Desafiemos as organizações locais para a retoma do desporto de formação!

Espaço Universidade 18-11-2020 18:25
Por Bruno Travassos

O COVID-19 trouxe novos desafios às sociedades atuais e ao modo como se têm organizado ao longo dos últimos anos. Estamos a atravessar um dos momentos mais críticos em termos de saúde pública mundial, mas também um dos momentos mais desafiantes para encetar mudanças que permitam novas lógicas de organização, novas formas de comunicação e novas formas de prática e competição desportiva.
 

Nas últimas semanas assistimos a diferentes manifestações, realçando a necessidade da retoma da prática desportiva de competição pelos escalões de formação. Olhando apenas para o futebol e futsal masculino e feminino verifica-se que o número de jovens inscritos nos escalões de formação caiu cerca de 80% (valores semelhantes têm sido reportados por outras federações), significando que cerca de 122 mil jovens não estão a praticar futebol e futsal. De forma alarmante, significa que cerca 122 mil jovens aumentaram as suas taxas de sedentarismo e provavelmente estarão de forma galopante a aumentar as suas pregas adiposas e a contribuir para que a epidemia da obesidade, e da iliteracia motora, que tanto nos preocupavam até há bem pouco tempo, e para o qual a DGS criou inclusivamente um programa específico (Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física), ganhem vantagem.
 

Todos sabemos que estamos a enfrentar uma pandemia! Renomados epidemiologistas e intensivistas deste país argumentam, com a realidade dos números, sobre a necessidade de medidas mais severas e restritivas sobre as atividades individuais, sociais e profissionais da população para achatar a curva. O que sabemos, e sobretudo sentimos, é que as medidas impostas não são coerentes e que o discurso e as ações são muitas das vezes desconexos.
 

Ora vejamos… Ao mesmo tempo que os médicos referem que a escola não pode parar e que os jovens devem manter a sua vida o mais “normal” possível, pois apesar de estarem sujeitos a contrair a doença apresentam-se numa esmagadora maioria dos casos como assintomáticos, a DGS e o governo não permitem a retoma da atividade desportiva de competição pelos jovens contribuindo para o surgimento de uma pandemia mais silenciosa que irá ocorrer a médio prazo nos jovens adultos da próxima geração. Para além disso, como referido e demonstrado inúmeras vezes, a relação entre prática desportiva e rendimento escolar é muito alta! O desporto também pode ser escola!

Enquanto que a retoma do desporto federado exige “Contextos de treino ajustado para garantir o distanciamento física permanente de pelo menos três metros entre praticantes: todos os escalões etários.” (orientação Nº36/2020 de 25/8/2020), as orientações para o ensino da educação física, apesar de fazer referência aos 3m metros recomendam que as estratégias pedagógicas tenham também por base “situações de ensino com grupos reduzidos, ajustados aos espaços de atividade física e valorizando a utilização de formas de jogo reduzidas e condicionadas, em função dos propósitos e do contexto de aprendizagem”. Não se percebe muito bem…
 

Como assumido pelas mais diversas entidades responsáveis da área do desporto estas recomendações e restrições, ao invés de suportadas em evidências técnicas e científicas, são de carater e responsabilidade exclusivamente política! Neste campo, em relação ao desporto, já verificámos que apenas importa o desporto mediático e que supostamente impacta economicamente… para todo o “outro desporto” não existem ideias, neste momento!

 

Se o poder político não quer pensar, pensemos nós, e tenhamos a coragem de propor novas formas de organização do desporto jovem que permita ir ao encontro das medidas já tomadas pelo governo e das necessidades dos clubes:
 

I)                    As escolas são o setor da sociedade onde o governo menos pretende intervir, pretendendo manter tanto quanto possível o “normal” funcionamento diário.

II)                   Nas escolas as crianças até aos 10 anos não necessitam uso obrigatório de máscara e podem praticar educação física, possibilitando de entre os quais “o desenvolvimento de situações de ensino de grupos reduzidos … e valorizando a utilização de formas de jogo reduzidas e condicionadas…”.

III)                 Os grupos escolares são grupos fixos permitindo manter controlada a rede de contactos entre os jovens.

IV)                 Os clubes e associações que fomentam o desporto de formação nas diferentes modalidades encontram-se com grandes perdas de praticantes até ao momento e não possuem qualquer competição, mantendo em muito dos casos, os seus treinadores de formação, sem qualquer remuneração ou apoio.

 

Tendo por base esta realidade consideramos que, de facto, está na hora de unir esforços entre o setor federativo e escolar, dando corpo a uma lógica tantas vezes apregoada e que tarda em sair da gaveta… mas sem burocratizar!
 

Deixemo-nos de clubismos bacocos e aproveitemos esta oportunidade para transformar a formação de base e criar verdadeiros centros de fomento da prática desportiva escolar criando clubes-escola multidesportos. A sugestão é que até ao escalão de sub-12 se potencie a prática e competição desses desportos, numa primeira fase em contexto de escola, e numa segunda fase em contexto de agrupamento ou concelho em função das especificidades.
 

Tendo por base os clubes com maior tradição no contexto da população escolar promova-se a prática de equipas e definam-se horários de treino coincidentes ou posteriores aos horários letivos que permitam que, quer nas instalações das escolas, quer nas instalações dos clubes, e de forma controlada, as crianças iniciem a sua prática competitiva. Consideramos que cada equipa nestas idades deveria poder praticar de forma competitiva 2 a 3 modalidades desportivas (1 individual e outra coletiva por exemplo) potenciando diferentes habilidades e capacidades físicas, percetivas, cognitivas e psicológicas. Pode parecer um pouco estranho, mas para além de diminuirmos bruscamente o abandono da prática desportiva, nesta fase critica, estaremos a potenciar o desenvolvimento desportivo destes jovens. Tal como as evidências demonstram, a variabilidade de prática é um dos fatores fundamentais para potenciar o desenvolvimento desportivo para o futuro e suportar o seu processo escolar.
 

Dos sub-13 aos sub-15, proceda-se de forma semelhante, mas potenciando a especialização de uma única modalidade desportiva e potenciando a competição entre turmas escolares e posteriormente entre escolas.
 

Dos sub-16 aos sub-19, deem as mesmas garantias que estão a dar ao desporto sénior, permitindo pelo menos competições distritais e com modelos competitivos diferenciados que limitem as deslocações e os contactos entre os jovens.
 

Então e quem seriam os treinadores desses jovens dos clubes-escola? Os treinadores dos clubes ou os professores de educação física. Quem tivesse competências para orientar cada atividade desportiva de forma competitiva como regulamentado pelo programa nacional de formação de treinadores. Os clubes beneficiariam no momento, e no futuro, aumentando o número de potenciais praticantes.
 

Mas mesmo assim não aumentamos o risco de contágio? Sim, claro! Todas as decisões têm risco ora mais imediato ora a médio e a longo prazo como se irá verificar com o aumento da obesidade e do baixo nível de prática desportiva no futuro, se continuar tudo na mesma. No entanto, hoje existem também evidências claras de que o uso de máscara não diminui a performance desportiva, aumentando ligeiramente a retenção de CO2 e a perceção subjetiva de esforço dos jogadores. O seu uso, mesmo que não ideal, poderá contrabalançar o maior risco de contágio da competição. No entanto, as evidências vêm demonstrando que o tempo de contacto aquando da prática desportiva, sobretudo em desportos coletivos, é reduzido mantendo o risco de contágio num nível médio (contacto de 6 minutos menos de 2 metros num jogo de futebol) (ver https://www.mdpi.com/873722).
 

A grande preocupação e o que pretendemos reduzir com esta proposta, são os contactos externos e entre jogadores de equipas diferentes que aumentam a rede de contactos de cada jogador participante expondo-os a um maior risco de contágio.
 

Esta proposta pode parecer estranha e difícil de implementar, como sucede em toda a mudança, mas o momento que estamos a viver é por si só suficientemente desafiador para que não fiquemos parados a lamentar-nos sobre o que poderíamos ter feitoe com a chatice do vírus. Basta querer e ajustar os recursos para que seja possível, ou o futuro não será risonho…
 

Estará o leitor a questionar-se, e quem operacionalizará este projeto? Como iremos colocar em contacto todas estas instituições? De forma simplificada, os clubes diretamente com as escolas e com as associações de pais, coordenados com as autarquias e com o apoio das federações nacionais e distritais das respetivas modalidades. Sobretudo que a implementação seja realizada por equipas de trabalho simplificadas, que utilizem a experiência adquirida e os recursos das associações distritais e federações para organização de competições. Os projetos deverão ser locais e permitindo agilizar e juntar esforços e não burocratizar o sistema como aconteceu com o desporto escolar! Desta forma facilitamos a decisão aos decisores políticos a nível central!!!
 

Se com projetos desta natureza, de carater sobretudo local e regional, não convencermos o governo a alterar o quadro de prática de formação atual, é porque não existe qualquer interesse no fomento da prática desportiva e no desenvolvimento desportivo. Deste modo, as incoerências revelar-se-ão maiores e as consequências para o futuro desastrosas!!!

 

 

Bruno Travassos

Professor Auxiliar e diretor de mestrado em Ciências do Desporto da Universidade da Beira Interior. Investigador CIDESD.

 

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