Em tempos de crise pandémica o Futebol adapta-se com dor e por amor (artigo de José Neto, 113)

Espaço Universidade 16-11-2020 11:16
Por José Neto

Encontramo-nos perante um tempo, outrora nunca visto, em que o silêncio no estádio se vê interrompido por indicações ocasionais, mais ou menos percetíveis na exigência imposta pela dinâmica operacional dos líderes, no sentido de se encontrar  uma melhor solução para a obtenção do êxito.

 

Outrora essa imagem coletiva dos adeptos, que gritavam e vibravam com o peso da sua bandeira, numa profunda relação de afetos no apoio participativo, deixa agora no amplo espaço de ninguém, uma imagem despida de cor e marcada pelo luto da distância.

 

A qualidade competitiva das equipas submetida à maior ou menor disponibilidade da sintomatologia dos casos positivos quer por parte dos jogadores, quer pelas estruturas técnicas que as compõem, obrigando a alterações logísticas e metodológicas muito diferenciadas entre clubes, porque ajustadas á habilitação das condições. técnicas e humanas existentes.

 

A anotar o facto de que neste momento verificamos várias equipas com jogadores nas respetivas seleções, consequentemente com vários dias de interrupção de rotinas presenciais de treino no seu clube de origem, enquadrados noutros perfis de exigência técnica, tática, competitiva e emocional, supervisionados  com distintas equipas técnicas, poderem ver comprometidas algumas respostas comportamentais, nomeadamente ao nível do espírito de coesão de grupo, que nalguns casos o vapor do êxito, propaga e aquece e noutros casos, a marca do fracasso, dissimula e constrange.

 

A acrescentar temos que refletir nos jogos realizados, bem como os resultados obtidos e a consequente resposta ao rendimento efetuado, que caso tenha sido negativo poderá fragilizar o acórdão de futuros desempenhos e daí um necessário planeamento personalizado na retoma para a competição, ao contrário dum desempenho de sucesso que por norma acumula um estado desafiador e perdura mais no tempo.

 

Ainda a reter os locais dos jogos realizados, as viagens de longas durações, as alterações climáticas detetadas, a problemática dos fusos horários a ultrapassar, que globalmente conduzem a dessincronização dos ritmos biológicos, gerando manifestações de fadiga, maior dificuldade de concentração, maior irritabilidade ao desgaste, maior perceção de ameaça, diminuição do estado de alerta, etc.

 

Creio que na retoma de funções aos clubes de origem por mais que se possa envolver na respetiva periodização do treino um conceito fenomenológico adaptativo da densidade, volume ou intensidade da carga, a recuperação dos atletas terá de passar pela validação do estado de satisfação no reingresso, coroado por um estado de autoconfiança, no desejo de elevada motivação para a partilha, revertido no estado de alma, no espírito de equipa e pelo eco de presença daqueles que lhe estão próximos, podendo ser estes argumentos capazes de provocar uma força suplementar aglutinadora para a consecução dos êxitos a obter.

 

Segundo o Professor Doutor Manuel Sérgio (2008), é na vertente da dimensão humana, apoiada na tese da intencionalidade operante, que nos garante que é a partir do tónus mental e emocional que cada sujeito cria a própria realidade, sendo o contributo de um estado de consciência ancorada num estado de felicidade o que permite transportar a energia autenticada pela segurança no fazer, capazes de produzir relações de elevada estabilidade, vendo -se validadas no sucesso conseguido.

 

Estamos no confronto com uma “guerra” invadida por uma comunicação desenfreada de valores apressados e de respostas nem sempre explicadas pela luz da razão. Contudo também sabemos que a capacidade humana para se adaptar a novas circunstâncias é especialmente admirável. Somos instrumentos facilitadores do reencontro com as coisas da vida. Nós encorpamos ações que ao se verem repetidas se transformam em hábitos. Assim, nunca como agora, se torna imperioso qualificar hábitos de vida e de treino onde possam imperar o otimismo, o entusiasmo, a confiança, a alegria, a felicidade, gerando um ciclo virtuoso que possa estimular os mecanismos do encontro com o êxito pensado para o sucesso a conseguir.

 

Uma nota final de solidária estima e afeto à nossa Seleção Nacional. Não obstante ter hipotecado no recente jogo com a França a hipótese de revalidar o título na Liga das Nações, a Seleção Nacional habituou-nos a rasgar com estilete de aço os traços duma exemplar identidade nacional… estou certo que voltará a ecoar bem alto o nome PORTUGAL através de novos êxitos a conseguir!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário/ISMAI.

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