Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 1 (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 21-06-2018 18:44
Por João Oliveira

Toca o telefone, “brigada dos homicídios empresariais” – responde o Detetive Peter …, “houve um homicídio no meu clube” – interrompe o Presidente do Futebol Clube Galáticos.


O Futebol Clube Galáticos é um clube centenário, eclético, com uma vasta história de títulos, mas há uns anos que os troféus ficam longe de serem alcançados. O Peter Colombo é um Detetive especialista em crimes organizacionais, é de estatura média, magro, mas simultaneamente muito concentrado nas suas tarefas e de uma persistência notáveis. O sr. Mark Angie, Presidente do F.C. Galáticos, é uma pessoa alta, bem vestida, fala muito bem e tem uma ambição do tamanho do mundo.


“Vou já para aí”, responde o Detetive. Ao aproximar-se da zona da cidade do clube, Peter Colombo vê o magnânimo estádio, a imponente estrutura, o local onde todas as semanas milhares de adeptos assintem aos jogos.


“Peter Colombo brigada crimes empresariais”, apresenta-se o Detetive ao segurança do estádio, “por aqui sr. Colombo, o presidente está â sua espera”.


“Detetive Colombo, houve um homicídio no Clube”, diz o sr. Mark Angie. “Onde está a vítima?”, pergunta Peter Colombo. “A vítima é o Clube”, responde o presidente. “Como assim?” – pensa o Detetive.


“Sr. Colombo, o nosso clube estava habituado a ganhar, contudo nos últimos anos os títulos e trofeus têm ficado longe. Fazemos um investimento de milhões, contudo não damos a alegria aos nossos adeptos, não oferecemos retorno aos patrocinadores, não enchemos de orgulho a nossa cidade, reagimos fazendo o mesmo e os resultados tardam em aparecer. Imagine uma fogueira e agora veja uma quantidade enorme de dinheiro a ser lançado para a fogueira. É essa a sensação com que fico, no final das últimas épocas desportivas”, esclarece o Presidente.


“Se percebi o que me está a dizer, o Clube tem estado a tentar fazer o mesmo, época após época, esperando resultados diferentes?” perguntou o Detetive.


“É isso mesmo, alguém “matou” a mudança, nós deixamos de inovar, adaptarmo-nos e de criar novas soluções e necessito que descubra quem “matou” a mudança, no nosso clube”, respondeu o sr. Mark Angie.


“Muito bem, mas para isso, vou precisar de total colaboração da parte do Clube”, respondeu Peter Colombo. “Com certeza, terá toda a nossa colaboração. É do nosso interesse encontrar o culpado e já dei instruções para ter acesso a toda a informação, pessoal ou instalações. Peço é que descubra o “criminoso” o mais rápido possível, pois não falta muito tempo para iniciar a próxima época e não quero voltar a “falhar””, respondeu o Presidente.


Dado o impacto do clube nas pessoas, colaboradores, jogadores, treinadores, sócios, adeptos, patrocinadores, cidade e região e a pressão do tempo, o Detetive Peter Colombo, começou a investigar de imediato.  A primeira coisa que fez, foi aceder à internet, entrar no site do clube e vê que o site fala das modalidades, equipas, clube, história, palmarés, notícias, mas não encontra o que estava à procura. Desloca-se à área dos recursos humanos e ao entrar é de imediato abordado. “sr. Peter Colombo, o meu nome é Susan Will e sou a diretora de recursos humanos. Todos no Clube fomos avisados da sua presença e alertados para prestarmos toda a colaboração. Em que o posso ajudar?”


Susan era uma senhora com excelente apresentação, extremamente dinâmica e dirigia um gabinete onde trabalhavam mais 20 pessoas.


“Sra. Susan Will (…)”, diz o Peter; “por favor trate-me por Susan”, interrompe a sra. Susan Will. “Susan gostava de ter acesso à visão do Clube”, pede o Detetive. “Muito bem, até que enfim alguém me pede esse documento”, responde a sra. Susan.


Colombo ficou intrigado, por que razão é que a sra. Susan Will lhe respondeu “até que enfim” e pergunta-lhe: “por que razão é que diz isso?”. “Este documento foi elaborado há muito tempo, se me perguntar quem o fez, não sei precisamente quem foi o autor, quase ninguém se interessa por ele e até nem está no site do Clube”, referiu a sra. Susan Will. “Pois não, foi por isso mesmo que vim até aqui, pois gostava de o analisar”, disse Peter Colombo.


“Aí estava, uma folha de papel, que pelo aspeto já tinha uns anitos, arquivada nos recursos humanos, de quem não se sabia a autoria e nem mobilizava e orientava o comportamento das pessoas”, pensou o Detetive. “Obrigado sra. Susan, por disponibilizar a visão do clube”, disse o Detetive e seguiu de passo apressado, determinado a averiguar uma coisa.

O Detetive Colombo passou o dia a falar com pessoas no clube, como funcionários, desde o responsável por cortar a relva ao gestor da SAD, passando por jogadores, treinadores, até aos adeptos. O seu propósito era simples: saber se as pessoas sabiam qual era a visão do clube, se as pessoas a partilhavam e se as pessoas a achavam mobilizadora. No final deste processo, já o dia ia longo, o Detetive ligou ao Presidente.


“Sr. Presidente, encontrei um suspeito, amanhã dir-lhe-ei quem é”, refere o Detetive. “Quem é o suspeito de “matar” a mudança?”, pergunta o presidente. “Amanhã de manhã, estarei no clube e apresentarei o meu relatório, podemos encontrarmo-nos às 09h00?”, pergunta o Detetive. “Claro, estarei à sua espera”, responde o presidente.

O Detetive regressa à sua esquadra de investigação de crimes empresariais e começa a compilar um conjunto de ideias chave a apresentar ao Presidente.


O Detetive Colombo sabia que para as organizações serem eficazes, era necessário que todos os colaboradores, desde o responsável pela relva, até ao presidente, estarem todos no mesmo “barco”. Isto é, que todos soubessem qual era o seu propósito; que todos conhecessem a imagem final do resultado desejado, como iria ser para as pessoas, cidade, região, quando o clube chegasse a esse destino; e como era necessário trabalharmos e vivermos para tornar possível chegar a esse destino.


No dia seguinte, pelas 09h00 da manhã, o Detetive Colombo apresenta-se no Clube e o Presidente já o esperava. “Sr. Colombo, estou ansioso por saber o que descobriu, de quem é que suspeita?”, pergunta o presidente.


“Sr. Presidente, depois de falar com várias pessoas representativas de colaboradores, jogadores treinadores, dirigentes e sócios, o meu primeiro suspeito de ter “matado” a mudança é a visão”, respondeu a o Detetive. O presidente nada responde, fica com um ar de intrigado e ao mesmo tempo frustrado. “Estava à espera que me dissesse o nome de alguém, mas a visão, não estou a perceber”, responde o Presidente.


“Sr. Presidente a visão de um Clube é o documento base para organizar a energia das pessoas que aí trabalham. A visão permite dar direção à energia das pessoas, ajuda-as a encontrar motivações para trabalharem em prol dos resultados do clube e permite-lhes saberem como é esperado as pessoas comportarem-se no clube, de forma a facilitarem a concretização dos seus objetivos. Tudo isto é possível acontecer, mas para isso é necessário que o Clube tenha uma visão que responda a três questões essenciais e que essas respostas reflitam a ideia de todos – desde quem trata da relva até ao presidente – ou seja, portanto, sejam partilhadas por todos e consequentemente mobilizem todos a darem o seu melhor, todos os dias, de uma forma continuada”, referiu o Detetive de crimes empresariais”.


“Está a dizer-me que suspeita que a visão existente não é partilhada, não é mobilizadora, não organiza os esforços das pessoas que trabalham, das pessoas que jogam, das pessoas que treinam, das pessoas que apoiam as equipas, (…), e que por isso mesmo “matou” a mudança e consequentemente continuamos a fazer o mesmo, esperando resultados diferentes?”, perguntou o presidente.


“Sim, sr. Presidente”, disse Peter Colombo.


“Sr. Colombo, reparei que disse que haviam três questões essenciais para uma visão. Quais são essas questões, no seu entender?”, perguntou o presidente.


“Uma visão deverá incluir as respostas às três seguintes questões:

1.       Para que existimos? O Clube existe para …; qual é o seu destino do Clube?

2.       Qual é a imagem final desejada? Como será a imagem do Clube quando chegar a esse destino?

3.       Como é esperado as pessoas se comportarem, para chegarem a esse destino? Que valores irão guiar o comportamento das pessoas durante a “viagem”?


Contudo, para que isto funcione, é necessário que estas questões sejam respondidas por todos – colaboradores, jogadores, treinadores, dirigentes, sócios - que todos as partilhem e que a todos elas mobilizem. Quando o Clube construir uma visão partilhada e mobilizadora, então estará mais próximo de mudar, de se tornar eficaz e consequentemente produzir os resultados que deseja, deixar as pessoas satisfeitas, manter os bons treinadores, jogadores, colaboradores e melhorar a sua imagem, quer internamente, quer externamente”, respondeu o Detetive Peter Colombo.


“É possível concretizar uma visão partilhada e mobilizadora?”, perguntou o Presidente.

“Sim, é possível. Conheço vários Clubes em que isso aconteceu”, respondeu o Detetive especialista em crimes empresariais.

“Sr. Colombo, reparei que também disse que a visão, ou melhor, que a falta de uma visão partilhada e mobilizadora era o seu primeiro suspeito. Há mais algum suspeito?”, perguntou o Presidente.

“Sim, há mais suspeitos”, disse o Detetive.

“Então, não perca tempo, continue o seu trabalho. É importante identificar todos os suspeitos, pois queremos voltar a oferecer às pessoas que colaboram, jogam, treinam, dirigem e apoiam o Clube, a esperança de um futuro melhor, a satisfação de conseguirem fazer as coisas bem-feitas e a alegria, prazer e felicidade de poderem ligar-se a outras pessoas, a ideias e experiências memoráveis”, disse o Presidente.

No seu passo curto, mas apressado, o Detetive Peter Colombo, foi à procura de outro suspeito e enquanto isso o Presidente começou a planear a próxima conquista, agindo. Pegou numa caneta e num papel e escreveu algumas coisas que necessitava de fazer para alterar a situação:


·         Marcar uma reunião com a Direção;

·         Falar como a Diretora dos Recursos Humanos para saber como o Clube poderia construir uma visão partilhada e mobilizadora;


“Sra. Judy, por favor, chegue aqui”, disse o Presidente pelo intercomunicador, para a sua secretária.

Judy Burlington era uma pessoa alta, loura, Mãe de três filhos, duas raparigas e um rapaz, e Avó de dois netos, o Peter o David.


“Sra. Judy por favor marque uma reunião com a Direção do Clube para hoje ás 17h00 e peça à sra. Susan Will para vir aqui falar comigo”, disse o Presidente. “Muito bem, sr. Angie”, disse a sra Judy.


Enquanto está à espera da sra. Susan, o Presidente começa a pensar que a sua empresa também poderá estar a sofrer do mesmo problema, que a Escola onde trabalha a sua esposa – Linda Angie - também poderá estar a viver o mesmo problema e que poderá ser uma boa ideia pedir ao Detetive Peter Colombo para investigar e sugerir à Linda que contate o Detetive. Por outro lado, começou a sentir alguma ansiedade, por não saber quem poderá ser o outro suspeito de ter “matado” a mudança.


Quem será o outro suspeito de ter “matado” a mudança?


João Oliveira é Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, formador em Desenvolver Equipas Eficazes e Motivação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia - ISMAI.


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