Associação Académica de Coimbra: Cinquentenário da conquista da Taça de Portugal de Basquetebol (artigo de Eduardo Monteiro, 69)

Espaço Universidade 10-06-2021 08:22
Por Eduardo Monteiro

Segundo reza a história contada por alguns dos nossos antepassados o basquetebol começou a ser praticado na Associação Académica de Coimbra no ano de 1928, embora não se saiba quem foram os seus primeiros entusiastas. No entanto, as notícias publicadas num jornal de 1933 o autor afirme em título “Nada de confusões a Académica foi campeã de Coimbra nas épocas de 1929/30, 1931/32 e 1932/33”. Para além disso, temos conhecimento que  da primeira equipa de basquetebol da AAC faziam parte Carlos Arruda, José Devessas, Carlos Leça, Alberto Ferreira e José Teixeira e que os dois primeiros foram internacionais a nível escolar.

 

Década de 40

Também sabemos que, em 1947, a equipa de juniores venceu o primeiro campeonato de Coimbra da respectiva categoria embora se desconheça o nome dos jogadores. No mesmo ano, um grupo de estudantes universitários constituído pelos irmãos António e Francisco Serra e Moura, Paulo Cardoso, António Godinho, Araújo e Sá, Aníbal Costa, Alberto Valejo, António Travanca, António Santos, Mário Reis, António Avelar, Brás dos Santos, Melich Cerveira e João Conceição começaram a treinar basquetebol num campo de terra batida, construído pela malta da modalidade num terreno em Santa Cruz,  acima do ringue de patinagem.

 

Curiosamente, Melich Cerveira, numa passagem pela baixa coimbrã, viu um livro norte americano sobre basquetebol e apressou-se a comprá-lo. Esse livro seria o seu manual de trabalho, pois do estudo do conteúdo resultou que a Académica fosse a introdutora da defesa à zona em Portugal. Mercê dessa estratégia e de muito trabalho, conquistaria os títulos nacionais de seniores nas épocas desportivas de 1948/49 e 1949/50. Como curiosidade, na segunda equipa campeã treinada por Alberto Valejo participaram quatro jovens  saídos da equipa de formação, Luís de Sousa, José Manuel de Almeida, Lúcio Lemos e Morgado. A resultante do trabalho efectuado com os mais jovens foi a renovação da equipa principal ao longo dos anos.

 

Com a eleição de Armando Rocha para presidente a secção do basquetebol foi-se estruturando e melhorando em todos os aspectos organizativos. A vinda  do Prof. José de Sousa Esteves para Coimbra, então o treinador mais actualizado do basquetebol nacional, trouxe uma melhoria significatica na evolução dos jogadores da formação e na qualidade técnico-táctica das equipas seniores da Académica. No pouco tempo que esteve em Coimbra, o professor José Esteves deixou uma obra importante pois conseguiu atrair muita rapaziada para a iniciação ao jogo da “Bola ao Cesto”, como também, fez escola ao nível da formação de treinadores para as equipas dos escalões etários mais novos. Um excelente exemplo.

 

Década de 50.

Como corolário desse excelente trabalho as equipas de formação da Académica começaram a  mostrar a sua mais valia através da conquista de diversas provas nacionais. A equipa de juniores, treinada por Fernando Oliveira e Lúcio Lemos, venceu o campeonato nacional de juniores (1951/52) com uma grande estreia de Mário Mexia, que ao longo da sua carreira foi decisivo na conquista de diversos títulos nacionais tendo sido, mais tarde, considerado o melhor jogador português da sua geração. Na época de (1952/53) o treinador António Godinho conduz os juniores a mais um título nacional. Na temporada seguinte (1953/54) Lúcio Lemos também orientou a equipa de juvenis na conquista da respectiva prova nacional. Por sua vez, em 1954/55, Lúcio Lemos e Apolino Teixeira  levaram a equipa de Juvenis à vitória no campeonato nacional.   

 

Assim, nos anos 50, então conhecidos como a “Década de Ouro” do basquetebol da Académica, a equipa senior conquistou mais dois títulos nacionais e a primeira Taça de Portugal. O terceiro campeonato nacional foi ganho em 1954/55 com o Prof. José Esteves a treinador, a primeira Taça de Portugal foi conquistada em 1958 sob o comando do Prof. Alberto Martins e o quarto título nacional (1958/59) foi obtido sob a orientação do Coach Apolino Teixeira. Neste último campeonato nacional a equipa contou com a ajuda preciosa de Hackenbury, militar norte americano, um bom jogador com excelente comportamento desportivo.

 

Década de 60

Nesta década, a grande novidade foi a introdução de uma fase final na disputa do título nacional de seniores com a participação das equipas campeãs da Metrópole , de Angola, e de Moçambique e ainda do 2º classificado do território onde se realizava o evento. Esta fase final era realizada entre as 4 equipas durante uma semana, jogando todos entre si a duas voltas, com um dia de intervalo, para a atribuição do respectivo título nacional. Evento desportivo de grande exigência física e constante rendimento colectivo perfeitamente adequado à então realidade política do país, na modalidade desportiva mais popular em Angola e Moçambique que, de imediato, alcançou um êxito desportivo inigualável naquela época. A equipa senior da Académica não obteve títulos nacionais, mas esteve sempre na linha da frente, venceu por quatro vezes a zona norte, participou em 4 fases finais do novo figurino da prova nacional obtendo dois segundos e dois terceiros lugares. Em 1966/67 foi campeã metropolitana e  conquistou a sua segunda Taça de Portugal. Nas categorias de formação conquistou os títulos nacionais de juvenis (1960) e de Juniores (1961) equipas dirigidas por Conde Veiga e Arnaldo e por José Luís Cabaços que forneceram excelentes jogadores à equipa senior.              

     

Década de 70

Entretanto, no início da época desportiva (1970/71), fui contatado pelo Prof. Alberto Martins, então treinador de basquetebol da equipa principal da AAC, que ao saber que eu não estava em actividade, me convidou a representar a Académica numa época de transição em que a maioria dos jogadores seniores eram ex-juniores. A razão do convite assentava na minha experiência (internacional federado e universitário) e liderança na situação de jogo, o que poderia ser um grande contributo para uma equipa recheada de jogadores jovens. Face à então minha situação profissional (serviço militar obrigatório) a aceitação do convite implicava uma metodologia de trabalho orientada para o treino individual nos dias úteis e colectivo aos fins de semana (em Coimbra). Atendendo a que eu conhecia as características de alguns dos jogadores mais jovens: Augusto Baganha, Carlos Santiago, Fernando Carreira e José Tavares não foi difícil a adaptação ao sistema colectivo.

 

Na prova nacional,  obtivemos resultados bastante positivos e, em Junho de 1971, conquistámos a terceira Taça de Portugal  na final disputada na cidade de Aveiro com o F.C. Porto. Para a história ficam os nomes dos jogadores que estiveram envolvidos nesta etapa vitoriosa da Académica: Augusto Baganha, Carlos Santiago, Eduardo Monteiro, Fernando Carreira, José Tavares, Carlos Hilário, Vitor Coelho, Carlos Gonçalves, António Gaspar, Alfredo Robalo, Francisco Domingues, Luís Santarino e Francisco Giraldes, assim como os resultados obtidos (há 50 anos) no percurso desportivo do último grande título conquistado pela equipa senior de basquetebol da Associação Académica de Coimbra:

Quartos de final: Académica – 83  Algés – 71;

Meia - final: Académica – 80  BPM – 55

Final: Académica – 83  FC Porto – 71

 

Foi um triunfo muito festejado e seria a última vitória de um grande  treinador, Alberto Martins, com muitos títulos conquistados que, pouco tempo depois, deixaria a modalidade por motivos de saúde. No início da década de 90 tive a enorme satisfação de, em representação do então Ministro da Educação, Eng. Roberto Carneiro, entregar ao Prof. Alberto Martins e ao Eng. Mário Mexia os Galardões Desportivos Nacionais  que lhes foram atribuídos pelo Governo Português.


Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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