Da pedagogia – ou da falta dela (artigo de Armando Neves dos Inocentes, 64)

Espaço Universidade 27-05-2022 19:00
Por Armando Neves dos Inocentes

Na Grécia Clássica, o escravo que conduzia a criança até à palestra era denominado de pedagogo. Era aquele que a acompanhava e aproveitava o caminho para a ir educando…

 

Genericamente, a pedagogia é definida como a ciência que tem por objecto o estudo da educação. Ela fornece-nos os métodos e os meios para atingirmos resultados que beneficiem e valorizem o ser humano, tanto individual como colectivamente.

 

A pedagogia aplicada ao desporto resulta num campo do conhecimento que investiga a prática educativa pela atividade desportiva. A abordagem pedagógica do desporto releva questões não só de educação, mas também de formação e desenvolvimento. Falamos então de «pedagogia do desporto».

 

Mas mais importante do que abordarmos a pedagogia do desporto seria abordarmos a pedagogia no desporto. Porque para além de métodos e procedimentos, a pedagogia no desporto é acima de tudo uma ética pedagógica.

 

No momento em que o desporto é atravessado todos os dias por factos que nos mostram violência, xenofobia, fraude, corrupção e muitos outros comportamentos desviantes e disruptivos, mais do que nos preocuparmos com as causas deveríamos preocupar-nos com as consequências. Mais do que andarmos preocupados com a sensibilização, deveríamos andar preocupados com a formação. Com a formação integral do ser humano… Mais do que recorrermos à ética, ao cartão branco ou ao cartão do adepto (já em desuso), a mais legislação e a mais sanções, deveríamos recorrer à pedagogia.

 

Sabemos e conhecemos da fragilidade e da imperfeição do ser humano. Sabemos e conhecemos da incompletude da democracia. Sabemos e conhecemos como o sistema económico submete, aprisiona, tritura e elimina.

 

O próprio desporto – a actividade em si – colocou-se a jeito (ou foi colocado a jeito, talvez com intenções mercantilistas já na sua génese) e não esqueçamos que é uma actividade criada, desenvolvida e gerida pelo ser humano. Para além de muitas modalidades desportivas serem originárias das chamadas «artes da guerra» (salto com vara, lançamento do dardo, tiro com arco, judo, esgrima, tiro olímpico) o desporto assumiu um vocabulário castrense (ataque, defesa, tiro, lançamento, simulação, estratégia, contra-ataque). Os próprios J. O. da era moderna, que desde o seu início representaram o confronto entre as várias nações, adoptaram muitos dos elementos simbólicos da guerra (os desfiles com as bandeiras nacionais, as equipas uniformizadas, a atribuição de medalhas, a entoação dos hinos nacionais).

 

Dever-se-ia pedir aos jogadores que jogassem demonstrando pedagogia. Aos treinadores que fossem pedagogos. Aos árbitros que julgassem pedagogicamente. Aos dirigentes que executassem a sua gestão com uma base pedagógica. Aos políticos que actuassem dando exemplo de pedagogia. Tal desiderato não nos é no entanto possível dada a nossa imperfeição. Pior ainda quando não estamos preocupados com a verticalidade da nossa coluna vertebral. Recorremos muito ao chavão «é preciso mudar mentalidades», sim, mas sempre a dos outros, nunca a nossa. Esquecemo-nos amiúde que não é a doença que temos de tratar. É o doente que tem de ser tratado!

 

Portugal não vai ter nenhum árbitro no Mundial de futebol no Catar. Tendo sido escolhidos 36 árbitros, 69 árbitros assistentes e 24 para operarem o VAR, Pierluigi Collina, presidente do Comité de Árbitros da FIFA declarou que o critério utilizado foi o da qualidade. Informa-nos Duarte Gomes, através da sua página pessoal do Facebook (21.05.2022), que um dos árbitros assistentes seleccionado foi Tevita Makasini, do Tonga (arquipélago nos arredores da Polinésia), que, no entanto, nesta época não fez um único jogo no campeonato local. Triste pedagogia esta!

 

Disse o Presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol: “Ficamos tristes por não termos nenhum representante no Mundial”. Antes pelo contrário, deveríamos estar contentes, alegres por não termos ninguém num Mundial de futebol que vai ser realizado num país em que se questionam os direitos humanos, entre eles o da igualdade de género, mas para o qual foram escolhidas três senhoras – pela primeira vez – para arbitrarem no mesmo. Escolha pela qualidade, pela competência, ou por motivos políticos? Deveríamos estar felizes por os nossos árbitros não fazerem parte de um quadro de uma organização quando a Human Rights Watch exige que a FIFA indemnize (consta-se que são 418 milhões de euros) as famílias dos cerca de mais de seis milhares e meio de trabalhadores mortos na construção dos estádios e respectivas infraestruturas. Por aqui se vê por onde anda a pedagogia…

 

Exemplos flagrantes também a decisão do TIC do Porto de levar a julgamento dois empresários de futebol e um funcionário de um clube acusados do crime de corrupção por, alegadamente, tentarem favorecer esse clube não só nos resultados dos jogos de futebol mas também nos de andebol, assim como a irradiação de um árbitro português de ténis por manipulação de pontuações introduzidas num evento em 2020 e que facilitou ganhos a vários apostadores.

 

Entretanto a Federação Portuguesa de Futebol recebeu 400 mil euros da União Europeia para financiar o programa ‘Sport Against Match-Fixing’ a fim de combater a viciação de resultados… Segundo a sua pedagogia, e de acordo com a nota divulgada no ‘site’ da FPF, o projecto pretende “sensibilizar atletas da formação de várias modalidades desportivas para os perigos do ‘match-fixing’ e o impacto negativo que a associação a este fenómeno tem nas suas carreiras”. Mais uma campanha de sensibilização? E será a entidade que gere o futebol que se irá dedicar a outras modalidades desportivas?

 

Vivemos numa sociedade em que o superficialismo e o facilitismo são pedra de toque para muitas realizações. Com a consequente projecção mediática. Vivemos numa sociedade em que uns pedem mais armas, alguns mais sanções e outros pedem mais financiamento. Mas, tal como nos perguntava Jorge Valdano («A Bola», 21.05.2022), “por que razão nos custa tanto reconhecer a honra e a ética?». Questão que poderemos reformular com um pequeno acrescento: por que razão nos custa tanto reconhecer a honra, a ética, a moral e a pedagogia? Porque se a ética é prescritiva e a moral normativa, é a pedagogia que é actuante!

 

Exemplo pedagógico foi o protagonizado por Steve Kerr, treinador dos Warriors na NBA e adjunto da selecção norte-americana, na conferência de imprensa que antecedeu o jogo com os Mavericks. “Hoje não vou falar de basquetebol. Não quero responder a perguntas sobre basquetebol, o basquetebol hoje não interessa.” Referia-se ao massacre em Uvalde, no Texas, em que foram assassinadas dezanove crianças e duas professoras. “Quando vamos fazer alguma coisa? Isto é patético. Estou cansado dos minutos de silêncio. Basta!”

 

 

Armando Neves dos Inocentes é Mestre em Gestão da Formação Desportiva, licenciado em Ensino de Educação Física, cinto negro 6º dan de Karate-do e treinador de Grau IV.

 

 

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