Como Proteger a Mente? O Vírus LM (Artigo de João Oliveira, 30)

Espaço Universidade 21-06-2020 19:22
Por João Oliveira

Terminado o pequeno-almoço, o Treinador Wooden regressou à questão que podia ter comprometido quer o seu comportamento, quer o resultado desse comportamento, quer a forma como se sentia, envergonhado, quer a forma como o jogador se sentia, irritado com aquele comportamento injusto, e perguntou ao Detetive Colombo – “afinal que vírus poderá ter-me levado a ter o comportamento que me envergonhou?” (para contextualizar esta questão, sugere-se a consulta do seguinte texto - https://abola.pt/Nnh/Noticias/Ver/841492).

 

Enquanto o Detetive Colombo se preparava para responder, o Treinador Wooden pensava porque esta conversa era importante – “poderia ter um comportamento digno e ajustado, poderia sentir-se orgulhoso de si e poderia tratar os outros com respeito e justiça, evitando um mal-estar geral”.

Entretanto, o Detetive Colombo perguntou – “Treinador Wooden recorda-se dos seus filhos, quando eram bebés?” Sem estar a perceber a ligação, mas curioso por saber onde a conversa o poderia levar, o Treinador Wooden respondeu – “sim, recordo”. “O que acontecia quando pegava neles ao colo e sorria para eles” – perguntou o Detetive Colombo. “Eles sorriam de volta” – devolveu o Treinador Wooden. O olhar de cada um estava nos olhos do outro, parecia que não havia mais nada no mundo, e o Detetive Colombo perguntou – “recorda-se de alguma situação em que fazia cara de chateado?” – e perante o acenar do Treinador Wooden, o Detetive Colombo continuou – “o que acontecia?” O Treinador Wooden fez uma pausa, recordava os momentos de dar a papa aos filhos, ainda eles não falavam, e fazia diferentes expressões, umas vezes as de chateado, por não estar a conseguir que eles continuassem a comer e respondeu – “eles como que replicavam a minha cara, pareciam chateados”.

 

“Pois bem Treinador Wooden, isso acontece porque existe mais do que a linguagem falada” – começou por dizer o Detetive Colombo, que perante o olhar atento do Treinador Wooden continuou – “também, utilizamos a linguagem das atitudes, para comunicar com as outras pessoas”.

“Como assim?” – perguntou o Treinador Wooden. “Durante milhões de anos, comunicamos através das expressões corporais, faciais, pelos sons e tons de voz e continuamos a fazê-lo automaticamente, ainda hoje em dia” – disse o Detetive Colombo. Depois de um olhar que parecia indicar uma reflexão e que por isso, o Detetive Colombo nada disse, o Treinador Wooden prosseguiu – “quer isso dizer que as pessoas também “falam” sem emitirem sons?” – e sem dar qualquer espaço para o Detetive Colombo falar, continuou – “já estou a perceber a ligação entre isto e o que se passou naquele jogo. Quando o jogador estava em campo e não estava a dar o seu máximo, aquela atitude estava a “falar” comigo”.

 

“Boa” – começou por dizer o Detetive Colombo e continuou – “essa é uma das partes a ter em conta, quando nos relacionamos com as outras pessoas, a de as suas expressões faciais e corporais e os sons e tons de voz também comunicarem connosco” – e pronta e avidamente, o Treinador Wooden perguntou – “qual ou quais são a ou as outra ou outras parte(s)?”.

 

Feita uma pequena pausa, o Detetive Colombo começou a explorar umas das partes e perguntou – “por que razão é que pensamos que as pessoas estão tristes, quando têm expressões na face em que parecem estar tristes ou pensamos que estão alegres, quando estão a sorrir?” A pergunta não parecia fácil de responder, mas o Treinador Wooden atreveu-se e disse – “porque as nossas atitudes refletem o que pensamos, como que se fossem espelhos da mente”.

A resposta tinha sido tão profunda que era merecida uma pausa, para ser interiorizada e o Detetive Colombo pediu um café 3/4 com canela, como gostava e a seguir, colocou uma nova pergunta – “por que razão é que as nossas atitudes refletem o que pensamos?”. O Treinador Wooden ficou intrigado, mas procurou responder. Depois de parar e pensar um pouco, disse – “porque acreditamos na nossa capacidade de saber o que as outras pessoas estão a pensar lendo as atitudes das pessoas”. O Detetive Colombo esboçou um sorriso e começou a dizer – “a isso chama-se ler a mente” – quando foi interrompido pelo Treinador Wooden.

 

“Já percebi a ligação, naquele jogo, em que o jogador não estava a jogar com a intensidade que lhe reconhecia e muitas vezes elogiava, naquele momento, eu comecei a pensar que aquele jogador não estava a dar o máximo” – disse o Treinador Wooden, com um olhar que parecia indicar que tinha descoberto algo importante.

 

O Detetive Colombo terminou o café e a seguir disse – “essa é uma das partes a considerar na equação do que eventualmente se poderá ter passado” – e sem mais delonga, o Treinador Wooden perguntou – “qual é a outra parte?”

 

“Voltemos ao momento daquele jogo, em que é que acreditava naquele momento?” – perguntou o Detetive Colombo. “Como assim?” – perguntou o Treinador Wooden. “deixe-me concretizar, por que razão começou a berrar e a repreender aquele jogador?” – perguntou o Detetive Colombo. Com um olhar incrédulo, mas disposto a explorar a situação, o Treinador Wooden respondeu – “porque não estava a dar o máximo”. “Por que razão não estava a dar o máximo?” – insistiu o Detetive Colombo. Depois de refletir, o Treinador Wooden respondeu – “porque não queria”.

 

“Se acreditarmos que as outras pessoas não dão o máximo por que não querem, então quando não estão a dar o máximo, como é que nos sentimos?” – perguntou o Detetive Colombo. “Frustrados e irritados” – respondeu o Treinador Wooden e de imediato o Detetive Colombo perguntou – “como nos podemos comportar, quando nos sentimos frustrados e irritados?”. O Treinador Wooden começou a ver o quadro geral e disse – “ignorando e ficando chateados ou berrando com os outros” – e depois de uma pausa continuou – “estou a ver a ligação, a atitude do jogador não dar o máximo levou-me a pensar que não estava a dar o máximo por que não queria e isso levou-me a sentir frustrado e irritado e a berrar com ele”.

Depois de dar algum espaço para o Treinador Wooden assimilar o que tinha dito, o Detetive Colombo perguntou – “o que pensou e como se sentiu, quando o jogador lhe disse que tinha uma entorse e não conseguia correr?”

 

“Como lhe disse antes do pequeno-almoço (para contextualizar esta questão, sugere-se a consulta do seguinte texto - https://abola.pt/Nnh/Noticias/Ver/841492), pensei que estupido, como foi possível ter-me comportado daquela maneira, que não era correto estar a repreender uma pessoa por eu pensar que não estava a dar o máximo porque não queria e senti vergonha do meu comportamento” – devolveu o Treinador Wooden e continuou – “percebo que as pessoas também comunicam através das suas atitudes, que acreditamos que as suas atitudes refletem o que pensam, mas que aquilo que pensamos sobre tudo isso nem sempre corresponde à realidade”.

 

“Se tivesse verificado a realidade, isto é, por que razão o jogador não estava a dar o máximo, antes de reagir, o que é que tinha descoberto?” – perguntou o Detetive Colombo e de imediato o Treinador Wooden respondeu – “tinha chamado o fisioterapeuta, para cuidar do jogador e em momento algum teria berrado com ele, nem teria sentido vergonha, nem irritado o jogador”.

 

“Acreditar que temos a capacidade de ler a mente dos outros com 100% de fiabilidade é uma crença construtiva, útil, razoável, agradável e sensata?” – perguntou o Detetive Colombo.

 

O Treinador Wooden olhou o Detetive Colombo e respondeu – “NÃO” – e continuou – “já descobri um dos vírus da mente, que pode comprometer a forma como pensamos, sentimos, agimos, fazemos os outros sentirem-se e os próprios resultados e que resulta da nossa interpretação da realidade e não da realidade, o vírus Ler a Mente (LM)”.

 

“Qual poderá ser a alternativa?” – perguntou o Detetive Colombo. “Verificar a realidade” – começou por dizer o Treinador Wooden.

Nesse momento, o Treinador Wooden pediu um café e enquanto esperava por ele, começou a pensar na enorme quantidade de situações que como filho, marido, pai, professor e treinador tinha estado aquém do que desejava e queria, por causa do vírus de Ler a Mente, pegou num guardanapo de papel e numa caneta e escreveu – “podemos viver em função das nossas interpretações da realidade, do que penamos que os outros estão a pensar ou podemos verificar se o que estamos a pensar corresponde à realidade e, por baixo, escreveu a letras maiúsculas – VERIFICAR A REALIDADE”.

Estava na hora de ir dar o treino, o Treinador Wooden agradeceu ao Detetive Colombo e a caminho dos balneários, pensou como podemos deixar de Ler a Mente dos outros e que outros vírus da mente haveria. Estava curioso e ansioso pela nova conversa com o Detetive Colombo.

 

 

Notas:

(1)    Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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