Do pensar ao ser e do ser à verdade (artigo de Manuel Sérgio, 363)

Espaço Universidade 17-07-2021 18:31
Por Manuel Sérgio

Releio o livro de José Barata-Moura, Da Representação à Práxis. Nele encontrei uma referência à Carta sobre o Humanismo, de Heidegger: “O pensar, dito simplesmente, é o pensar do ser. O genitivo tem um duplo sentido. O pensar é do ser, na medida em que o pensar acontece a partir do ser, pertence ao ser. O pensar é ao mesmo tempo pensar do ser, na medida em que o pensar, pertencendo ao ser, escuta o ser. Como aquilo que pertence ao ser e o escuta, o pensar é aquilo que é segundo a sua proveniência originária”. De facto, “o pensar é do ser”. Se sou matéria, vida e espírito (como tantas vezes Teilhard de Chardin o repete) todo o meu pensamento revela quem sou e a minha ligação ao que penso. Não é tanto o meu pé que chuta uma bola, sou eu que chuto uma bola. Descobre-se em toda a filosofia moderna o predomínio da Razão e, por isso, não deverá estranhar-se que, para Kant, a Ginástica passe a significar: “a educação do que no homem é natureza”. A formação moral do ginasta significa, sobre o mais, um dos aspetos do predomínio, referido acima, da Razão sobre o corpo: o corpo-instrumento, matéria tão-só que a Razão comanda e dirige. A Ginástica (o ´conjunto dos exercícios físicos, assim se pensava na Renascença), uma ampliação do conceito grego da “arte do gymnastes”, tinha uma função: proporcionar ao corpo a ordem, a paz, a harmonia, a força, a beleza de um instrumento ideal ao serviço da alma. Quando os romanos submeteram politicamente os gregos, o imperador Teodósio, em 393 d.C., recém-convertido ao cristianismo, aboliu os Jogos Olímpicos, alegando que um demasiado cultivo do corpo se guiava por valores declaradamente pagãos. No entanto, pela influência de Galeno (130-201 d.C.) na medicina romana, uma certa ginástica médica não deixou de praticar-se, dado que a medicina galénica prescrevia exercícios ginásticos para a cura de determinadas doenças.
 

O livro De humani corporis fabrica, de Andreas Vesalius (1514-1564) e o De Arte Gymnastica, de Hieronimus Mercurialis (1530-1606), este o primeiro tratado de Medicina Desportiva que na Europa se publicou, dizem-nos que a ginástica, entendida como arte médica, teve os seus hierofantes, antes do século XVIII – o século em que nasceu e viveu o médico Julien Offray de La Mettrie (1709-1751) que foi autor de dois livros célebres: O homem-máquina, a sua obra mais famosa e o homem mais que máquina. La Mettrie procurou lançar à execração pública o dualismo antropológico de Descartes mas, para sublinhar que o ser humano era matéria tão-só, não beneficiando de qualquer substância espiritual. O nosso corpo é um conjunto de molas e de engrenagens e o que chamamos “alma” não passa de um princípio também material, localizado no cérebro. Hoje, até os futebolistas, no horizonte imenso e contrastado da modalidade que praticam, não cessam, por gestos e palavras, de proclamar a sua religiosidade, a sua espiritualidade. À sua maneira, eles reafirmam que não aceitam o “entrincheiramento cognitivo” peculiar a qualquer fundamentalismo, tanto científico como religioso. De facto, pode conviver-se, perfeitamente, como Pasteur e Einstein e Faraday e outros o sustentam, reconhecendo a originalidade e a indispensabilidade da ciência e da fé. Atravessamos, sem dúvida, um período pós-iluminista, marcado pelos resultados de uma ciência que julga possuir a Verdade, com as consequências que se conhecem (relembro duas guerras mundiais, que devastaram a Europa). A presença do sagrado e até, como em tempos idos, a emergência da credulidade e da crendice, despontam, no espetáculo desportivo, com inusitada frequência. É que, só com muita ciência (as provas são insofismáveis!) a ciência não corre perigo, mas o ser humano são muitos os riscos que pode correr. Ainda hoje o fenómeno é visível! A total desteologização do pensamento resulta numa total teologização da ciência, que assim se apresenta desconhecendo a historicidade do conhecimento. A ciência é indispensável (negá-la é pura estultícia) mas sem nunca omitir o caráter histórico, progressivo e evolutivo da Verdade, que é bem mais do que ciência.
 

Hans Kung já escreveu, há muitos anos, que “toda a afirmação humana, porque humanamente limitada, confina com o erro. O erro, como uma antítese, persegue-a como a sua sombra. Basta perder os limites do nosso saber, para que o erro desponte imediatamente” (Structures de l’Église, Desclée de Brouwer, Paris, 1963, p. 446). A ciência não é um dogma, mas a fé não o é também. Confundir dogma e fé resulta, no meu modestíssimo saber, no policiamento constante e paralisante da fé. A  Verdade, tanto ao nível da ciência, como no âmbito da fé, ninguém a possui. Porque humana, a Verdade nunca a encontramos feita de uma vez por todas; só nos aproximamos da Verdade, após diálogo franco e livre, entre todos os dialogantes. Portanto, a Verdade nunca a encontraremos, nem diante, nem dentro de nós, mas como um “tornar-se” linguisticamente configurado. Como desatender a “docta ignorantia”, na dimensão “acontecedora” da aventura humana? Demais, após um jogo de futebol intensamente vivido, como encontrar a Verdade num tempo que não tem tempo? Com efeito, os noventa minutos de certos jogos de futebol chegam a durar semanas, meses e anos! Recordarei, enquanto vivo for, golos do Fernando Peyroteo e do Eusébio e do Matateu e do Travassos e do Fernando Gomes e do Cristiano Ronaldo. E sem respostas à altura das questões que os jogos e os golos suscitaram. Também se joga quando se pensa. Se um jogo intensifica qualquer processo dialogante e questionador, nele assoma necessariamente a linguagem, o pensamento. No plano metodológico, a investigação e o estudo, na ciência da motricidade humana, serve-se, hoje, dos mesmos instrumentos das demais ciências humanas, mas sem nunca perder o acúmen crítico, que nos permita gerir a dialética das posições e das contraposições. Qualquer proposição é problemática e não abrange a totalidade de um paradigma. Se também há historicidade, nas formulações dogmáticas, tudo o que se diz ou faz é imperfeito ou incompleto, ou seja, tudo é história.
 

Quando defendo o meu conceito de “motricidade humana”, utilizo um método que designo como “antropológico-transcendental”. Pela transcendência, vou da matéria à vida e da vida  chego ao espírito. E, no espírito, ainda pela transcendência, eu (que respeito os que assim não pensam) encontro a necessidade de Deus. Mas com um objetivo último: entender onde estou e para onde vou. Esta é a minha “autopoiese” e, por esta “autopoiese”, me tento compreender. Não, não me sinto a máquina que alguns “iluministas” me deixaram, como legado científico. Mas máquina autopoiética, que a si mesmo se faz, que a si mesmo se constrói. Tudo o que existe se entende como uma unidade; nos sistemas vivos, designadamente nos humanos, todas as transformações que podem sofrer não alteram a sua organização autopoiética, estão perfeitamente subordinadas à preservação da autopoiese. “A organização autopoiética não faz restrições sobre as mudanças estruturais de um sistema autopoiético (como o homem é). Como consequência, um sistema autopoiético é um sistema aberto a mudanças estruturais, através das interações dos seus elementos” (Humberto Maturana et al., Um novo paradigma , UFMG/PROED, 2005, p. 33). Em prefácio ao livro de Teilhard de Chardin , O Meio Divino, Editorial Presença, s/d., p. 20), o padre, da Companhia de Jesus, Manuel Versos Figueiredo, tentando interpretar aquele cientista e teólogo, escreveu: “Deus e o mundo não formam esferas separadas e a religião e a ciência e todo o trabalho humano não só não são incompatíveis mas necessariamente se completam” (p. 20). Em Teilhard de Chardin, se bem o interpreto, até antropologicamente não se nota nele um “crescimento pelo crescimento”, que nos conduza a um beco sem saída, mas um crescimento que nos leve a um ponto onde se possa esperar contra toda a esperança.  O fim, o grande objetivo, não pode ser o dinheiro dos plutocratas, nem o poder dos ditadores (de direita ou de esquerda) nem a hipocrisia das pessoas perfeitas à primeira vista. O fim, o grande objetivo, é escrever em todas as paredes, como o Thiago de Mello dos Estatutos do Homem:
 

                                                Fica decretado que o homem

                                                Não precisará nunca mais

                                                Duvidar do homem.

                                                Que o homem confiará no homem

                                                Como a palmeira confia no vento,

                                                Como o vento confia no ar,

                                                Como o ar confia no campo azul

                                                Do céu.

 

E, depois, fazer desporto, como os meninos jogam ao berlinde…         



Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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