Sol na eira e chuva no nabal (artigo de José Antunes de Sousa, 96)

Espaço Universidade 11-05-2021 16:41
Por José Antunes de Sousa

A hesitante reflexão que se segue (que, como obra de nabo, nunca poderia sair coisa por aí além), foi-me cochichada, noite dentro, pela barulheira ensurdecedora provocada pelo raivoso rosnar da matilha de comentadores, cuja principal nota comportamental parece ser a piromania - tudo no rescaldo do não menos hesitante critério do árbitro do último clássico da Luz entre o Sport Lisboa e Benfica e o FCPorto.

 

O que se pedia ao senhor árbitro, Artur, de seu nome, é que como rei se portasse, e, ao rei, bem sabemos que é a equanimidade e a imparcialidade o que, acima de tudo, se lhe pede - e que não tenha medo.

 

Pois medo foi o que mais parece ter abundado - até um cheiro nauseabundo se ter espalhado pelas bancadas frias de ausência. Um medo, aliás, que, uns dias antes, um grupelho de rufias a soldo de uma gratuita agitação, tratou de potenciar e dramatizar, espalhando intimidatórias frases pelos muros fronteiros ao centro de treino dos árbitros na Maia.

 

Ah, mas ele é imune a essas ameaças- proclamaram os iluminados da bola. Mas, como? Ninguém é - só um louco, ou alguém totalmente desprovido de consciência.

 

Antes do jogo, todos, em uníssono, o confirmaram no seu trono como o Rei Artur da arbitragem nacional. Mas, da mesma forma que o lendário herói britânico nunca existiu na realidade, também este nosso herói de Portus+cale (Porto belo, onde se procedia à descarga das pipas de vinho e, sabe-se lá, se de bolos também, porto que daria o nome de Portugal) , também este herói, dizia, nunca existiu- só como Artur concedemos que exista, de facto. Aliás e em rigor, nem como verdadeiro árbitro existe - que, para sê-lo realmente, teria que, à semelhança do que, na abertura da Olimpíada clássica, faziam os Hellanodikai, molhar as mãos no sangue do sacrifício e jurar arbitrar as provas com imparcialidade - e aí, o problema,  justamente.

 

A inviabilidade funcional e deontológica - mãos sujas - advém do facto de este senhor ter as mãos na massa em dois tabuleiros em simultâneo: na tesouraria da Liga e no tabuleiro, propriamente dito, da sua pastelaria (que tem na sua localização a sua maior fragilidade).

 

Quando se jogam tantos milhões em noventa minutos, fazer vista grossa a uma entrada mais agressiva pode, num balanço final das hipóteses, significar um rombo de quarenta milhões.

 

Querer conciliar o inconciliável (“coincidentia opositorum”, Nicolau de Cusa) é pretender que o semáforo esteja simultaneamente verde e vermelho: estampanço pela certa! A sabedoria popular já há muito que lavrou a sentença para esta conduta excessiva: “quem tudo quer tudo perde”.

 

A atestar os perigos associados à condição de árbitro-empresário, já tivemos os episódios de vandalismo no talho do Mota - precedente que seguramente fez tocar todas as campainhas de alarme do sistema nervoso do Artur, menos o único que, face àquela entrada, deveria ter tocado - o apito. Mas uma pastelaria vale bem um silêncio!

 

É certo que todo o cidadão tem o direito de ser empresário, mas à hora de de conjugar a sua actividade empresarial com a profissão de árbitro de futebol profissional, deve estreitar o seu critério e ampliar a sua prudência:

 

Por que não uma funerária? Com certeza que ninguém iria arrear no defunto. Ou por que não uma sucateira? Seguramente que nenhum desses vândalos iria desperdiçar energia a partir o que já partido está.

 

O que parece certo é que o árbitro do clássico, ao tremer como tremeu, mais do que o celebrado Rei Artur, ele foi simplesmente o Sr Dias da Pastelaria.

 

Dia amargo do Soares!

 

José Antunes de Sousa

Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa

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