Jorge Jesus: uma águia diferente (artigo de Manuel Sérgio, 347)

Espaço Universidade 10-08-2020 11:43
Por Manuel Sérgio

 “Não sou treinador de nenhum clube – sou treinador de futebol!”, proclamou o “Mister” Jorge Jesus, no passado dia 4, segunda-feira, na conferência de imprensa, após a sua tomada de posse como treinador de futebol do S.L.Benfica. Não poderia ter começado melhor  Jorge Jesus, no seu retorno à “nação benfiquista”.

Na pós-modernidade, que vivemos, um treinador de futebol tem de ser, de facto, um “trabalhador do conhecimento”, ou seja, tem de conhecer o que vai e deve ensinar; e ainda um “pedagogo” e um líder, quero eu dizer: que sabe como ensinar, que sabe instaurar e promover valores, que mostra amor pelo  que faz e que procura, numa síntese prática-teoria, a informação que fundamenta o seu conhecimento. No que ao líder diz respeito, ele deve tornar-se numa  expressão prática e constante das motivações de um grupo que persegue, com denodo (e ética) a vitória No Brasil, que eu julgo conhecer, o Jorge Jesus encontrou um modo original de sentir as coisas e a vida, num país onde o sentimento e a ternura tudo resolvem com cordialidade e com esperança. No Brasil, há uma paixão inédita nas relações entre as pessoas, que vem dessa combustão íntima das lenhas dos mais diversos continentes (principalmente a África e a Europa) e onde, portanto, o amor e o ódio se expressam, ora numa alegria medular, incomparável, ora numa explosão de palavras e gestos arcaicos, carrancudos, dramáticos. No entanto, a índole do brasileiro não é pessimista e até na maior desgraça encontra espaço para uma simples anedota ou uma sementeira de esperança. A desconforme grandeza do Brasil (o maior país da América do Sul) não se mede só nos quilómetros andados, mas pela força obstinada e confiante das qualidades do seu povo. No entanto, posso fazer afoitamente esta afirmação: o Jorge Jesus, no futebol do Flamengo, parecia mais brasileiro do que os brasileiros, dando alegria a quem a perdera, pelos  triunfos inolvidáveis, há muito arredios do universo “flamenguista”. O “Mister” Jorge Jesus levou ao Brasil um futebol novo, sem a ideologia da impotência – e venceu! O mesmo futebol que vai oferecer ao Benfica (que é, todo ele, a saudade de um paraíso perdido) – para vencer também!

 

Mas… onde está a novidade do futebol do Jorge Jesus? Trabalhei, sob as suas ordens, por generosidade sua e do Sr. Luís Filipe Vieira, no departamento de futebol do Benfica; sou um amigo que com ele dialoga, frequentemente; estudo, com o rigor possível, o impacto da epistemologia e da filosofia, no “fenómeno desportivo” – julgo, portanto, poder tentar um desenho (simples tenteio, nada mais) da sua personalidade. Não se mostra sujeito a tropismos partidários, nem a messianismos políticos. Acredita nos valores da solidariedade, da liberdade e da justiça, que intensamente vive e que frontalmente defende, em romântica e generosa oratória. Com religioso respeito, evoca os seus Pais e convive com os idosos. Minha Mulher e eu, que já visionamos os 88 anos de vida, podemos testemunhar o culto, em que ele se compraz, de ternura e devoção pelas pessoas de mais idade . Pelas frinchas dos excessos de expressão, se entrevê a alma do Jorge Jesus: um homem bom, naturalmente fraterno e justo. O retrato psicológico e moral é magro em pormenores, mas vou centrar-me no Jorge Jesus, treinador de futebol. Michael Massing observa: “Em todo o mundo universitário, as velhas (e novas) áreas das Humanidades estão a diminuir os cursos, reduzir o investimento e a assistir à crescente perda de alunos – e de influência. As novas coqueluches são o mundo digital, as tecnologias e os seus cruzamentos com a economia e a engenharia”. Para Michael Massing, no entanto, as Humanidades estão longe de ser inúteis, em termos materiais – pelo contrário, são verdadeiros “dínamos da economia”. Por exemplo, a indústria das artes e do entretenimento é em grande parte uma criação de pessoas que estudaram Literatura, História, Filosofia e Línguas” (in revista LER, Lisboa, Outono de 2019, p. 71). Ora, para mim, o Desporto integra uma ciência hermenêutico-humana e em muito contribui ao PIB (Produto Interno Bruto) dos vários países. Atingem os 456 milhões de euros o contributo do nosso futebol profissional ao PIB dos portugueses, segundo o Anuário do Futebol Profissional Português. E bem mais seria, aqui, de enumerar…

 

 “A redescoberta do tempo nas ciências do mundo físico-químico testemunha, por si só, que a história da ciência não é uma calma acumulação de dados que se incorporam num avanço simples e unânime. A história das ciências é uma história de conflitos, de escolhas, de apostas, de redefinições inesperadas. Talvez o exemplo mais dramático desta história marcada pelas surpresas e pelas transformações de sentido seja a história da concepção do universo temporal, que vivemos hoje” (Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, A Nova Aliança, Gradiva, Lisboa, 1986, pp. 6/7). Já no fim deste livro incontornável pode ler-se: “A descoberta da complexidade é, acima de tudo, um desafio (…). Mas esta complexidade que descobrimos é igualmente portadora de esperança, esperança de uma nova identidade da ciência, esperança que evoca  o título deste livro, A Nova Aliança. Com este título afirmámos que, para além das falsas classificações, dos interditos, das condições culturais, políticas e económicas, as ciências não têm por direito, como limite, senão a criatividade” (p. 440). Ora, nas ciências humanas, agimos segundo motivos e motivos que dêem sentido à vida. O homem é um ser permanentemente em busca de sentido – e o sentido, no Desporto, é a competição cingida à transcendência, rumo à vitória… sobre os adversários e sobre nós mesmos! Na alta competição, tudo é um apelo à transcendência (ou superação), na competição, no treino, na vida íntima e na vida social – em todo o lado, em todas as situações, o “homem do futebol” está em jogo. No futebol, há cada vez mais meios técnicos que parecem assegurar o caminho da vitória. E morais? É que, sem humildade, sem esperança, sem força de vontade, sem espírito de sacrifício, sem disciplina, sem solidariedade, sem o q.b. de inteligência, sem respeito pelos outros (colegas e adversários) e por si mesmo – nada de grande, edificante acontece na prática desportiva. Tudo isto o J.J. exige aos seus jogadores. Porque não há jogos, há pessoas que jogam, preparar um profissional de futebol é, acima do mais, preparar um homem que joga futebol!

 

E uma preparação física científica? O Dr. Mário Monteiro, licenciado em Desporto e muitos anos de trabalho com Jorge Jesus, é o seu adjunto habitual (e eu digo mesmo: ideal) neste setor. Hugo Assman (Reencantar a Educação, Vozes, Petrópolis, 1998, p. 150) classifica de “falaciosa” toda a teoria da mente, da inteligência ou do ser humano global, que não se integre numa filosofia do corpo. Na pessoa do Dr. Mário Monteiro, saúdo todos os treinadores-adjuntos que acompanham Jorge Jesus, profissionais que não deixam de prestar tributo, sempre que podem, à capacidade ilimitada de trabalho e à ação inteligente e perseverante do seu chefe. Alma incapaz de sofrer inveja, coração inábil para sentir rancor, vou distinguir, nele, algumas qualidades que explicam o treinador invulgar que o Jorge Jesus é: diferente porque, num mundo incerto, descontínuo, competitivo e crítico, chega a Lisboa, depois de uma estada apoteótica no Brasil, perfeitamente calmo, seguro dos seus princípios e dos seus métodos e afirmando, sem receio: “Vamos reunir um leque de jogadores, para fazermos uma grande equipa. E não vamos jogar o dobro, vamos jogar o triplo”. E insistiu ainda, na cerimónia da tomada de posse, como treinador do S.L.Benfica: “Vim para ganhar (…). Vamos arrasar”.

 

De facto, o que mais me impressiona, em Jorge Jesus, é a sua imunidade á insegurança, à incerteza, típicas do homem do nosso tempo. De facto, na racionalidade hodierna, sem excluir os “agentes do desporto”, as crenças, as ações, as decisões, as teorias, as regras, os métodos, os valores procuram, com mais volúpia, o ensejo de acerbamente criticar do que as oportunidades de realizar, de corajosamente decidir. Jorge Jesus é o contrário de tudo isto. A teoria platónica do saber parece ser o paradigma mais apreciado. Ele, ao invés,  é um prático, que sabe muito de futebol e sabe esta regra fundamental: no futebol não precisamos de muitas coisas, precisamos uns dos outros, quero eu dizer: precisamos de quem saiba jogar futebol e de liderança técnica e moral. Recordo, a propósito, o Zinedine Zidane, após um jogo Sevilha-Real Madrid, na época de 2016/2017: “Gestionar personas es más importante que la táctica”. Tenho a certeza que o treinador Jorge Jesus saberá encarnar as aspirações e os anseios do Benfica de hoje, dando-lhes expressão e realização plena. Não tenho dúvidas, a este respeito, No reino das águias, ele será uma águia diferente…    

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

                               

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