Teses sobre o desporto: datadas ou atuais? (artigo de Vítor Rosa, 176)

Espaço Universidade 22-11-2021 12:01
Por Vítor Rosa

Na revista francesa “Quel corps?” (criada por militantes marxistas e simpatizantes da Liga Comunista Revolucionária), de abril-maio de 1975, Marc Perelman, arquiteto, docente na Universidade Paris-Nanterre e autor de vários livros, entre os quais “Le sport barbare: critique d'un fléau mondial” (2008), publicou um artigo interessante, intitulando-o “vinte teses sobre o desporto”. O autor assume que as suas teses apresentam lacunas. A sua intenção era lançar o debate na sociedade. Pela sua pertinência, destacamos aqui algumas das suas principais ideias:

 

·         É falso considerar que o desporto é “velho como o mundo”. Como instituição, o desporto é o produto de uma rutura histórica e é a consequência do desenvolvimento de forças produtivas capitalistas. É também o produto da diminuição do tempo de trabalho, da urbanização e da modernização dos transportes.

·         O desporto assume um significado diferente segundo as classes sociais.

·         A Inglaterra exportou as suas práticas desportivas, ao mesmo tempo que as suas mercadorias. A constituição do desporto mundial é paralela à consolidação do imperialismo.

·         O desporto atual é um desporto monopolista de Estado, inteiramente controlado e centralizado. Uma perspetiva reformista é ilusória.

·         A instituição desportiva insere-se no sistema capitalista.

·         O atleta de competição é um trabalhador que vende a sua força de trabalho, capaz de produzir um espetáculo, atraindo multidões, a um patrão.

·         A competição pelo lucro é completada pelo lucro da competição.

·         Os escândalos múltiplos e repetidos (fraudes fiscais, transferências de atletas ilegais, corrupção, dopagem, etc.) abanam o sistema desportivo, traduzindo a crise do capitalismo monopolista de Estado.

·         A competição económica internacional cristaliza em torno da luta pela organização de grandes eventos desportivos, em particular os Jogos Olímpicos.

·         As desigualdades sociais são reproduzidas de forma alargada e mascarada por uma pseudoigualdade entre os participantes.

·         O espetáculo desportivo opera uma “cretinização” das massas. A maior parte dos média (imprensa, televisão, etc.) está saturada de crónicas de faits divers e de eventos desportivos fúteis.

·         O desporto é um vetor da ideologia dominante. Ele conforta a mulher na sua forma dominada.

·         O campeão dopado torna-se o modelo. Os fãs constituem, por seu turno, uma força de pressão na aceitação da dopagem, que não é considerada como uma vergonha, mas como um aspeto adquirido no desporto e a sua defesa torna-se legítima.

 

Para quem a desconhece, é preciso dizer que esta revista tinha por objetivo denunciar a ilusão propagada da ideologia dominante através da crítica radical do desporto, mas foi descontinuada. Em dezembro de 1996, os seus abonados receberam uma carta a anunciar: “não é mais um rumor, mas um facto: Quel corps? (1975-1995) foi pulverizada pela auto-dissolução”.

Sabemos que o desporto ocupa um espaço importante nas sociedades, sobretudo a “futebolização”. Estas teses de Perelman, e outras, mereciam um debate alargado na sociedade portuguesa.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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