Quem “matou” a mudança? Suspeito 19 – Resistir à Tarefa… (Parte 1)

Espaço Universidade 17-08-2019 09:34
Por João Oliveira

Será que o Presidente vai demitir o Coordenador da Academia de Futebol? Mark Angie, o Presidente do F.C. os Galácticos, estava insatisfeito e a ter uma importante reunião com Treinador Anthony Smith, o Coordenador da Academia dos Galácticos.

 

“A Academia não está a funcionar, pois são poucos os jogadores que estão a vingar na equipa principal e com isso estamos a criar vários problemas. Somos forçados a despender de milhões em contratações, todos os anos, os adeptos não se identificam com a equipa e deixamos de ter jogadores que sentem a camisola” – dizia o Presidente Angie, enquanto continuava – “e gostava de mudar esta situação. O que podemos fazer?”

 

Como pessoa estudiosa, persistente, muito exigente e de convicções fortes, mas sempre disponível para aprender e melhorar, o Coordenador Smith fez uma sugestão – “Presidente julgo que poderia ser útil realizarmos uma auditoria externa à Coordenação da Academia”.

 

O Presidente Angie fez uma breve pausa, como que apanhado de surpresa e, dada a longa e próxima relação entre ambos, perguntou – “o que está a pensar?”

 

“Há uns tempos, tive uma situação delicada, abordei o Detetive Colombo e o resultado foi extremamente útil. Estava a pensar em convidá-lo a acompanhar-me, para tentar perceber o que uma pessoa, externa e com conhecimentos, poderá detetar que esteja a comprometer o bom funcionamento e resultados da Academia. O que lhe parece Presidente?” – perguntou o Coordenador Smith.

 

A resposta não surpreendeu o Presidente Angie, dado que o Detetive Colombo já tinha ajudado o Clube a identificar e solucionar um conjunto de problemas, que estavam a comprometer a evolução do Clube e porque o Coordenador Smith, para além de competente, não só não iria sentir intervenção do Detetive Colombo como uma ameaça, como também estava realmente comprometido em descobrir a raiz do problema. Por isso disse – “força Coordenador Smith. Avance com a situação e depois informe-me dos resultados”.

 

Enquanto o Coordenador Smith estava a sair do seu gabinete o Presidente Angie pensava na “sorte” do Clube, por ter um Coordenador realmente interessado em que as coisas funcionem, dizia a si mesmo, acredito que esta iniciativa poderá ser o início de uma mudança importante, e pensava nas várias razões para a iniciar. Se melhorarmos o funcionamento e resultados da Academia, podemos poupar milhões em contratações, valorizar a formação do Clube, fixar os bons jogadores da formação, catalisar a própria Academia, ter jogadores que sentem a camisola, sentir os adeptos orgulhosos, por verem os seus “meninos” a terem sucesso, e a direção com a sensação que está a fazer o que é correto e a deixar um legado, a sua impressão digital.

 

Depois do Coordenador Smith contactar o Detetive Colombo e já no Gabinete do Coordenador Smith, onde se destacava uma parede toda em vidro, virada para os 12 campos de Futebol da Academia dos Galácticos, o Detetive Colombo perguntou – “o que se passa Coordenador Smith?”

 

A resposta do Coordenador Smith foi imediata, própria de quem já tinha refletido muito sobre o assunto, e disse – “a Academia não está a funcionar, nem a produzir os resultados desejados, sinto que estou perante uma enorme oportunidade de melhoria e gostava que me ajudasse a identificar e solucionar o problema, para a aproveitar”.

O Detetive Colombo perguntou – “o que é que o está a deixar incomodar?”

“Ao longo do tempo, tenho notado dois problemas” – respondeu o Coordenador Smith. “Qual é o primeiro?” – averiguou o Detetive Colombo.

 

“A Academia tem 22 equipas de formação, desde os Benjamins até à equipa B, e com ela toda uma estrutura técnica, com um Treinador Principal e com três Treinadores Assistentes. Tivemos momentos em que houve várias discussões, mas depois seguiram-se momentos de confiança, otimismo e encantamento” – começou por dizer o Coordenador Smith. “Como assim?” – tentava perceber o Detetive Colombo.

 

“Antes desta “crise”, os resultados foram bons, mas começamos a pensar que os “picos”, os bons resultados, iam durar para sempre, passamos a ver as coisas melhores do que realmente eram, “embandeiramos em arco”, deixamos de ver o que de “mal” estava escondido por detrás desses “bons” momentos, como que só vendo a parte cheia de um copo de água meio-cheio, esquecemo-nos do que nos levou a chegar a esses picos e, com isso, comecei a aperceber-me de 3 coisas” – explicava o Coordenador Smith, enquanto observava o ar de curiosidade e interesse do Detetive Colombo, que lhe perguntou – “quais?”.

 

“Quer nas reuniões de Coordenação com os 88 Treinadores, quer nos diferentes momentos em que conversávamos informalmente, como a tomar um café ou durante as deslocações para os jogos, comecei a aperceber-me que exagerávamos nas semelhanças – no está sempre tudo bem, que por vezes parecia bajulação - e até evitávamos as diferenças, que tantas discussões tinham provocado, antes de atingirmos esses “picos”. Por outro lado, também nos concentramos na boa relação e amizade conseguidas. Grande parte da equipa técnica sentia-se bem, ao ponto de começar a haver convívios entre eles, fora do Clube” – clarificou o Coordenador Smith.

 

“Percebo Coordenador Smith, como o que algumas vezes acontece, na segunda parte do jogo, quando marcamos muitos golos, na primeira parte, ou depois de ganharmos um jogo com uma excelente exibição ou uma vantagem confortável ou no jogo a seguir a ganharmos um campeonato ou ainda quando escalámos até ao cume de uma montanha. Nestas situação, podemos cair na ratoeira de pensar que o cume – o resultado daquela primeira parte, do jogo anterior, … -  se prolonga e, por isso, podemos ter a tendência de pensar que tudo está bem, o melhor possível e nada está mal, nem convém sequer abordar, mesmo que esteja” – começou por dizer o Detetive Colombo.

 

“Detetive Colombo, o problema é que a seguir ao cume se segue uma descida e um novo vale, maus resultados, e a ideia é não só trepar novamente até ao cume, os bons resultados, mas também permanecer e prolongar o tempo nesse cume, os bons resultados” – aprofundava o Coordenador Smith e continuou – “repare na ironia da situação Detetive Colombo. Os 88 Treinadores existem para formar os melhores jogadores e homens do mundo, a sua missão é libertar, potenciar e elevar todas as suas qualidades e o propósito da Academia é alimentar a equipa principal - e com isso não só catalisar a formação, com mais jovens a quererem vir para a Academia - ter uma equipa principal com jogadores que sentem a camisola, sentir que os adeptos se identificam e apoiam o Clube, “encher os cofres” com as boas transferências e a direção deixar um legado. Para isso acontecer, necessitamos do contributo de todos, mas, para manter a boa relação conseguida e para evitar os problemas provocados pelas diferenças, as pessoas resistem a contribuir.”

 

O Detetive Colombo esboçou um pequeno sorriso, parecia que estava contente por o Coordenador Smith ter chegado à primeira metade do problema da resistência à tarefa, nomeadamente resistir a contribuir, “um dos responsáveis” por comprometer a mudança, o desenvolvimento e o progresso das equipas e das organizações. Lembrou-se de que o Coordenador Smith tinha começado por falar em dois problemas e disse – gostava de lhe colocar duas perguntas, começo pela primeira: como resume o primeiro problema?”.

 

O Coordenador Smith fez uma pausa, parecia estar a organizar as suas ideias e disse – “o primeiro problema está identificado, resistir à tarefa, não contribuir para ela. As suas raízes, também, a incapacidade de lidar com as diferenças e a tentativa de evitar, a todo o custo, mesmo comprometendo os resultados desejados, o regresso das discussões, das desconsiderações e do desconforto provocado por essa incapacidade de lidar com as diferenças. As consequências já eram conhecidas, mas indesejadas, a Academia não está a funcionar bem e os resultados estavam abaixo de desejado.”

“Como não poderiam deixar de estar, se grande parte dos recursos, dos conhecimentos e das capacidades dos 88 membros da Equipa Técnica não se convertiam em contribuições efetivas para a tarefa!” – pensava o Detetive Colombo.

O Coordenador Smith lembrava-se que já tinha passado por este problema, sem ter reparado, muitas vezes, na sua vida. Nos grupos de trabalho na escola, que evitavam a tarefa, o trabalho, jogando bilhar, enquanto esperavam que alguém realizasse o trabalho. Naquelas coisas que a família evitava abordar, porque as discussões “jorravam” que nem água de um cântaro de barro partido, e as coisas não aconteciam. Nas muitas situações em que tinha participado em reuniões, tinha contribuições para fazer, mas não as fazia, para não “levantar ondas” – gerar discussões - e como não contribuir o tinha deixado insatisfeito a ele e mais pobre essas reuniões. Nas eliminatórias que pareciam ganhas, na primeira mão, dada a volumosa vantagem, mas que acabavam por ser perdidas, na segunda mão, quando olhou para o relógio, reparou que tinha de ir para o treino, lembrou-se que o Detetive tinha falado em duas perguntas e disse – “Detetive Colombo, qual é a segunda pergunta?”.

 

Astuto, até porque pelo vidro o gabinete já se viam os 12 campos com o movimento dos jovens e das bolas, o Detetive Colombo sentia o Coordenador Smith dividido, entre ir para o treino ou continuar a interessante e produtiva conversa, e disse – “percebo que tem uma tarefa em mãos, o treino, aborde-o e regressarei com a segunda pergunta, amanhã”.

O Coordenador Smith sorriu, pensava que estava a viver mais um momento em que podia contribuir para a tarefa em mãos – agora, o treino – ou resistir a essa tarefa, não contribuindo e disse – “compreendo, vou contribuir para o treino e amanhã retomamos a conversa, até porque estou muito curioso por saber o que me vai perguntar e eu descobrir”.

A caminho do treino pensou – “quantos resultados tinham ficado aquém, por causa desta parte da resistência à tarefa, não contribuir. Qual seria a 2ª parte?”

 

João Oliveira
Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

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