O hipercapitalismo da pós-modernidade (artigo de Manuel Sérgio, 309)

Espaço Universidade 22-09-2019 15:11
Por Manuel Sérgio

Ernst Bloch (1885-1977), que deixou rastro perdurável na História da Filosofia, inicia deste modo a sua obra O Princípio-Esperança: “Quem somos nós? Donde viemos? Para onde vamos? Que esperamos? O que nos espera?”. Sem qualquer reparo, posso escrever, no entanto, que tudo se encontra em perene movimento, que tudo é tempo, que tudo é história. Para o Miguel Real, grande pensador, onde perpassam as linhas mestras da cultura portuguesa, “a cultura (…) é o quadro (o modo, a forma) por que o Homo sapiens sapiens tanto se eleva acima do homo habilis e do homo faber e resiste e luta contra a sua ancestral condição de animal. Imagética mas sugestivamente, um peixe fora do aquário que, no entanto, ainda que estrebuche, nunca morre. O estrebuchar é condição de criação de cultura” (Nova Teoria do Pecado, D. Quixote, Lisboa, 2017, p. 144). O futuro é sempre um desafio e, diante deste desafio, ou quedamo-nos na expectativa do que poderá suceder, ou visionamos soluções, para transformar o presente. E, pela “práxis” transformadora, que pode revestir a forma do eclodir de uma guerra civil, ou o preconizar nalgumas “consciências vigilantes”, apoiadas num vasto saber teórico, de uma nova era de normalidade social e jurídica -  pela “práxis” transformadora, o ser humano procura dar sentido ao “processo histórico”, faz cultura, é cultura. De facto, a cultura é o trabalho, especificamente humano, de um ser que transforma e, ao transformar, se transforma. No hipercapitalismo da pós-modernidade, um novo evangelho se anuncia: “Procurai, em primeiro lugar, o lucro e tudo mais vos será dado por acréscimo”. A Amazónia, o “pulmão do mundo”, é consumida por incêndios devastadores? Mas, no reino das cifras económicas, não circulam outros valores, para além dos números, para além do lucro. Destruir árvores para, no seu lugar, construir hotéis e mansões de luxo: mais importante que o qualitativo da saúde das populações e do próprio planeta é, para o hipercapitalismo, o quantitativo do dinheiro, de mais dinheiro, de muito dinheiro.

 

Lembro-me agora de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry: “Os adultos adoram números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, eles nunca se informam do essencial. Não se mostram capazes de perguntar: Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos de que mais gosta? Será que ele coleciona borboletas?... Mas perguntam, com toda a certeza: Que idade tem? E quantos irmãos? E quanto pesa? E quanto ganha o pai? Só assim eles pensam conhecê-lo. Se dizemos aos adultos: Vi uma casa muito bonita, cor-de-rosa, gerânios nas janelas, com pombas nos telhados, olham, para nós, com desinteresse, sem entusiasmo. Mas se lhes dissermos: Vi uma casa de cinco milhões, logo exclamam: Que bela casa!”. De facto, a quantidade permite um mais fácil conhecimento do que a qualidade e pode manipular-se e vender-se, principalmente pela fina flor da burguesia. No reino do lucro, é a quantidade o que mais conta. Há pouco, li no Ensino Magazine, dirigido pela competência e pelo trabalho incansável dos Doutores João Ruivo e João Carrega e por isso um mensário de indiscutíveis méritos, no âmbito da Educação e do Ensino – li, há pouco, no Ensino Magazine (Setembro de 2019), uma entrevista do Prof. Filipe Duarte Santos, o mais prestigiado especialista português em alterações climáticas, que afirma, inflexível e exato: “só uma transição para as energias renováveis, poderá travar o agravamento dos efeitos das alterações climáticas, a nível global”. Os maiores emissores de gases, com efeito de estufa, são a China, seguida pelos Estados Unidos e a Índia. Acontece que os Estados Unidos do Sr. Trump, um reacionário de argumentação desconcertante, rasgaram o “acordo de Paris”. E a quantidade (de dinheiro) ganha, uma vez mais, à qualidade (de vida). Volto à palavra sapiente de Felipe Duarte Santos: “A indústria dos combustíveis fosséis (em particular a do petróleo, mas também a do carvão e do gás natural) é a mais poderosa do mundo”. A mais poderosa e a mais lucrativa. E, porque a mais lucrativa, a própria vida parece valer pouco diante dela…

 

“Como pensar a cultura, na época do hipercapitalismo cultural? (…) O que caracteriza de imediato este universo é a hipertrofia da oferta mercantil, a superabundância de informação e de imagens, a pletora de marcas, a imensa variedade de produtos alimentares, de restaurantes, de festivais e de músicas, os quais se podem encontrar agora em todo o mundo, em cidades que oferecem as mesmas vitrinas comerciais”. No entanto, “quanto mais os princípios do liberalismo moderno (o indivíduo e o mercado) governam o mundo democrático, mais nos encontramos desamparados com a sua aplicação. Nunca tivemos acesso a tanta informação, nunca o saber pormenorizado sobre o estado do mundo foi tão grande, mas nunca o sentimento de compreensão  do mundo, no seu conjunto, pareceu tão frágil e confuso. Eis-nos condenados a uma desorientação inédita, excecional, mas planetária: esta é uma das grandes características vividas da cultura-mundo” (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, A Cultura-Mundo, edições 70, Lisboa, 2010, pp. 20 ss.). Assim, a verdadeira luta, em que os mais jovens deverão empenhar-se, será mais cultural do que política? Às interrogações de Ernst Bloch, com que iniciei a minha prosa, sabemos responder, sem uma expressão de ansiedade, com o mínimo de segurança? Corroboramos as opiniões dos que não desejam nem o comunismo ditatorial, nem a insegurança e desorientação do hipercapitalismo? Já disse e escrevi repetidas vezes que “o desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo”. Mas o que é o desporto: é a atmosfera tensa dos jogos de altíssimo rendimento? É a Liga dos Campeões? São os que inscrevem os seus nomes, no livro dos recordes, como a norte-americana Sarah Thomas, que completou, quatro vezes sem parar, a travessia do Canal da Mancha? É só isto e nada mais? Afinal, o que é o desporto? É (aí vai uma definição, ao lado doutras, incluindo as de minha autoria) um jogo de regras fixas, em que, em competição e pela transcendência, pretendo alcançar a realização plena de mim mesmo.

 

Como todos sabemos, os animais fazem e são o que o passado das suas espécies programou para que fizessem e fossem. Não lhes é permitido criar novas maneiras de ser. As virtualidades do seu futuro nascem na sua história pregressa. Como escreveu Santiago Ramón y Cajal: “no ser humano, o talento é a facilidade e o génio a novidade”. Por isso, o desporto não se confunde com uma atividade meramente física: tudo nele é uma recusa da pura animalidade. A verdade desportiva não reside nos números dos desempenhos espantosos, mas na racionalidade, na vontade e ascese que a informam. E, acrescentemos sem receio, atualmente, no hipercapitalismo que a condiciona. Era criança (ou seja, nas décadas de 30 e 40)  e, no futebol e no basquetebol e no andebol de 11 e no râguebi, que contemplava no Estádio das Salésias, um semiamadorismo imperava no futebol e um amadorismo integral dominava as restantes modalidades desportivas. O desenvolvimento surpreendente da dimensão económica da alta competição desportiva, mormente do futebol; métodos sofisticados no treino desportivo; um profissionalismo juridicamente fundamentado; numa palavra só: um hipercapitalismo, motor da mundialização financeira e promotor de uma hipertecnologia, de um hiperindividualismo e de um hiperconsumo, de uma hiperpublicidade mediática,  de uma hipercompetição universais não se conheciam, não poderiam conhecer-se. Só que o hipercapitalismo, através do seu hiperindividualismo, da sua hipercompetição, gerou um aumento exponencial das riquezas e um lamentável aumento da pobreza. Metade da população mundial sobrevive, com menos de dois euros diários. O próprio Estado pouco é, diante do poder indiscutível do mercado e do lucro. Ora, porque o espírito da alta competição desportiva se converteu ao espírito do hipercapitalismo, o futebol que nos conformiza e cloroformiza é um dos aspetos do hipercapitalismo da pós-modernidade.

 

Embora o progresso nalguns países (precisamente os mais desenvolvidos), com o dealbar do século XXI, neles despontaram patologias, mais de origem neuronal do que de origem bacteriana ou viral. “Determinadas doenças neuronais, tais como a depressão, o transtorno por défice de atenção e hiperatividade (TDAH) ou certas perturbações da personalidade (…) descrevem o panorama patológico do início do século XXI. Não estamos já perante infeções, mas principalmente diante de enfartes” (Byung-Chul Han, A Sociedade do Cansaço, Relógio D’Água Editores, Lisboa 2014, p. 9). O hipercapitalismo caminha, em marcha acelerada, para um desenfreado hiperindividualismo e com a ideia, mesmo para alguns pensadores, verdadeiros protótipos de academismo e de afetação, que não há alternativa a este modelo de sociedade. S. Francisco de Assis (por quem o Papa Francisco mostra particular devoção) filho de família abastada, despojou-se da riqueza que lhe cabia por herança e, pobre entre os pobres, assim o dizia: encontrou a felicidade. Mas sem deixar de praticar o primeiro dos imperativos categóricos: “Ama os outros (as outras criaturas de Deus), como a ti mesmo”. As outras criaturas de Deus, ou seja, desde as árvores da grande floresta tropical da Amazónia (que Jair Bolsonaro parece olhar com um olhar lateral e indiferente) até ao mais pequenino dos insetos e à mais escondida das aves; desde as águas dos oceanos e os peixes que os povoam até aos animais que os rodeiam; desde o homem todo a todos os homens. E, pelo amor a todos e cada um dos seres humanos, fazendo da ciência mais do que ciência e da tecnologia mais do que tecnologia e da economia mais do que economia e do desporto mais do que desporto… porque em tudo está a absoluta alteridade de Deus! De facto, o desporto pode ser mais do que desporto!           

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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