As lutas amadoras (artigo de Vítor Rosa, 29)

Espaço Universidade 23-04-2019 10:33
Por Vítor Rosa

O que se entende por luta? É uma palavra que abrange vários significados. Fora das significações figuradas (luta de classes, luta contra o cancro, por exemplo), é possível encontrar quatro atividades diferentes: luta amadora (desportiva), luta profissional (muitas vezes associada ao espetáculo), luta tradicional (a galhofa, em Portugal; a bretã, em França, por exemplo) e a luta enquanto desporto de combate.

Para aquilo que nos interessa, iremos falar somente das lutas amadoras, enquanto competição desportiva que procura, entre dois adversários, colocar um dos oponentes no chão (tapete).

Ao contrário do judo e do aikido, não existe muita documentação de qualidade e científica sobre as lutas amadoras. Se no final do século XIX era fecunda, sobretudo as obras em francês sobre a luta, não se passa o mesmo no século XX e na atualidade. Estamos perante um notável processo-verbal de carência. Muito do que existe está impregnado de ideologia. Encontramo-nos na presença de dois fatos brutos: de um lado, uma floresta petrificada de instituições e, do outro lado, a selva incoerente, infinitamente flutuante, de resultados e de projetos. No entanto, das arenas dos gladiadores, passando pelos torneios de lutadores do século XV, até à luta desportiva de competição na atualidade, ela fez um longo caminho.

Para a praticar, não é necessário um equipamento particular. Já Montaigne e Rabelais, na sua época, a invocavam nos seus escritos que bastava “uma boa formação física e moral dos jovens rapazes” (Favori, 2000, p. 7).

Em 1896, as lutas amadoras tornaram-se um parceiro histórico na renovação dos Jogos Olímpicos Modernos, segundo os votos de Coubertin. O estilo greco-romano, prática ocidental, encarnou a forma de lutas dos antigos gregos e romanos. Nessa altura, era apenas praticada pelo género masculino, permitindo unicamente gestos técnicos de ataque e defesa, utilizando o tronco, a cabeça e os membros superiores.

Através de artigos, conferências e recomendações, Coubertin (1922) sublinha que a luta não deixou de se transformar desde os seus primórdios, mas ela é convencional. Isso não diminuí o seu mérito desportivo, pois começa de pé e prossegue no solo. Derrubar o adversário e dominá-lo constituem as duas eternas fases. É um exercício que coloca em jogo todas as forças da máquina humana, combinando ação e resistência a um limite raro.

Sob a influência americana, foi incluído no programa o estilo Livre-Olímpico, em 1904, permitindo gestos técnicos de ataque e defesa utilizando todo o corpo. Em 1912, a luta, nos pesos médios, faz a sua aparição nos JO de Estocolmo, num combate homérico entre o finlandês Alfred Asikainen e o russo Max Klein. Depois de 11 horas de luta, Asikainen cai para o tapete esgotado. Klein não fica em melhor estado, pois recusa disputar a final contra o sueco Claes Edvin Johansson. Portugal estará presente nestes jogos, com o atleta Joaquim Vidal, obtendo duas derrotas e uma vitória. Os estatutos da luta são garantidos pela Federação Internacional de Lutas Associadas (FILA), fundada em 1905, tornando-se, em 2014, a United World Wrestling.

Considerada como a “prima” do judo, a luta é sempre apresentada como um conjunto, mais ou menos coerente, de agarres, isto é, de movimentos executados pelos combatentes depois destes os terem assimilado segundo os conselhos do treinador. Os praticantes procuram ultrapassar a resistência do adversário, utilizando diversos meios técnico-táticos permitidos, assim como todas as faculdades físicas e psíquicas. A repartição da luta em categorias de pesos oferece a todos os concorrentes, homens ou mulheres, qualquer que seja a sua corpulência e o seu peso, a oportunidade de se encontrarem em condições de igualdade.

Alexandre Medved, um ilustre lutador bielorusso, definia a luta como a síntese de vários desportos: “atualmente, para se ser um bom lutador, é preciso ter a força de um halterofilista, a agilidade de um acrobata, a resistência de um corredor e o pensamento tático de um jogador de xadrez” (Favori, 2000, p. 19).

Com algum balbucio, em 2004, por ocasião dos JO de Atenas, viria a ser integrada a luta feminina. Tal como o estilo Livre, permite uma multiplicidade de ataques e de defesas utilizando todo o corpo.

A evolução da técnica da luta, no sentido mais amplo da eficacidade e de rendimento no combate, engloba três aspetos: melhorar o equilíbrio do lutador, melhorar os agarres/controlo; melhorar a forma de se utilizar o corpo para melhor projetar. Projetar o adversário por cima das suas costas, dos seus ombros ou da sua barriga, impõe um “respeito das leis mecânicas, simples, mas imutáveis.

Atualmente, as lutas, “que é cada um de nós por instinto”, são incluídas em alguns programas escolares sob a forma de jogo de oposição e como prática de desenvolvimento harmonioso.

Como já referimos anteriormente, Portugal participou, pela primeira, vez nos JO com as lutas amadoras em 1922, em Estocolmo. Os resultados olímpicos têm sido, desde então, desoladores.

 

Referência:

 

Coubertin, Pierre de (1922). Pédagogie sportive. Paris : Crès et Cie.

Favori, Didier (2000). Cours de lutte : lutte libre, luttre gréco-romaine, lutte féminine. Paris : Edtions de Vecchi.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

 

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