«Lá em casa somos 28»

Atletismo 23-11-2021 10:26
Por Célia Lourenço

«É um menino», comentava Carlos Móia, o pai da Meia Maratona de Lisboa que, pelo 30.º aniversário, foi presenteada por Jacob Kiplimo com o recorde mundial da distância. Vinte e quatro horas após ter cortado a meta em 57,31 minutos, o ugandês de 21 anos esteve à conversa com a imprensa, num restaurante no Parque Eduardo VII, onde se apresentou também como um campeão, de sorriso pronto a iluminar-lhe o rosto e, afinal, um homem de família… numerosa!

«Lá em casa somos 28 irmãos [15 raparigas e 13 rapazes], porque o meu pai casou com cinco mulheres e vivemos todos juntos. Tenho irmãos mais novos, outros mais velhos», explicou sobre as origens do povo sebei fixado em Bukwo, no Monte Elgon, a 4300 metros de altitude.

«Também sou casado e tenho uma filha, que vai fazer um ano. É a minha menina», disse, sacando do telemóvel e exibindo a foto da pequena Helah. «Olhe para ela! Aqui está com a medalha de bronze que conquistei nos Jogos Olímpicos [10.000 m]», mostrou, embevecido, continuando a falar como se de um monólogo se tratasse. «Tenho muitas saudades dela. Estou dias fora e cada vez me custa mais estar longe. Uso o telefone para matar saudades. Ela é muito pequenita para perceber o que se passa», vincou o campeão mundial da meia maratona, que completou a prova da capital um segundo mais rápido que Kibiwott Kandie (57,32), que estabelecera o recorde em Valência-2020.

Por norma, o povo sebei vive da terra. Na família Kiplimo há exceções. «Embora a maioria de nós sejamos agricultores, outros dois correm. Um deles ganhou a maratona de Istambul», contou sobre Victor Kiplangat. «A minha primeira corrida foi atrás das vacas. Estou a brincar, mesmo. Comecei a correr porque o meu irmão corria», disse, entre risos, levando, ao invés, muito a sério o que escolhera para refeição. Uma massa cozida, peixe grelhado e nada de molhos. «Só bebo chá, com leite por vezes, nada de café», vincou o atleta, antes das 33 horas de viagem que o esperam hoje, até casa.

«Sempre me treinei lá no Uganda, vivo em altitude. Venho à Europa, compito, mas depois vou para casa. Sei que ontem [domingo] houve lá uma grande festa por causa do meu resultado. Todos estavam muito entusiasmados e celebraram. Sou um bocadinho uma estrela no meu país», admitiu, quase envergonhado e sem saber o que o espera. «Devido às restrições do Covid-19, tenho de esperar pelas decisões do governo, por isso não sei se terei receção à minha espera. Quando se batem recordes como este, muitas pessoas querem ser como nós. No Uganda, sei que inspiro muitos miúdos e isso é gratificante», reforçou, já «fresco» depois de um despertar dorido.

«Acordei um pouco cansado, o meu corpo doía todo, mas às 10 da manhã já estava recuperado. Estou muito feliz. Espero voltar no próximo ano. Tenho de falar com o meu agente, mas espero voltar», reforçou, deixando a promessa e levando o cheque de 100 mil euros «para investir» em casa e na família. 

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa ou na edição digital de A BOLA 
 

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