Qual é o lugar do desporto na sociedade? (artigo de Vítor Rosa, 151)

Espaço Universidade 10-06-2021 08:39
Por Vítor Rosa

O sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) realçou os laços estreitos entre o desporto e a sociedade, no qual ele se inscreve. Pela forma como é praticado, e o que está em jogo, do ponto de vista simbólico, político, económico e social, o desporto é um revelador dos valores e da organização da sociedade. Uma simples referência sobre as emoções provocadas pelo desporto dá-nos uma ideia da sua importância na sociedade. Neste sentido, ele é uma questão política e social, que determina as caraterísticas da política desportiva num determinado país.

Historicamente, os objetivos da política desportiva são muito variados e, por vezes, contraditórios. Rapidamente, o desporto foi visto como um vetor de políticas públicas mais abrangentes: a defesa militar, com a ideia de que o desporto deveria permitir a formação dos futuros soldados prontos a defender a nação, a educação, como a sensibilização dos valores de exemplaridade e de responsabilidade como estão espelhados na Carta Olímpica, ou de saúde pública, com a luta contra as doenças associadas ao sedentarismo. O desporto é visto como um bem público, que contribui para a educação dos cidadãos, para a saúde e para o exercício da solidariedade nacional. Esta visão está bem presente na Europa.

Ao permitir aliviar as tensões criadas pela vida em sociedade, e a agressividade que pode alimentar, o desporto concorre para a coesão social. Esta é a teoria de Norbert Elias, que faz um paralelo entre o processo de pacificação dos costumes e dos valores e o surgimento do desporto moderno. O desporto, e mais particularmente a competição desportiva, permite exteriorizar uma parte da frustração suscetível de ser gerada, levando a um autocontrole.
 

O desporto reveste também uma dimensão simbólica, acentuada pela mediatização crescente dos eventos desportivos e pela digitalização dos meios de comunicação social. Os atletas não são apenas competidores de alto nível. Eles são eleitos heróis nacionais, aclamados pelas multidões. São os modelos de ascensão social, os porta-estandartes de um grupo social e o ponto de convergência das opiniões positivas da sociedade. Pelas suas performances, os atletas de alto rendimento, participam na divulgação internacional do seu país.
 

A conceção multidimensional do desporto encorajou o surgimento de uma política pública fundada no interesse geral.
 

Qual foi a inovação desportiva que se operou nos finais do século XIX? E eu creio que alguma coisa de original se criou. É preciso que nos entendamos: existe uma multiplicidade de práticas desportivas: 1) o desporto para todos, que não obedece a uma calendarização ou a recordes; e 2) uma prática desportiva, que embora pareça semelhante, é muito diferente. É institucionalizada, competitiva, organizada, obedece a uma calendarização, financiamento, e a recordes. É essa que nós vemos na TV. É essa que solicita a nossa atenção e que nos atrai.
 

Num breve percurso histórico, constatamos que o desporto moderno se diferencia dos jogos antigos, dos jogos da Idade Média e dos jogos clássicos. Os jogos antigos estavam associados a um tempo cíclico, não progressista, a uma religiosidade (e a relação com Deus), privilegia-se a lealdade do combate, a técnica, e não eram democráticos. Só os homens podiam participar. Existe os Jogos Olímpicos, mas existem outros eventos. Estende-se no imaginário. Na Idade Média eram privilegiados os torneios, reservados à nobreza, com armas caras, e material preparado para o efeito. A seleção social imperava. Nos jogos clássicos, era o mesmo: não obedeciam a um regulamento específico e não havia um calendário. Ocorriam ligados a um evento particular (casamento, receção de alguém importante, etc.). As mulheres eram afastadas dessas práticas. O sistema de apostas também era arbitrário. Está ligado à decisão do momento e do instante.
 

No final do século XIX existe uma rutura social. O que é que se inventa? Passou a ser, teoricamente, democrático, isto é, todos podem participar. Como todos podem participar, criou-se a necessidade de uma organização. Institucionalizou-se! Internacionalizou-se! Criou-se uma cronologia. O espetáculo-desportivo passou a estar presente. É a obsessão de mostrar. Passámos a ser uma sociedade de emoções e do visível.

Um outro aspeto que explica o sucesso do desporto é que coloca em destaque o ideal das sociedades contemporâneas. Todos partimos do mesmo nível de igualdade e é o mérito e o talento que ganham. Nesse sentido, é uma sociedade de concurso. O desporto permite orquestrar um discurso ao longo do tempo e permite tirar lições sobre o sucesso e o insucesso dos atletas, familiares, dirigentes, etc., seguindo-os como se fosse uma telenovela. Isso solidifica a cultura popular, os modos de sociabilidade variada (liderança, cooperação, oposição, etc.) e de comportamento. Cria um imaginário e participa no processo de memória.
 

Nesta inovação, destacamos também o corpo. Corpos que se inventam. Antes, privilegiava-se a força, o culturismo, os rostos acentuados, etc., que muitas vezes eram colocados nas capas de revistas. Hoje, existe uma diferenciação de qualidades. A sensibilidade é diferente. Existe uma poética do corpo e uma diferenciação de existir. Existem formas diferentes de ter prazer. O “corpo desportivo” é aquele que corresponde às normas de segurança, de musculatura e de grandeza. É um corpo de aparência, de pluralidade e de expressão. É a vulgata. O desporto é um lugar de diversificação da especialização.
 

Num estudo sobre as audiências da televisão em França, em 2010, tendo por base o número de objetos (um tema apresentado durante dois ou três minutos) tratados, o desporto surgia em primeiro lugar, em segundo a política, em terceiro a economia e, por último, a cultura. E se compararmos os grandes eventos desportivos e os eventos culturais, não é preciso fazer um desenho. Ele vai no sentido que adivinham. Isso mostra até que ponto o desporto assume um lugar especial nas sociedades contemporâneas. O desporto impõe-se a nós, o que leva a uma reflexão e a necessidade de compreender esta forte presença. A grande força desporto é que está em relação com os nossos ideais sociais.

Qual é então o problema? O problema é a sua fragilidade: a democracia pode ter um curto-circuito, pode inventar a dopagem, pode inventar a corrupção, pode inventar a violência, etc. É isso que é preciso vigiar a todos os níveis. Cabe ao Estado, mas também ao cidadão.

 

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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