«Queria ser como aqueles senhores do National Geographic...»

A BOLA FORA 09-05-2021 08:23
Por Tânia Ferreira Vítor

André Martins é bicampeão na Polónia. O camisola 24 do Legia Varsóvia já tem o título no bolso e está a cumprir calendário antes das merecidas férias. O pensamento já está em Portugal, no regresso a casa e aos seus: a família que esteve sempre presente e que fazia 600 quilómetros todos os fins de semana quando o médio estava em Lisboa.

 

- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

 

- Estava a jogar PlayStation com o meu grupo: o Josué, o João Pereira, o Rafael Lopes e o Luís Rocha. A Matilde tirou o dia para estudar, está a acabar a tese de mestrado e eu aproveitei.

 

- Um amigo que temos em comum - o Josué - contou-me que a hora do encontro online é precisamente às seis da tarde. Liguei na hora errada [risos]?

 

- Não! Como eles sabiam que eu ia dar a entrevista, começámos a jogar mais cedo - estavam todos online.

 

- E a Matilde ainda não te estragou o comando [risos]?

 

- [Matilde responde] Ainda não [risos]. Como ando muito ocupada com a tese, não me importo. É o tempo dele.

 

- Muitos parabéns pelo bicampeonato ao serviço do Legia Varsóvia. Faço-te a mesma pergunta que fiz ao José Sá na última A Bola Fora: ser campeão cedo tira um pouco do encanto?

 

- Eu acho que não tira encanto, mas sim um bocado de pressão. Quando se joga num clube grande ou que está sempre a lutar por títulos, passa-se a época toda com pressão. Aliás, não sei se pressão é a palavra certa, porque nós fazemos o que gostamos e somos bem pagos para isso. Mas estás sempre naquele stress porque sabes que tens a obrigação de ganhar todos os jogos - não há outro resultado possível. E quando isso não acontece, os adeptos não gostam e o ambiente não é bom. Por isso, foi positivo termos sido campeões umas jornadas antes do final para podermos desfrutar dos jogos que faltam. E foi a primeira vez que fui campeão no sofá. Nunca tinha acontecido… Estávamos dependentes do resultado do segundo classificado: eles empataram e festejámos em casa [Rakow e Jagiellonia empataram sem golos].

 

- Onde estavas?

 

- No dia em que fomos campeões - na quarta-feira da semana passada - fomos jantar a casa do Rafael Lopes e da mulher, a Marta. Acabámos os quatro a festejar.

 

- E está previsto algum tipo de celebração?

 

- Ainda não é oficial, mas acho que vai haver alguma coisa. Devido à situação da pandemia, foi autorizado 25 por cento da lotação do estádio para o último jogo do campeonato que é em casa. E depois do jogo penso que vão organizar qualquer coisa com os adeptos, não sei se vamos num autocarro ou se têm outra ideia. No ano passado, mesmo com a pandemia, arranjaram maneira de fazer a festa. Os jogadores estavam num barco e os adeptos à beira-rio. Mas a verdade é que as celebrações nunca são iguais em tempo de Covid-19. E é pena, porque os adeptos do Legia são incríveis.

 

- Fizemos a primeira A Bola Fora em novembro de 2016 quando estavas no Olympiakos; no verão de 2018 dá-se a transferência para a capital polaca. Qual é o balanço destas três épocas no Legia?

 

- Têm sido anos bons. O primeiro não foi o melhor, porque só cheguei em setembro e o campeonato já ia com algumas jornadas. A nível coletivo, também não foi tão positivo, porque não conseguimos o título. Estas duas últimas temporadas têm sido muito boas. Fui campeão duas vezes, sinto que as pessoas gostam de mim e tenho um papel importante na equipa e no clube. Sentir que as pessoas querem que eu esteja aqui é bom. Outra coisa muito importante, para mim, é ver que a Matilde está feliz em Varsóvia. Tenho a noção que ela largou praticamente tudo para vir para o pé de mim. Ela tinha uma vida muito ativa em Portugal com o trabalho, família e amigos e sei que aqui é diferente. O bem estar dela é das coisas mais importantes.

 

- É bonito teres essa consciência, porque não há de ser fácil mudar de vida, sobretudo numa altura de pandemia…

 

- Sim, é verdade. Desde que começámos a namorar, queríamos muito estar juntos. Sabíamos que, para mim, seria muito complicado largar tudo, porque a minha situação contratual é diferente da da Matilde. Mas dou muito valor ao que ela fez, porque eu de certa forma já passei por isso. Aos 12 anos, quando fui para o Sporting, tive de deixar a minha família e os meus amigos e sei bem o que custou. Chorei muitos dias. Por isso, faço questão de mostrar que dou valor àquilo que ela fez pela nossa relação.

 

- Vários colegas teus que estão ou já passaram pela Polónia falaram sobre a diferença entre um balneário português e polaco…

 

- É verdade. Há uma enorme diferença, sobretudo pelo aspeto da comunicação. Quando estava no Sporting, tentava sempre falar espanhol ou inglês com os estrangeiros. Mesmo que não falasse perfeito, gostava que eles se sentissem integrados. Aqui não. Ou entendes o que estão a dizer ou ficas sem perceber as conversas, porque eles não se dão a esse trabalho. Mas, por acaso, eu sinto-me acolhido - dou-me bem com todos. Lá está, não sou de ir à casa deles nem eles à minha, mas temos uma boa relação dentro do balneário.

 

- Tens contrato por mais um ano. Queres continuar aí ou a pandemia mudou a vontade de seres emigrante?

 

- Acho que não me posso queixar, porque a Matilde já cá estava quando começou a pandemia, ou seja, não passei por isto sozinho. Entretanto, o meu irmão e a minha mãe conseguiram vir cá e também pude estar com eles. Mas é difícil imaginar outro ano igual. Estou feliz no Legia, mas é verdade que estou com 31 anos e começo a pensar em regressar a Portugal. Mas não posso ir sem nada nas mãos, tenho de ter um bom projeto. Será sempre uma decisão a tomar em conjunto com a Matilde, seja para voltar ou para mudar de país. Não tenho aquela ideia do ´pagam-me mais ali, então eu vou´. Temos de estar bem adaptados e o dinheiro não vale tudo.

 

- Já te ouvi dizer que o jogador tem uma vida abençoada. Qual era o plano B caso não tivesses chegado a profissional?

 

- Lembro-me de dizer aos meus pais, quando tinha uns 10 anos, que queria ser como aqueles senhores que filmavam os animais do National Geographic. Via esses programas aos domingos de manhã e dizia que queria fazer aquilo. Mas depois de ir para o Sporting, o único objetivo passou a ser jogador de futebol. Só agora é que estou a pensar num plano B. A minha namorada convenceu-me a tirar um curso de agenciamento e gestão de carreiras de futebol. Vou começar em junho.

 

- O facto de teres saído de casa muito novo e  dos teus pais fazerem 600 quilómetros todos os fins de semana para estarem contigo obrigava-te a correr mais para cumprires o teu sonho?

 

- Os meus pais nunca meteram qualquer tipo de pressão. Aliás, pelo contrário. Eram aqueles pais que apoiavam incondicionalmente, estavam sempre lá, mas sempre com muita leveza. Ou seja, nunca me disseram ou atiraram à cara o dinheiro que gastaram em viagens e os quilómetros que tinham feito. Só muito mais tarde, com mais maturidade, é que percebi o esforço financeiro que aquilo exigiu. A minha mãe teve cancro da mama, esteve numa situação complicada, mas mesmo assim ia visitar-me todos os fins de semana. Mas houve um dia em que a vi muito mal e disse aos meus pais: ´Eu não aguento mais, quero estar perto da mãe. Vou deixar o futebol, dedicar-me aos estudos e voltar para casa`. Na altura, estava emprestado ao Belenenses e vivia em Lisboa. Mas isso nem foi hipótese para eles. Os meus pais não me deixaram desistir, disseram que iam continuar a vir apoiar-me, porque o que a minha mãe mais queria era ver-me feliz e a fazer aquilo que eu gosto.

 

- O que é que de melhor o futebol te deu?

 

- Não posso ser hipócrita… Deu-me uma estabilidade financeira que outro trabalho não me iria dar, pelo menos tão cedo. Mas acima de tudo, o que fica do futebol são os poucos mas grandes amigos que fiz. Levo pessoas com quem posso contar para tudo. E é claro que os títulos também são importantes, são emoções inexplicáveis a quem não passou por esta profissão.

 

- És poupado?

 

- Eu tenho aqui uma gestora ao meu lado, por isso não sei responder [risos]… Agora a sério:  acho que sou poupado e preocupado com o meu futuro. Não era muito organizado, mas agora tenho tudo em Excel [risos]. Só aos 31 é que percebi como é que essas coisas funcionavam. Não sou o melhor gestor do meu dinheiro, no sentido em que às vezes não sei como aplicá-lo,  mas o facto da minha namorada ser da área  ajuda muito nesse sentido. Confesso que, até agora, tinha confiado a parte financeira aos meus pais, mas já tenho idade e maturidade para o poder fazer sozinho.

 

- Alguma vez foste enganado?

 

- Felizmente não. Nunca fiz investimentos de grande risco. E sendo sincero contigo, se calhar também porque o meu pai esteve muito atento e à frente das coisas. O facto dos meus pais serem muito trabalhadores nunca me fez tirar os pés do chão. Ainda hoje - e a Matilde sabe - ligo-lhes ao domingo e muitas vezes o meu pai está a trabalhar. Infelizmente, a minha mãe teve de parar. São pessoas humildes que nunca viveram com muitas posses, mas que são felizes com a vida que têm.

 

- O Sporting está cada vez mais perto do título. Estás pronto para festejar?

 

- Claro! Já tirei o cachecol do armário, já o lavei e está tudo pronto para a festa. Já comentei com os meus amigos que quando sair de Varsóvia vou direto para o Marquês.

 

- O que é que mais te surpreendeu neste Sporting de 2020/2021?

 

- É verdade que me surpreendeu um bocado, mas não tanto como se calhar à maioria das pessoas. Acreditei desde o início da época que pudéssemos ser campeões. Primeiro, porque conheço alguns dos jogadores que estão lá, também conhecia os outros que estavam no campeonato português e já seguia o trabalho do Rúben Amorim. Sentia que ele ia conseguir trabalhar aqueles jovens e, a partir daí, fazer uma época excelente. A verdade é que nunca imaginei que a época fosse tão boa - 31 jogos sem perder é absolutamente incrível. A equipa do Sporting superou todas as expectativas.

 

- E como sportinguista, como vês os castigos sucessivos ao Rúben Amorim?

 

- Não gosto muito de falar de coisas extra-futebol. O que eu sei é que quem joga ou já jogou entende as emoções e as frustrações que estão à flor da pele num jogo. Um dos grandes problemas de não haver adeptos nos estádios é que se ouve tudo. Eu sou o primeiro a levar na cabeça quando chego a casa e a Matilde diz: ´mas porque é que disseste isto ou falaste assim?` Só quem está lá dentro é que entende o que o jogador ou o treinador sente no momento. Há coisas que dizemos e que nos arrependemos no segundo a seguir. E acho que os árbitros deveriam ter essa sensibilidade. Não estou a dizer que possam ser maltratados, mas há certas coisas que se diz que são no momento e que são difíceis de controlar. As coisas poderiam ser diferentes se houvesse maior sensibilidade para isso.

 

- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um jogo, qual escolhias?

 

- A segunda mão da meia-final da Liga Europa: Atlético Bilbao-Sporting. Tínhamos ganho 2-1 em casa, perdemos 3-1 fora e fomos eliminados. Repetia esse jogo pelo ambiente e para mudar o resultado.

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