Kobe Bryant e Cristiano Ronaldo - imagem gerada por IA
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«Dear Football»... e se Cristiano Ronaldo se despedisse como Kobe Bryant?

Um exercício de estratégia sobre a reta final de uma carreira na Seleção

O caso

Numa semana, Cristiano Ronaldo passou de titular em Alvalade a jogador fora do estágio. Entretanto, Portugal tornou-se a primeira seleção apurada para os quartos de final da Liga das Nações. Sobre o tema CR7, o presidente da FPF, Pedro Proença, falou de um mal-entendido a resolver dentro de casa, e Jorge Jesus deixou a porta aberta para novembro com uma frase que resume o essencial: «Ronaldo sabe que vai acabar, mas gostava que acabasse como ele quer.»

Quem tem razão é matéria para os próximos dias e não é o objeto deste texto. Interessa-me a forma. O jogador com mais internacionalizações e golos da história da Seleção pode estar a viver o fim do seu percurso internacional, e a experiência mostra que a saída de um atleta desta dimensão se joga muito antes do episódio que a precipita, na forma como foi ou não preparada. Foi daí que parti para o exercício seguinte.

O precedente Kobe Bryant

Em 2015, Kobe Bryant anunciou o fim da carreira num poema publicado na The Players' Tribune: "Dear Basketball". Na mesma noite, os adeptos no Staples Center, casa dos Lakers, encontraram o texto impresso nos seus lugares.

A época que se seguiu transformou-se numa digressão de despedida. Pavilhões de toda a NBA, incluindo os de rivais históricos como Boston, homenagearam-no, a Nike construiu à volta dessa reta final uma linha de calçado e uma campanha, e o último jogo terminou com 60 pontos e com o "Mamba out" que ficou na memória. O poema deu depois origem a uma curta-metragem de animação que venceu o Óscar em 2018.

Convém lembrar o contexto desportivo. Os Lakers fizeram nessa época a pior campanha da sua história, com 17 vitórias e 65 derrotas. Quase ninguém se lembra disso. A narrativa da despedida ocupou todo o espaço.

Do ponto de vista da gestão, o caso assenta em três decisões. Foi o atleta a escrever e a anunciar, cabendo ao clube e à liga acolher. O anúncio foi feito cedo, o que deu a cada jogo o estatuto de evento. E a homenagem nunca dependeu do rendimento em campo.

O exercício aplicado a Cristiano Ronaldo

Imaginemos que, logo a seguir ao Mundial e à chegada de Jorge Jesus, a FPF apresentava, em conjunto com Ronaldo, o selecionador e o grupo, um plano para a Liga das Nações 2026/27: seria a última competição de Cristiano pela Seleção, e cada jogo funcionaria como um capítulo da sua carreira.

O anúncio caberia ao jogador, com as suas palavras e nos seus canais. A FPF assumiria o papel de anfitriã, organizando e dando palco. Numa despedida, a voz do atleta é o ativo com mais valor emocional, e a instituição ganha em amplificá-la.

Há também uma diferença de escala. A digressão de Kobe passou pelos pavilhões de uma só liga. A de Ronaldo atravessaria países, com três federações adversárias, os seus estádios e os seus públicos a juntarem-se ao momento, e com a amplificação de uma competição da UEFA transmitida por toda a Europa e além dela. Ao tributo de Portugal ao capitão juntar-se-ia uma celebração à escala mundial. Para a UEFA e para a Liga das Nações, seria também um ativo raro de audiência e de conteúdo.

O elemento decisivo seria um entendimento, fechado antes da primeira convocatória, sobre o papel de Ronaldo em campo. As opções técnicas continuariam a ser do selecionador. A homenagem aconteceria fosse ele titular, suplente ou ausente, e o jogador saberia isso desde o primeiro dia.

O plano teria ainda de servir o projeto desportivo: dar visibilidade em cada jogo à geração que vai disputar o Mundial-2030, em casa, e de prever um final que não dependesse de golos. Os 60 pontos de Kobe não se planeiam.

O calendário

A fase de grupos oferece um calendário com ligações evidentes à carreira de CR7
  • Portugal–País de Gales, Alvalade. O regresso ao estádio onde tudo começou, com a carta de Ronaldo em cada lugar e jovens da formação do Sporting em campo.

  • Noruega–Portugal, Oslo. Homenagem da federação norueguesa e um cumprimento entre Ronaldo e Haaland. Com o entendimento em vigor, ficar no banco faria parte do guião.

  • Dinamarca–Portugal, Copenhaga. Um jogo dedicado aos adeptos internacionais e aos companheiros das várias fases da carreira.

  • Portugal–Noruega, Dragão. O palco do jogo de abertura do Euro 2004, onde se estreou numa fase final e marcou o primeiro golo pela Seleção.

  • Portugal–Dinamarca, Braga. O último jogo em casa da fase de grupos, com antigos colegas na bancada e a passagem simbólica da braçadeira.

  • País de Gales–Portugal, Cardiff. a cidade onde marcou dois golos na final da Liga dos Campeões de 2017.

  • Portugal já apurado para os quartos de final e, se lá chegar, fase final, com a possibilidade de se despedir como campeão em título da prova que venceu em 2025.

Ativação e conteúdos

Na execução, a FPF teria margem para bilhetes numerados e colecionáveis, um pormenor diferente na braçadeira ou no equipamento em cada jogo (sujeito a aprovação da UEFA), um protocolo de homenagem negociado com cada federação adversária, conteúdos regulares no Canal 11 e uma narrativa partilhada com a UEFA e seus parceiros de transmissão. Ronaldo teria nos seus canais espaço para uma série documental sobre os bastidores. Aos parceiros, com a Nike à cabeça, abria-se a porta a uma coleção de chuteiras com uma versão por jogo, como se fez com Kobe. E os adeptos teriam um ponto de encontro digital, com um arquivo coletivo de golos e memórias.

A variável mais sensível

Em qualquer despedida de um atleta que continua a competir, a variável mais sensível é a definição do papel em campo. Nenhum plano de comunicação resolve divergências sobre quem deve jogar, nem é essa a sua função.

Um plano bem desenhado pode, no entanto, mudar a leitura das decisões técnicas. Sem um papel definido, cada convocatória e cada onze inicial tendem a ser lidos como um juízo sobre o estatuto do jogador. Com uma data de saída conhecida e um entendimento prévio, a mesma decisão, deixá-lo no banco, passa a fazer parte da narrativa da despedida.

Um modelo transferível

Este é um exercício hipotético, feito à distância e sem conhecer o que se passa dentro do grupo. Quem gere estas situações por dentro tem sempre mais informação do que quem as observa. O que fica é um modelo que se pode aplicar a outros casos: a voz do atleta no centro, uma data definida, um entendimento claro sobre o papel e um calendário que transforma cada jogo num acontecimento. Serve seleções, clubes ou marcas que queiram acompanhar a reta final de um ícone.

No caso de Ronaldo, a última página está por escrever e merece muito mais que um jogo de homenagem, por muito que seja o habitual. Aí reside a diferença. Cristiano Ronaldo não é só mais um. É nosso e um dos melhores de sempre.

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