Vitória não pode tapar mediocridade: a crónica do Estoril-Benfica

Vitória não pode tapar mediocridade: a crónica do Estoril-Benfica

FUTEBOL07.10.202323:43

Uma das piores exibições do Benfica na era-Schmidt. Sem rei nem roque a defender e a atacar. Resultado? Estoril,0-António Silva, 1

O futebol não é como a patinagem, onde é atribuída uma nota artística a cada performance. O futebol, se o quisermos reduzir à sua essência, premeia quem marca mais golos que o adversário, independentemente da qualidade do jogo praticado. E num campeonato, prova de regularidade por excelência, os desafios valem todos o mesmo, um triunfo dá três pontos, um empate, um ponto, independentemente do nome do adversário. Nessa medida, o Benfica saiu ontem da Amoreira com o maior dos prémios, e isso poderia ser suficiente para fazer a felicidade de jogadores, treinador e presidente. Porém, se no clube de Cosme Damião não souberem tirar as devidas ilações da exibição paupérrima das águias em casa do lanterna-vermelha, mal andarão as coisas. É verdade que estes três pontos já não fogem ao Benfica, mas a continuarem assim, muitos outros serão desperdiçados. 

O enigma Roger Schmidt

Quando chegou a Portugal, o treinador do Benfica prometeu um futebol de olhos postos na baliza. E cumpriu, criando uma equipa galvanizadora, que ganhou a Liga, foi longe, com brilhantismo, na Champions, e apaixonou o Terceiro Anel. É por isso que falo de enigma, porque na presente temporada o Benfica joga demasiadas vezes como uma equipa sul-americana mediana dos anos cinquenta do século passado, com passes inúteis, lateralizações estéreis e buracos defensivos a meio-campo que tiram o sono aos defesas. O que mudou na filosofia do treinador, ninguém sabe. Mas qualquer semelhança entre esta equipa que esteve no Estoril, e aquela que no mesmo palco venceu há um ano por 1-5, é pura coincidência...

Seabra mais vivo que Schmidt

O Estoril, último da classificação, fez o que lhe competia, resguardando-se num 5x4x1 elástico, que através de Koindredi e sobretudo Guitane soube aproveitar os erros de posicionamento de Florentino e Chiquinho para manter a defesa encarnada de coração nas mãos. Do ponto de vista da estratégia, Vasco Seabra esteve exemplar, enquanto que Schmidt demorou uma eternidade a identificar o problema. E digo o problema, porque houve um, entre vários, que se destacou: a falta de intensidade. É certo que Marcelo Carné tirou um golo cantado a Neres (33) e Tengstedt caiu duas vezes no pecado da lateralização, perdendo ângulo para rematar com sucesso. Mas foi tudo poucochinho, poucochinho. 

Só aos 70 minutos, já depois de Heriberto ter acertado com estrondo no poste esquerdo da baliza de Trubin (54), Schmidt mexeu na equipa, entrando Neves e Musa, com benefício imediato, o que faz pensar sobre as razões porque permaneceram estes jogadores uma hora e dez no banco. E foi preciso esperar pelo minuto 87 para que o desinspirado João Mário desse o lugar a Gonçalo Guedes! Do lado dos canarinhos, que tinham apanhado um susto aos 58 minutos quando Carné não segurou um remate forte de Otamendi e João Mário recargou contra o corpo do goleiro estorilista, e viram mais tarde (88), Otamendi perder um golo cantado após assistência de Musa, João Marques e Alexandre Marqués mantiveram a equipa, que entretanto baixara as linhas, ameaçadora no contra-ataque. 

Nos minutos finais, o Benfica carregou - Guedes entrou com o espírito agitador que faltou aos colegas - e sucederam-se vários cruzamentos, intensificando-se a pressão sobre a baliza de Marcelo Carné. E foi neste contexto que os encarnados chegariam ao golo, de uma das formas menos usuais da equipa: após um pontapé de canto. Neres bateu da direita, Musa ganhou para António Silva faturar de cabeça, num salto de peixe. Acabou aí a angústia encarnada? Não. Os minutos finais foram uma ode à intranquilidade, e o Estoril só não empatou, aos 90+8, porque António Silva fez um corte milagroso, após remate de Vital.