Ainda os recordes do mundo na natação em Tóquio 2020: uma miragem? (Artigo de Mário Costa, 1)

Espaço Universidade 12-09-2021 08:50
Por Mário Costa

Os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 terão certamente um lugar especial reservado na história. Este facto não decorre certamente pelas altas prestações dos atletas presentes, mas por ter sido o primeiro evento desta magnitude com um reagendamento, imposto por uma pandemia global, que culminou com um ciclo olímpico atípico para todos. Apesar de ter sido um período de incerteza, a verdade é que o evento foi um sucesso à luz das condições impostas em matéria de saúde pública.

 

Estando ainda numa fase de rescaldo, importa agora refletir um pouco sobre o impacto do reagendamento do evento e as marcas de maior relevo obtidas (entenda-se recordes do mundo) no caso concreto da natação. O número de recordes do mundo que foram batidos nestas Olimpíadas (três no total) em nove dias de competição ficou muito aquém do observado em edições anteriores. A título ilustrativo, nas edições de 2016 no Rio de Janeiro e de 2012 em Londres foram batidos 8 e 10 recordes do mundo, respetivamente.

 

Num ciclo olímpico moldado pelas restrições associadas à pandemia COVID-19, tornou-se imprescindível perceber de que forma as progressões no rendimento dos nadadores foram “afetadas”, e se o adiamento imposto foi suficiente para recuperar as adaptações perdidas. Num trabalho recente verificou-se que a evolução nas prestações dos nadadores qualificados para os jogos evoluiu satisfatoriamente (em torno de 2,5%) ao longo do último ciclo olímpico até à imposição do confinamento em 2019. A partir deste período assistiu-se a um natural decréscimo na prestação por questões biológicas subjacentes, ainda mais acentuada num desporto que requer condições particulares (p.e. meio aquático) para que haja um estímulo decente de prática. Com a paragem forçada, e considerando as prestações já no ano de 2020, a perda total relativamente ao ano de 2019 cifrou-se entre 1 e 2%, dependendo do tipo de prova e distância nadada. Em termos gerais, isto representou um retrocesso de cerca de dois anos no estado de forma dos nadadores, para níveis próximos dos observados na época desportiva 2017-2018. Este é um dado preocupante, permitindo-nos sustentar que o adiamento de apenas um ano para os Jogos de Tóquio 2020 foi manifestamente insuficiente de modo a restabelecer os níveis de forma desejáveis para a maioria dos nadadores e expectáveis para os seus treinadores. Em determinados casos, a real possibilidade de obtenção de um recorde do mundo acabou por se transformar numa miragem que certamente permanecerá durante três longos anos até Paris 2024.

 

Estamos cientes que este foram tempos conturbados e desconhecidos mas que nos permitem acautelar o futuro. Será desejável que haja uma coordenação real entre as diferentes entidades que regem o desporto nacional e internacional para que, com base na evidência, possam tomar as melhores decisões relativamente ao tempo de adiamento dos maiores eventos. Paralelamente sugere-se a preparação de um plano de contingência de apoio à elite com condições imediatas que atenuem esta perda abrupta e substancial de forma desportiva, caso uma nova pandemia se imponha no futuro. 

 

Este foi um trabalho com o contributo adicional dos investigadores Catarina Santos, Nuno Garrido e Daniel Marinho.

 

Mário Jorge Costa

Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Natação

Professor do Instituto Politécnico da Guarda

Investigador do CIDESD

 

 

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