«No primeiro dia eu chamei-lhe 'mister' e ele disse-me: 'Mister, estás tolo? É Rúben, caraças'»

A BOLA FORA 23-05-2021 16:24
Por Tânia Ferreira Vítor

Luís Neto é um dos heróis do Sporting da presente temporada. Numa conversa simples e informal, por videochamada, o central do Sporting falou sem rodeios da (brilhante) campanha dos leões, da relação com o mister Rúben Amorim e dos festejos pela consagração do título. Obrigada, Neto, e boas férias!

 

- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

 

- Acabei de levar o meu filho à escola, em Belém. Era suposto irmos hoje de manhã [ontem] para o Norte, mas a noite não correu bem com a Mel - a minha filha decidiu vingar-se - então vamos só ao final do dia. À tarde, vamos fazer as malas e depois seguimos para uma semana em casa, na Póvoa de Varzim.

 

- Já estão oficialmente de férias? Como foi o último dia?

 

- A nível de Sporting, ontem [quinta-feira] foi o último dia de trabalho. Tivemos a manhã preenchida na Academia com muitas camisolas para assinar, material para receber e trazer para casa. Tivemos uma pequena reunião para desejar boas férias a toda a gente. À tarde, tivemos a visita à Câmara Municipal de Lisboa e à noite o jantar de equipa. A partir de hoje [ontem] estamos oficialmente de férias.

 

- Quais são os teus planos?

 

- O meu plano é ficar uma semana no Norte para estar com a família e também quero ir ver o Varzim no sábado - tem um jogo decisivo. Já não estou com os meus há algum tempo por causa do Covid-19 e também porque estávamos a lutar para ser campeões. Já não me lembro da última vez que saí de Lisboa e é importante que os meninos passem tempo com os avós e os primos. De 29 de maio a 12 de junho, vou para o Algarve. Aluguei uma casa em Vilamoura para uns dias de descanso em família. Não vamos fazer grandes viagens, porque a minha filha é muito pequenina, ainda estamos a dar os primeiros passos. Depois, vou regressar a Lisboa. A época só começa a 29 de junho, mas quero começar a treinar mais cedo para ganhar índices físicos - já passei dos 30 anos [risos].

 

- O Rodrigo fez seis anos recentemente. Ele já entende o que o pai conquistou? O que é que te disse?

 

- Olha, a história mais particular com o meu filho é esta: o Rodrigo tem fobia a foguetes e a festas tipo passagem de ano. Ele não lida muito bem com festejos. Então, não gosta que o pai ganhe campeonatos ou taças, porque isso é sinónimo de festa. Sabe que quando levantamos a taça há foguetes, barulho e papéis a voar e ele tem fobia com isso. Para teres uma ideia, nem no aniversário gosta que lhe cantem os parabéns com velas. Então na festa do título, disse-me assim: ‘papá, eu vou lá, tiro uma fotografia e venho logo embora’. É claro que o meu filho fica contente, porque sente que os pais estão em casa felizes só que dispensa os festejos. No Zenit também não gostava.

 

- Este ano foi especialmente marcante para ti, porque a somar aos sucessos desportivos, nasceu a tua filha. Conseguiste assistir ao parto?

 

- Consegui! Obedecendo a todas as normas de segurança, com teste de Covid, consegui entrar na parte final. Foi nos Lusíadas e uma semana mais cedo do que o previsto. A Andreia tinha ido à médica no Montijo, mas o líquido amniótico estava no limite e ela acabou por entrar em trabalho de parto - fez a cesariana no dia 7 de abril. Eu não tinha assistido ao parto do Rodrigo por estar na Rússia, mas consegui no da Mel e fiquei muito contente. Não fiz muita coisa, mas foi um momento muito bonito.

 

- A ideia que transpareces é a de uma pessoa muito calma. Na hora do parto também foi assim ou as pernas tremeram?

 

- Olha, os enfermeiros disseram que eu portei-me muito bem. Consegui tirar fotos e tudo e ainda brinquei com eles. Um era sportinguista e felizmente a fase era boa para brincar. Aquelas piadas de pai que vai ter uma menina: que a partir dali eu ia ser mais rígido, etc. Correu tudo bem. Não tenho grandes medos ou imagens que me possam ferir suscetibilidades. Mesmo assim, fiquei ao lado da minha esposa e não vi as partes mais difíceis, porque estavam tapadas. Não queria fazer má figura [risos]. 

 

- Depois de sete anos seguidos no estrangeiro, regressaste ao campeonato português na época passada. Emigraste um jovem e voltas como um dos mais experientes do plantel leonino. No balneário, eras um dos velhotes?

 

- Ali no plantel é engraçado, porque os mais velhos estão em minoria: sou eu, o João Pereira, o Antunes, o Adán, o Feddal e o Seba [Coates]. Acabou por ser engraçado, porque temos muitos miúdos e realmente sente-se. Antes, era eu que ia ao meiinho, agora estou no meiinho dos mais jovens para manter a ordem e para aquilo não descambar [risos]. O Nuno Mendes, o Mateus, o TT [Tiago Tomás] chamam-me cota. Nota-se que eles têm um carinho especial pelos mais velhos e foi dessa mistura que saiu um grande grupo.

 

- De que forma é que os mais experientes como tu foram importantes para manter a malta jovem com os pés no chão?

 

- Às vezes até falamos sobre isso, sobretudo quando temos um almoço ou jantar de equipa para fazer a retrospetiva da época. E a verdade é que houve apenas um momento ou outro em que o tivemos de fazer, o que num ano inteiro não é nada de especial para uma equipa que compete para ganhar o campeonato nacional.  Sentimos pouca necessidade de intervir nesse sentido, até porque tínhamos a exigência de quem nos lidera e que deixa pouca margem para que isso aconteça. O nosso trabalho estava facilitado nesse sentido, porque a exigência era muita e a concorrência era forte, o que nos obrigava a competir todos os dias. Quem não estivesse nesse caminho possivelmente não jogava. Ou seja, não dava para facilitar. Toda a gente queria evoluir, toda a gente queria mais e melhor. Os miúdos passaram a ter objetivos pessoais também, serem chamados aos sub-21 ou à Seleção A.

 

- Qual foi o momento mais emocionante dos festejos?

 

- Foi a chegada ao Marquês de Pombal, uns dois ou três minutos antes. Quando estás a descer a avenida e consegues ver as pessoas todas… Aquilo foi uma uma mistura de pessoas, chuva e pirotecnia. Foi um momento incrível. Lembro-me que quando estávamos mesmo a chegar, o hino - Marcha do Sporting - estava a tocar e o pessoal todo a cantar. Depois deu o We Are The Champions… Foi emocionante! Acabámos o jogo às dez da noite e chegámos ao Marquês às três e quarenta da manhã, ou seja, as pessoas estiveram cinco ou seis horas à nossa espera. Foi o que escrevi no texto que partilhei nas minhas redes sociais: eu queria muito sentir o que é o Sporting durante o meu tempo aqui e estou muito contente, porque felizmente consegui. Tenho tudo gravado em vídeo e de vez em quando gosto de rever.

 

- É inequívoco dizer que uma das grandes figuras deste Sporting é o vosso treinador. Em que é que o Rúben Amorim se distingue?

 

- Eu diferencio o mister na liderança e na forma como consegue colocar todos os jogadores unidos num só objetivo. Claramente que enquanto jogadores, temos as nossas pretensões individuais, mas ele consegue com que cada um pense no coletivo acima de tudo. E em relação ao trabalho, ele distingue-se pela repetição, consistência, detalhe e exigência, seja no aquecimento, numa velocidade ou no ginásio. Se for possível fazer oito repetições em vez de seis, ele quer as oito. Gosta de levar as coisas ao limite. Em cada jogo, diz-nos sempre em que é que o adversário é mais forte em duas ou três variantes para estarmos preparados. Mas o que mais sentimos ao longo do ano é a ideia de repetição sobre repetição que nos leva a melhorar. Durante a época, apesar de toda a gente saber como o Sporting jogava, sabia-se que era fácil analisar mas difícil de contrariar. Tentou ao máximo colocar jogadores com o pé contrário em posições na direita ou na esquerda, meter alas a defesas. Quando as coisas ficavam mais agarradas digamos assim, o mister tinha sempre alternativas dentro do próprio sistema. Lá está, aquilo que nós sentíamos era: nós vamos jogar sempre assim. Saber que íamos ter sempre os mesmos princípios, rigor e intensidade dá uma grande força à equipa. O mister conseguiu que andássemos todos no mesmo caminho.

 

- Vocês tinham sido colegas na seleção nacional…

 

- Sim, estivemos juntos em alguns estágios e no Mundial-2014.

 

- E, no início, não foi estranho ter um antigo colega como treinador?

 

- No início, foi. Lembro-me que no primeiro dia, eu chamei-lhe mister e ele disse-me: ‘Mister? Estás tolo? É Rúben, caraças’. Tínhamos uma relação profissional por termos estado no Mundial ao serviço da Seleção. Eu vou ser muito sincero: eu não gostava de ter um treinador que tivesse sido meu colega de balneário, porque à partida sabe muito sobre mim - o que sinto quando eu jogo ou não, etc. Às vezes, quando nos conhecem bem retiram-nos qualquer coisa, mas no contexto em que o Rúben entrou no Sporting e da maneira como apresentou as ideias dele no pós-Covid, fiquei muito mais tranquilo. Antes dele chegar, as coisas não estavam a correr bem… O Rúben trouxe uma luz, uma alegria e uma energia que eram mesmo necessárias. Essa crença que eu tinha de não gostar de trabalhar com quem me conhece bem caiu por terra quando vi o tipo de liderança que ele tinha, a ideia que trouxe não só para o plantel mas também para o clube. Senti naquele momento que estávamos no rumo certo.

 

- Rúben Amorim recusou assumir a candidatura ao título praticamente até ao final, mas imagino que os jogadores falassem disso no balneário. A partir de que momento é que abordaram o assunto sem ser tabu?

 

- Nós sempre seguimos a linha do mister; a verdade é que durante muito tempo cada um sentia que falar do título era uma espécie de tabu. Nas últimas dez jornadas, sabíamos que estávamos numa boa posição para atingir o nosso objetivo. Depois tivemos a fase em que acusámos um bocadinho a pressão dos nossos principais rivais, o que é perfeitamente normal. Mas eu diria que depois da vitória em Braga, até pelo facto de termos sido reduzidos a dez aos dezasseis minutos e mesmo assim termos conseguido aguentar, de termos feito o golo na única oportunidade que tivemos. Aí começámos a achar que alguma coisa estava para ser escrita e que o título não ia fugir. Começámos a falar disso no trajeto Braga-Lisboa, sentimos que tínhamos dado um enorme passo rumo ao título. A receção em Braga e a receção em Alvalade depois do jogo foram marcantes. Chegámos às três da manhã e tínhamos tanta gente à nossa espera… Sentimos que ia ser muito difícil alguém parar-nos, independentemente do resultado do FC Porto que, no dia a seguir, empata em Moreira de Cónegos.

 

 

 

- Como é que lidaram com os castigos sucessivos ao vosso treinador? Deram-vos ainda mais força?

 

- Às vezes o dia estava tranquilo, mas depois começávamos a ver nas notícias: Rúben castigado, Rúben suspenso mais seis dias, mais quinze dias… Estávamos a lutar pelo maior troféu que nos fugia há muito tempo, mas começámos a ver que aquilo já era exagerado e até caricato. O Rúben é um líder nato e nem gosta que se fale nesses assuntos. Consegue lidar muito bem com isso como se viu nas conferências de imprensa e nunca nos deixou pensar que as pessoas estavam todas contra nós, não foi esse o caminho. Mas é claro que os jogadores falavam e achavam que aquilo já estava a ultrapassar todos os limites. No dia em que ganhámos ao Boavista, até brincámos com a situação e dissemos que o Rúben estava castigado por tudo o que fez pelo Sporting. Não tínhamos isso presente na nossa cabeça do género: vamos ganhar pelo Rúben, porque tínhamos de ganhar para honrar a camisola que vestimos, mas sentíamos que estávamos a ser beliscados, fosse pelo mister ou pelo Paulinho. Essa mentalidade ia ao encontro do nosso lema: onde vão um, vão todos. E nisso estivemos muito fortes.

 

- Tinham alguma música da sorte?

 

- Por acaso, não. Quem punha a música era o Nuno Mendes, o lateral, assumia quase sempre. Mas era música variada. E nunca ouvimos no autocarro a não ser no último jogo.

 

- Já tinhas jogado num sistema tático com três defesas? Especialmente para um central é bastante diferente..

 

- Eu já tinha jogado num sistema de três, pontualmente, com o André Villas-Boas no Zenit. Em Itália, também. Mas confesso que este sistema do mister desafiou-me, porque em Itália jogava numa equipa que lutava por outros objetivos e praticamente não tinha muito espaço nas costas para cobrir, jogávamos muito baixo, era muita saída de bola, antecipação, jogo aéreo e bolas paradas. Aqui, a ideia é bater sempre com a linha no meio campo, é muitas vezes o central ser lateral. Eu nunca tinha jogado na minha carreira. A nível pessoal, foi realmente um desafio, porque eu queria muito ser o central da direita e então tive de começar a pesquisar. Às vezes pedia vídeos do meu treino para ver os posicionamentos, porque o mister é muito específico. Muitas vezes é o central que tem de entrar com bola, que tem de saltar no médio quando eles fazem superioridade. Ou seja, se jogarmos com dois médios e a outra equipa com três é o central que tem de saltar. Neste modelo de jogo, o central tem de saltar em muito lado e, por isso, foi diferente, mas exigente. Este sistema é o mais difícil de contrariar, uma das razões para termos tido tanto sucesso.

 

- A Póvoa de Varzim já ganhou mais sportinguistas?

 

- A minha mãe e o meu pai dizem que as remessas de camisolas que mandei este ano - maiores que no ano passado - não chegam para a procura. Eles têm sempre muitos pedidos e a minha mãe está sempre a dizer que nunca pensou que a Póvoa tivesse tantos sportinguistas. Quando se ganha, as pessoas sentem de outra maneira e mostram o carinho ao clube com mais orgulho ainda. Mas tenho de fazer justiça aos sportinguistas: em termos de devoção, não acho que exista igual em Portugal.

 

- Então, quer dizer que da próxima vez que for à Póvoa vou ver muitas camisolas do Luís Neto…

 

- [risos] Sim, vê-se muita gente com a camisola 14 do ano passado. Este ano consegui o número 13 - é o meu número da sorte. No Zenit, o clube não queria que eu usasse o 13 por estar ligado ao azar, mas eu forcei e não troquei. Consegui ganhar cinco títulos na Rússia, por isso, eu costumo dizer que é o lucky thirteen [o treze da sorte]. Mas respondendo diretamente à tua pergunta: quando fores à Póvoa vais ver muitas do camisola do Neto, sim senhora.

 

- Já tens a medalha da Taça da Liga [risos]?

 

- Já tenho. Chegou tarde, mas chegou [risos].

 

- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?

 

- Eu acho que da última vez respondi-te que era contra o Sevilha, da Taça UEFA. Esse ainda está atravessado. Deixa-me pensar… O Sporting-Benfica da Supertaça que foi o meu primeiro jogo oficial [o Benfica venceu por 5-0]. Acho que foi um resultado muito enganador pela primeira parte que fizemos. Esse jogo acabou por desencadear a má época coletiva do Sporting. Gostava de repetir para fazer um resultado diferente. Pode ser que a gente tenha oportunidade de repetir essa final.

Ler Mais
Comentários (26)

Últimas Notícias