O português que fez a formação com Kepa, Laporte e Inaki Williams

Athletic Bilbao 16-10-2021 16:10
Por Pedro Cadima

Víctor Manuel Monteiro Oliveira…está muito longe de ter um nome carregado de erres, xis ou zês, esses sonoros e guerreiros nomes bascos, não obstante tenha sido um produto da formação do Athletic durante dez temporadas. Na realidade, o avançado, hoje com 27 anos, a jogar no Epila, de Saragoça, na 3ª Divisão de Espanha, após ter estado na subida do Sestao à 2ª Divisão B, tem raízes portuguesas, nasceu em Guimarães, numa família de Creixomil. Tinha 1 ano quando os pais emigraram e escolheram Vitória, não o clube do berço, mas a cidade do País Basco para um novo rumo, através de uma oferta de trabalho para o progenitor.
 

«Nasci em Portugal, na zona de Guimarães e vou lá todos os anos ver os meus avôs e tios. Tenho toda a família por lá. Eu vou uma vez por ano na altura do verão. Desde pequeno comecei a jogar, passo por uma equipa de colégio e depois vou para o Sodupe. O Athletic viu-nos e decidiu pegar em mim e mais dois companheiros. Fomos levados de uma assentada, nem houve provas. Foram dez épocas no clube, comecei aos 11 anos», recorda Víctor Monteiro, que foi companheiro de Kepa, Unai Simon, Laporte ou Inaki Williams, o amigo mais especial entre todos e que já defrontou na Taça de Espanha. Apesar de ter sido igualmente uma grande promessa do Athletic, Víctor Monteiro perdeu o comboio. Não nasceu no País Basco, mas sentiu o emblema como a natural extensão do que é crescer na região autónoma.
 

«Jogar pelo Athletic é a coisa mais bonita que nos pode ocorrer na vida. Estamos rodeados de amigos, de gente da zona ou da região. Amadureci como jogador e fiz-me como pessoa. A aprendizagem é enorme e constante. Olho para muitos dos meus colegas e fizeram-se jogadores de elite. É uma formação muito forte, que potencia muitos grandes atletas. Eu não tive a mesma sorte, sofri várias lesões, a mais grave na púbis, que me fez parar nove meses.»
 

«Fico muito feliz por quem lá chegou, sou amigo de todos, de Kepa, Unai Simon, Laporte, Yeray, Unai López, Lekue, Sabin, Iñaki Williams. tenho o número de todos, falamos regularmente e quando podemos estamos juntos. Com Inaki Williams combinávamos e aqui e acolá tomávamos um café. O Athletic faz-nos pertencer a uma verdadeira família, metem-te vários valores na cabeça e, no final, percebes que estamos todos na mesma viagem pelo mesmo destino. Desde pequenos sabemos qual é nosso propósito, que é crescer e jogar na equipa principal», confessa.


 

«O Athletic olha para ti se és basco, se estás estabelecido na região, se tens familiares bascos. Contrata com esse propósito, isso é que faz o clube grande que é, único no mundo. Cria um sentimento e um adn», complementa Víctor Monteiro, que jogava muito habitualmente na frente com o goleador dos leões bascos, Iñaki Williams, 67 golos em 302 jogos pelo Athletic, 202 deles consecutivos, não falhando um jogo desde abril de 2016. Acaba de bater o recorde de Larrañaga, da Real Sociedade. Os indícios que ficará ligado ao clube até pendurar as chuteiras são fortes, até porque assinou em 2019 um contrato até 2028, altura em que completará 34 anos.
 

«A marca dele é incrível, digna de toda a admiração. É um dos jogadores mais queridos em Bilbao, é fácil testemunhar isso. Acredito que vai jogar sempre no Athletic», especula Victor Monteiro, rebobinando a sua fita.
 

«Quando estava lá via-me com bastante projeção, jogava com eles todos e era feliz. Mas lesões atrás de lesões chega um ponto que isso te tira o chão. Cuidava-me, mas não as evitava. Era mesmo má sorte mas procurei sempre dar trabalhar e fortalecer os meus músculos», conta.

 

Bielsa e o sonho de jogar em Portugal

 

O português Victor Monteiro era apontado a um grande futuro em San Mamés, pistas essas mais evidentes no reinado de um técnico absolutamente ímpar em Bilbao. O atacante lembra o tempo agridoce com Bielsa.
 

«Tenho ótimas recordações de Bielsa, treinava de manhã com a equipa principal. Era muito duro, foram os anos mais bonitos do Athletic, a disputar finais. Treinava-se muito e de forma forte, fisicamente a equipa estava num nível altíssimo. Para mim era fantástico, era muito jovem, treinava com a equipa A e com jogadores de grandíssima qualidade. Tinha de aproveitar ao máximo para que o treinador olhasse para ti e decidisse dar uma oportunidade. Estava perto mas ocorreu a lesão e o sonho ruiu. Mas Bielsa dizia-me que tinha condições para jogar onde quisesse, que trabalhando no duro, ele ia fazer-me jogar», percorre, mergulhando também no impacto da carreira de dois ilustres companheiros.


 

«Se estás na elite, está sempre com vontade reforçada de ganhar títulos. Se estás em Espanha queres ir para Inglaterra, onde está a melhor Liga do mundo. O Kepa foi para o Chelsea, o Laporte para o City, isso diz tudo, foram os finalistas da última Champions. Querem melhorar, ganharem tudo o que puderem, levam os seus sonhos de estar entre os melhores do mundo. E não esquecem: foi o Athletic que lhes deu essa oportunidade da elite. Depois é ir em frente, atrás de novos objetivos», explica o português Víctor Monteiro, deixando-se seduzir pela última pergunta. Jogar em Portugal?
 

«A verdade é que sempre o pensei poder jogar em Portugal. Gostaria muito, o mal é que não me conhecem. Se me conhecesse, soubessem a minha história na formação do Athletic, que tenho toda a família aí…acho que podia ser diferente. Sei que um convite de Portugal deixar-me-ia encantado, sou jovem, sobra-me uns quantos anos para jogar. Estive perto quando joguei no Orense e aproveitava os dias livres para vir ao Porto ou Guimarães. Qualquer equipa que seja profissional, que não seja de bairro, pode convencer-me a ir para aí. Adorava jogar e viver em Portugal, ter a família por perto em vez de a ver uma vez ao ano. É algo que dá felicidade, conforto e rendimento.»

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias