«Sei que já não sou um menino de 20 anos e que não vou ganhar muito dinheiro»

A BOLA FORA 01-12-2021 11:25
Por Tânia Ferreira Vítor

Esta é a segunda vez de Hélder Barbosa em A Bola Fora. O ponto de partida é o Dubai, de onde rumou depois do AEK de Atenas, e o ponto de chegada é a Grécia, país que conquistou o coração do extremo. O internacional português de 34 anos joga agora no Panetolikos, atual 12.º classificado da liga grega. Ficará sempre ligado ao FC Porto, onde se estreou na equipa principal na inauguração do Estádio do Dragão, com José Mourinho.


- À hora que te ligo, o que estás a fazer?
 

- Estava aqui em casa com dois colegas portugueses, o Fabien e o Antunes. Costumamos juntar-nos em noites de Liga dos Campeões. Estávamos a acompanhar vários jogos, porque um é sportinguista, eu sou mais coração azul e o outro português é emigrante em França, ou seja, também íamos mudando de canal para ver o PSG.
 
- És daqueles jogadores que só vê futebol ou ligas mais à Champions?
 

- Quando a minha família estava comigo, via mais os jogos grandes; por norma, não assistia aos jogos normais. Mas agora, como passo muito tempo sozinho em casa, sou um papa-jogos [risos]. Aliás, adoro quando há Champions para me distrair.

 

- A última vez que falámos foi em 2016, ainda estavas no AEK. Dali foste para o Al Wasl, do Dubai, e depois para a Turquia. Comecemos pela experiência nos Emirados…
 

- Adorei a vida que tinha no Dubai. O meu filho Guilherme e a minha mulher Marta também: parques enormes em todo lado, praia, a escola também era muito boa. A nível social correu bem e compensou muito em termos financeiros. O futebol é que não correspondeu ao que idealizava. Eles até têm alguma qualidade, mas não levam a profissão a sério como nós. Muitas vezes parece que, para os futebolistas locais, o futebol é um escape e a verdade é que a cobrança cai toda no jogador estrangeiro.

 

- Essa cobrança só é feita pelas chefias ou também é notada no balneário?
 

- Só pelas chefias. Lembro-me que começámos a época a ganhar e estava tudo perfeito. Mas, no treino a seguir à primeira derrota, os xeques chamaram os estrangeiros para uma reunião. Perguntaram-nos: ‘Sabem porque perdemos este jogo?’ A resposta: ‘Porque eles foram melhores.’ E o xeque disse: ‘Eles? Não. Porque os estrangeiros deles foram melhores do que vocês.’ Ou seja, a cobrança dos resultados recai toda nos jogadores que vêm de fora.

 

- Os teus colegas tinham outro trabalho além do futebol?
 

- Não. Os locais só jogavam futebol e a verdade é que tinham uma vida de luxo, fantástica. A nível de stand, o carro mais fraco que tinham era o Porsche Cayene. Eu estive em bons clubes, como no FC Porto ou no SC Braga, mas nem de perto se chegava àquele nível de qualidade de vida. Os treinos eram ao fim da tarde por causa do calor e eles passavam o dia em bons restaurantes e a gozar a vida.  

 

- Os árabes viajavam para a Europa nas férias ou nas paragens para as seleções?
 

- Sempre que tínhamos folgas, eram rapazes de viajar para todo lado, sobretudo para Londres e Paris. Quando vão para fora não andam vestidos como no Dubai, vão com roupas normais. Adoram passear.  

 

- Segue-se o Akhisar, da Turquia, camisola que vestiste de 2017 a 2019. Com presença em 65 jogos oficiais e várias conquistas, imagino que tenhas sido feliz.
 

- Quando fui para o Akhisar, apanhei realidade bem diferente. A cidade era pequena mas tinha adeptos fervorosos que nos pediam sempre para tirar fotografias ou dar um autógrafo. Acabei por conquistar coisas engraçadas: a Taça, a Supertaça e fomos às provas europeias pela primeira vez. Aquela equipa acabou por ficar na história do clube.

 

- Vivias lá ou noutra cidade?
 

- Vivia com a minha mulher, a Marta, e o meu filho em Izmir que fica perto da praia e a uma hora de carro de Akhisar. Eu, o Josué e o Miguel Lopes íamos juntos para os treinos e assim a viagem fazia-se melhor. Como estava com a família, era mais agradável viver em Izmir, até porque tinha escola internacional - o Rodrigo andava na turma da Mariana, a filha do Josué. Viver em Izmir era a maneira de manter a família comigo, sem escola internacional ficava difícil. Além disso, é uma cidade mais moderna e aberta; em Akhisar ninguém falava inglês e isso dificultava tudo.

 

- Por falar em Josué… Disse-me que eras a única pessoa que ele conhecia que cozinhava todos os dias com a mesma indumentária: de cuecas e robe. É verdade [risos]?
 

- [risos] É! Eu adoro cozinhar, porque gosto de comer saudável, gosto de saber o que estou a comer. E adoro andar em casa de cuecas. No inverno, só ponho um robe por cima, é assim que me sinto confortável. A minha mulher está sempre a gozar comigo por causa do Natal do ano passado. Como tive jogo a 26 de dezembro, convidei uns colegas de equipa para passar o Natal em minha casa. Na Turquia não há bacalhau, então fiz peixe com batata cozida. Publiquei uma fotografia dessa noite no Instagram e estava de robe. A Marta deu-me logo na cabeça por eu estar assim vestido no dia de Natal.

 

- O Josué também me contou que gastas meio litro de creme de corpo por dia. Sinal de vaidade ou tens problemas dermatológicos?
 

- [risos] Gosto de tratar de mim e de ter o meu creme para o corpo, não é nenhum especial, uso muito a minha Niveazinha. Também uso creme para o rosto e ponho sempre perfume. Não sei se é vaidade, mas gosto de me sentir bem.

 

- Em termos de trabalho, lembras-te de algum aspeto diferente de Portugal?
 

- Assim de repente, lembro-me que, na Turquia, obrigavam-nos a descansar algumas horas depois do treino e ninguém gostava. Lá, os centros de treino têm quartos para isso. Eu ficava com o Josué e o Miguel Lopes também costumava estar connosco. Os quartos eram fracos e as camas minúsculas, aquilo era uma seca gigante. Apanhei um treinador que nos obrigava a ficar lá durante três horas depois do treino, ou seja, ficávamos com a tarde estragada. Depois ainda fazíamos uma hora de carro até Izmir e dava-nos um sono desgraçado na viagem. Não fazia sentido, tínhamos a família em casa à nossa espera. Mas guardo boas recordações da Turquia, mesmo de Hatay, cidade mais fraca.

 

- Antes da entrevista, falávamos sobre os salários em atraso na Turquia. É cultural, ou seja, sabe-se de antemão que vai acontecer?
 

- É um bocado assim. No Akhisar as coisas até eram organizadas. Diziam que era dos clubes mais certinhos, só três ou quatro da liga é que pagavam a horas e o Akhisar era um deles. Lá não tive problemas até descermos de divisão. No meu segundo ano, não pagaram os dois últimos meses, nem os prémios. No final dessa época, disseram-me que tinha de baixar o meu salário, porque não tinham capacidade de o pagar na segunda liga. Eu tinha uma cláusula no contrato que dizia que podia ficaria livre em caso de descida de divisão. Então, disse-lhes que só exigia o pagamento do tempo em que efetivamente lá estive e esquecia o outro ano que ainda tinha de contrato; esse eles não tinham de pagar. Ficou tudo apalavrado, mas não cumpriram. Meti o processo na FIFA, mas ainda estou à espera que me paguem. O problema é que agora eles estão na terceira divisão, espero conseguir reaver o que é meu. Em Hatay foi pior: tive dois, três e quatro meses de ordenados em atraso. Acabei por sair um bocado a mal, porque cansei-me das promessas: é para a semana, é daqui a um dia e falhavam sempre. Também tive de fazer queixa à FIFA. Acabei por voltar à Grécia, onde fui sempre bem tratado e acolhido.

 

- Perguntava-te exatamente isso: se o regresso à Grécia, onde já tinhas estado, foi muito desejado [Hélder jogou no AEK de 2014 a 2016]?
 

- Sim! Costumo dizer aos meus amigos que, por muito desorganizados que os gregos possam ser, a Grécia é o país com o qual mais me identifico. Adoro a maneira como os gregos levam a vida. Portugal será sempre o meu país, mas se tivesse de escolher outro para viver seria a Grécia. Tem bom tempo, boa comida, bom café, restaurantes ótimos, já para não falar das praias. Aqui posso ir de vez em quando a um bom restaurante ou ir a um café com algum colega para conviver. Na Turquia não dava para isso. Vim a convite do meu treinador com quem já tinha trabalhado no AEK. Estava sem salários na Turquia e acabei por vir. Tinha mais propostas para ficar na Turquia, mas estava saturado. Baixei o meu ordenado para vir para o Panetolikos e ainda bem que o fiz. Sou mais feliz aqui.

 

- Aos 34 anos, pensas regressar ao futebol português ou vês-te a terminar a carreira no estrangeiro?
 

- Eu aguentaria ficar mais anos fora se tivesse a família comigo. Custa-me muito não acompanhar diariamente o meu filho. Não posso levá-lo à escola nem ajudar nos trabalhos de casa. Fico triste quando chego a Portugal e ele começa a falar dos amigos e eu nem sei quem são. Honestamente, já tenho a minha vida estabilizada e penso que em breve estará na hora de regressar a casa para desfrutar dos meus. Ainda me sinto bem fisicamente para ingressar numa equipa em Portugal e penso que o meu futuro próximo passará por estar perto de casa.

 

- Assustas-te com o fator idade, porque a aposta dos clubes portugueses recai cada vez mais nos jovens?
 

- Os meus pais sempre me ensinaram a ser realista. Eu vou acompanhando o futebol e é tal e qual como estás a dizer. Eu não vou com a ideia de ter um grande contrato ou de jogar nos grandes clubes de Portugal. Como te disse, já tenho a vida mais ao menos organizada, por isso, sei que não vou regressar para ganhar dinheiro, mas para fazer aquilo que gosto que é jogar futebol e com o apoio da família. Mas sei que já não sou um menino de 20 anos e que não vou ganhar muito dinheiro, porque o futebol português está a apostar nos jovens e ainda bem que é assim.  

 

- Continuas a não querer ficar ligado ao futebol no pós-carreira? Tens alguma coisa pensada?
 

- É uma boa pergunta. É muito bonito jogar e desfrutar do futebol, isso é que eu amo. Mas sendo jogador já presenciei a muita coisa extra-futebol que não gostei. E ao entrar num mundo de diretor ou de treinador irei presenciar  muito mais coisas que não dignificam o futebol e não sei se estou para isso. Há uns tempos, queria treinar as camadas jovens, mas hoje em dia assiste-se a uma pressão tão grande por parte dos pais… Vê-se pais a gritar com os miúdos da bancada, a insultar os adversários e os árbitros e a dizer ao treinador o que tem de fazer. Agora paga-se tudo e os pais acham-se no direito de exigir tudo e mais alguma coisa. Não posso dizer a cem por cento que não vou enveredar por uma carreira ligada ao futebol, mas posso dizer que, neste momento, a minha ideia não é essa. Tenho alguns negócios com o meu cunhado, marido da minha irmã. Ele já trabalhava no ramo automóvel, eu entrei nisso com ele e também temos dois pontos de lavagem de carros. São negócios que sei que rentabilizam o meu dinheiro, mas quero ocupar o meu tempo com outras coisas que me preencham. Não sou pessoa de ficar sentada no sofá ou numa mesa à espera que as coisas caiam do céu. Quero estar entretido com alguma coisa que me realize.

 

- O carros são um amor antigo? Li numa entrevista que o teu primeiro carro foi um Porsche. Não te achavam convencido por teres um carro topo de gama sendo tão novo?
 

- Há uma história por detrás disso. Eu tirei a carta de condução mal fiz 18 anos. Na altura, estava na equipa A do FC Porto e conduzia o carro da minha mãe que era um FIAT Bravo ou o do meu pai que era um Mercedes básico, na altura até me chamavam taxista. Usava o carro que estivesse livre. Sempre tive uma boa relação com os meus pais e não tomava decisões sem os consultar. Na altura, queria comprar um bom carro, até porque sempre fui um apaixonado por desportivos. Então, fui com o meu pai a um stand ver um Porsche e um Honda. E lembro-me do meu pai  perguntar: ‘Tens dinheiro para o carro?’ E eu com 18 anos disse: ‘A pronto não, mas tenho dinheiro para dar uma entrada e vou pagando.’ E a resposta dele foi: ‘Enquanto não tiveres dinheiro para pagar o carro, não o vais comprar.’ E assim foi. Juntei o dinheiro e aos 19 comprei o Porsche ao meu primo que vendia carros. Era o Porsche mais básico e barato. Fiquei contente por ter comprado o carro que queria e por ter tido o aval do meu pai. Depois fui emprestado à Académica e lembro-me de, na altura, olharem para mim de lado por verem um miúdo naquele carrinho [risos].

 

 

- Cresceste numa família de portistas. A ligação ao FC Porto era vivida ainda com maior entusiasmo?
 

- Tive a sorte de crescer no Porto e de continuar a ter a minha família por perto sempre a acompanhar-me. E tive ainda mais sorte do meu pai ter sido sempre do clube do filho e não do FC Porto. Partilhei isto com pouca gente, mas das coisas que mais me magoam é não ter a família a ir ver os meus jogos. Eles estavam sempre presentes. A minha mãe é do lado do coração, qualquer desabafo era com ela. O meu pai era a ligação ao futebol. Quando saí do SC Braga, custou-me muito não ter o meu pai presente, nunca me habituei. Faz-me uma falta enorme, era a pessoa que dizia o que eu queria e o que eu não queria ouvir. Sei que vai acompanhando na televisão, mas não é a mesma coisa. Continuo a precisar do ombro amigo dele e de ouvir a crítica construtiva.

 

- E como é que o teu filho lida com a distância?
 

- O Guilherme faz-me perguntas que me matam: ‘Porque não estás aqui comigo, papá?’ Sei que ele entende que estou a trabalhar, mas não sei se entende realmente o porquê de eu estar fora do país. Sempre que tenho uns dias livres faço questão de ir a Portugal, mas na hora de voltar é muito duro. Evito chorar ao pé dele, mas entro muitas vezes no avião cheio de lágrimas.

 

- Se tivesses oportunidade de jogar um jogo, qual escolhias?
 

- O jogo memorável da minha carreira é o Gabão-Portugal que marca a minha primeira internacionalização. Tive a honra de estar em todas as camadas jovens de Portugal e chegar à Seleção A foi o ponto alto. Mas o jogo que mais gostaria de repetir é a final da Liga Europa que perdi contra o FC Porto. Custou muito perder esse troféu, mas ao menos foi para uma equipa portuguesa. 

 

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