Jogos Olímpicos de Tóquio: Hipotético Dream Team em estado de alerta máximo (artigo de Eduardo Monteiro, 70)

Espaço Universidade 23-07-2021 18:09
Por Eduardo Monteiro

Kobe Bryant, alguns meses antes de falecer no trágico acidente de helicóptero, quando questionado sobre o futuro do basquetebol USA nas competições internacionais, afirmou que o basquetebol praticado em alguns países já estava ao nível do basquetebol norte americano pelo que, dali em diante, a conquista de medalhas já não seria tarefa fácil. Kobe Bryant não estava enganado, atendendo a que já há alguns anos o número de jogadores internacionais que actuam na NBA ultrapassa anualmente a centena. Nas últimas 3 épocas desportivas o galardão de melhor jogador (MVP) da competição foi atribuído a atletas internacionais, quer dizer ao grego Giannis Antetokounmpo (Milwaukee Bucks) (2018-19 e 2019-20) e ao sérvio Nikola Jokic (Denver Nuggets) (2020-21). Em consequência na maioria das seleções nacionais de topo actuam  jogadores da NBA ou que já por lá passaram.

 

FIBA BASKETBALL WORLD CUP CHINA-2019

 

No percurso de classificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio houve várias etapas que as equipas candidatas tiveram que cumprir para conseguir o respectivo apuramento. Assim, no último Campeonato  Mundial efectuado na China em 1979, o selecionado americano  não foi medalhado e só conseguiu ser apurado para os Jogos Olímpicos de Tóquio atendendo a que o 7º lugar da classificação geral lhe concedeu apuramento directo por ser a 2ª melhor equipa do continente americano. A seleção de Espanha (ouro) foi apurada na qualidade de campeão mundial e melhor equipa europeia. A equipa Argentina (prata) foi apurada como melhor equipa americana, assim como a Austrália (4º lugar) a melhor da Oceania, a Nigéria (17º lugar) a melhor de África e o Irão (23º lugar) a melhor seleção asiática. A formação de França (bronze) foi apurada por ser a 2ª melhor equipa europeia. A estas 7 seleções foi anexada a representação do país organizador, o Japão.

 

FIBA OLYMPIC QUALIFYING TOURNAMENTS

 

Entretanto, tal como estava previsto, as 4 seleções restantes para completar o número total (12) do Torneio Olímpico de Basquetebol Masculino,  foram apuradas nos 4 Torneios de Qualificação Olímpica   disputados no período (29 Junho a 4 Julho de 2021), nos quais participaram 23 países, nas cidades de Belgrado (Sérvia): Filipinas, Itália, Porto Rico, R. Dominicana e Sérvia; Kaunas (Lituânia): Angola, Coreia, Eslovénia, Lituânia, Polónia e Venezuela; Split (Croácia): Alemanha, Brasil, Croácia, México, Rússia e Tunísia; Victoria (Canadá): Canadá, China, Grécia, R. Checa, Turquia e Uruguai. Após disputadíssimos encontros entre algumas das melhores seleções nacionais dos cinco continentes ficaram apuradas as equipas nacionais da Itália, Eslovénia, Alemanha e R. Checa. Na nossa perspectiva e de acordo com a dimensão e popularidade do basquetebol à escala global, entendemos que o torneio olímpico deveria ser disputado com a participação de 16 equipas, quer dizer com metade das que participaram no último mundial, pelo que as seleções da Sérvia, Lituânia, Brasil e Grécia, finalistas dos respectivs torneios pré-olímpicos também deviam estar presentes em Tóquio.         

 

TOKYO MEN´S OLYMPIC BASKETBALL TOURNAMENT

 

Em Tóquio a seleção norte americana, principal favorita, vai lutar pela 4ª medalha de ouro olímpica consecutiva, sob a orientação do famoso coach da NBA (Gregg Popovich) que no campeonato mundial apresentou uma equipa imprópria para representar os USA em competições internacionais. Aquilo que se passou na China foi a pior prestação de sempre (7º lugar) com exibições que deixaram muito a desejar em termos colectivos, tal como vemos por diversas vezes na NBA.

 

A história diz-nos que em todos os títulos olímpicos conquistados pelos USA as equipas nacionais foram selecionadas e preparadas por treinadores universitários, com uma única excepção o original “Dream Team”, em Barcelona-1992, que integrava pela primeira vez jogadores da NBA. Uma elite histórica de  estrelas que  formou a melhor equipa de sempre: Magic Johnson, Larry Bird, Michael Jordan, Charles Barkley, Karl Malone, Scottie Pipen, John Stockton, David Robinson, Clyde Drexler, Chris Mullin, Patrick Ewing e o universitário Christian Laettner. Como era a primeira participação de atletas da NBA e a diferença de valor entre as equipas era enorme a “USA Basketball” entendeu convidar para dirigir a seleção  o então mais veterano treinador da NBA (Chuck Daly) que foi coadjuvado por Mike Krzyzewski prestigiado treinador da Universidade de Duke. Os resultados alcançados no conjunto dos oito jogos efectuados demonstraram com clareza a diferença abismal então existente  entre a NBA e o basquetebol internacional. Basta dizer que o Drean Team obteve,  uma média por jogo, de 117.3 pontos marcados, 73.5 pontos sofridos, o que corresponde a uma diferença pontual de 43.8 pontos por encontro. Uma coisa nunca vista a nível internacional. Uma diferença abismal entre o original “Dream Team” e as restantes seleções nacionais.

 

A actual seleção dos USA, embora recheada de alguns bons atletas, apenas inclui dois jogadoes (Kevin Durant e Draymond Green) da equipa que se sagrou campeã olímpica nos Jogos do Rio-2019. Embora alguns estivessem lesionados, porque razão não foram convocados mais jogadores da equipa campeã olímpica constituída por: Kyrie Erving, Kyle Lowry, Carmelo Anthony, Klay Thompson, Jimmy Butler, DeMar DeRozan, Paul George, Harrison Barnes, DeAndre Jordan e DeMarcus Cousins. Contudo, as outras seleções selecionaram jogadores experientes, com 30 ou mais anos de idade, como é o caso da actual campeã mundial, a Espanha, que tem no seu plantel, Pau Gasol (40 anos), Marc Gasol (36), Rudy Fernandez (36), Sergio Rodriguez (35), Sergio Llull (33), Victor Claver (32) e Ricky Rubio (30).  

 

Gregg Popovich, para além dos veteranos Kevin Durant e Draymond Green, selecionou Damian Lillard, Jayson Tatum (recuperar de lesão), Jerami Grant, Ban Adebayo, Zach Lavine (aguarda resultado protocolo de saúde e segurança contra covid), Kevin Love (dispensado por ressentir antiga lesão, substituído por JaValle McGee ), Bradley Beal (dispensado por estar cumprir protocolo de saúde e segurança contra covid, substituído por Keldon Johnson). Atendendo a que só ontem terminou a fase final da NBA, os 3 restantes jogadores convocados Devin Booker (Phoenix), Jrue Holiday e Kriss Middleton (Milwaukee) aguardam poder viajar, o mais depressa possível, para Tóquio a fim de integrarem a seleção USA sem terem feito qualquer treino com os companheiros de equipa.

A poucos dias do início (25 de Julho) do torneio de basquetebol dos JO de Tóquio e atendendo aos resultados verificados nos jogos de preparação, deste hipotético “Dream Team”, derrotas com as seleções da Nigéria (87-90) (com 8 jogadores NBA) e da Austrália (83-91) (com 5 jogadores NBA)  e duas muito suadas vitórias sobre a Argentina (108-80) (com 5 jogadores NBA) e Espanha (83-76) (com 9 jogadores NBA) a expectativa é cada vez maior. Como acompanho há mais de 50 anos o basquetebol universitário e profissional dos EUA e as competições internacionais tudo isto me parece um filme de cowboys do meu tempo de adolescente, em que alguns protagonistas desempenhavam diferentes papéis na mesma metragem. Não descortinamos nada de bom quanto à prestação da seleção norte americana no torneio olímpico. Oxalá nos enganemos nas nossas previsões para prestígio do Basquetebol.

 

Será que a USA Basketball, a FIBA e a NBA não são capazes de se entenderem em termos de calendarização das respectivas épocas desportivas. Porque razão a seleção dos USA está agora entregue a  treinadores da NBA que  são muito limitados na organização estratégica das equipas face às actuais competições internacionais. Os melhores treinadores de basquetebol dos EUA sempre foram, e continuarão a ser, os Head Coachs da National Collegiate Athletic Association (NCAA) que fazem o aperfeiçoamento e especialização dos novos talentos. O valor e o  desempenho dos treinadores universitários na condução das seleções organizadas pela federação norte americana “USA Basketball” está perfeitamente comprovado pelos títulos internacionais conquistados pelas diversas equipas nacionais de que foram responsáveis ao longo de muitas décadas.

 

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

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