-se por 3 “rounds” de 3 minutos cada.

 

Um recrutamento “popular” não é fácil de se concretizar. O desporto é um mosaico de atividades físicas, que no seu conjunto, em termos de praticantes, não é homogéneo. Esta heterogeneidade apreende-se pelos dados das federações e incluídos nas várias publicações produzidas. Desde a sua implementação, o boxe português tem tido os seus avanços e os seus recuos, nomeadamente ao nível do número de praticantes. Em 2008, haviam 478 praticantes.

 

Referências:

Mennesson, C. e Clément, J. P. (2009). « Boxer comme un homme, être une femme », in Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n.° 179, pp. 76-91.

Terret, T. (2008). História do desporto. Lisboa: Publicações Europa-América.

Wacquant, L. (2000). Corps et âmes. Carnets ethnographiques d’un apprenti boxeur. Marseille : Agone.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

 

 

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