Choro da nora (artigo de José Antunes de Sousa, 92)

Espaço Universidade 20-04-2021 19:48
Por José Antunes de Sousa

Heráclito, notável filósofo pré-socrático, em mais um alarde da sua poética contundência, proclamou: “ panta rei”: tudo flui, ilustrando a máxima com o facto de nos ser impossível banharmo-nos duas vezes na mesma água do rio. E foi nas margens de um rio que nasci e cresci - o Lis, cujo enquadramento bucólico foi cantado por vários poetas, desde Rodrigues Lobo até Américo Cortêz Pinto, passando por Afonso Lopes Vieira e José Marques da Cruz. É deste último a quadra transcrita em lápide junto à nora das Cortes:

 

“Nunca chores junto à nora

que a corrente faz girar

Quem chora ao pé de quem chora

fica sempre a chorar “

 

A nora insinua-se-nos como metáfora do inelutável vaivém das coisas. Ela ilustra bem a impermanência, circular e fátua, deste mundo fluido de formas em fuga.

 

Vejam só: na véspera do fatídico jogo, que mais pareceu o Auto da Luz Apagada da autoria de Gil Vicente, que, como sabemos, escreveu mesmo o “ Auto da Barca do Inferno “, todos teciam loas à fulgurante mestria do treinador e ao que se anunciava como a imparável marcha para o êxito. Mas, neste mundo, estão sempre a acontecer coisas - e, em consequência, o ilusório real que aí se arremeda, oferece-se-nos em cascata de decepções. Não é de fiar: a seguir à euforia sucede a depressão.

 

Só há um modo de sairmos do movimento circular da nora ou de não sermos levados pela corrente do rio  - é instalarmo-nos na nascente e vincularmo-nos a ela. Fazer depender a felicidade da cadência ondulante das coisas que evanescem como bolas de sabão é hipotecarmos a única coisa realmente importante a um monturo de coisas que não têm importância nenhuma.

 

Pretender construir a felicidade de um grupo/equipa na estrita dependência dos resultados desportivos é cometer o dramático equívoco de identificar a essência da pessoa que se é com a máscara do palhaço que se exibe: o grupo não é feliz por ter ganho, mas ganha por ser feliz!

Por isso é que os alcatruzes da nora constituem eloquente metáfora da vida circular e tautológica dos treinadores. Mas eles são sobretudo a metáfora da nossa patológica “mesmice”, esta doença da rotina, esta insidiosa compulsão para repetir sempre as mesmas coisas - eis o que é afinal a loucura: continuar a fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes.

 

Mas, então, não foi Aristóteles que disse que “nós somos o que repetidamente fazemos e que, por isso, a excelência não é um acto, mas um hábito”? Sim, e com razão: o pianista toca de olhos fechados por ter percorrido aquele teclado vezes sem conta, do mesmo modo que o basquetebolista deve a sua performance ao sem número de vezes que repetiu o gesto de lançar a bola ao cesto.

 

Mas não  é aí que está o problema, mas no facto de todo o treino se esgotar na mera repetição: se for apenas e só a repetição padronizada, ela acabará por gerar cansaço e exaustão mental e emocional, ao mesmo tempo que induzirá o cérebro a descartar as zonais conexionais fora de uso, provocando um perigoso empobrecimento cerebral: a rotina amolece o cérebro e, consequentemente, as áreas das actividades negligenciadas vão sendo desligadas.

Há, porém, um instrumento operativo insubstituível - a intencionalidade que consegue, por exemplo, recompor zonas danificadas do cérebro e suster, quando não mesmo inverter, o processo de envelhecimento. Samuel Weiss e Bret Reynolds descobriram que era possível estimular células cerebrais adormecidas e devolvê-las à vida activa. A este fenómeno designaram alguns cientistas (Henry Stapp, Jeffrey Schwartz e Mario Beauregard) “neuroplasticidade”, que eu ousaria traduzir por um termo bem familiar: curiosidade. De facto, é repetindo que se alcança a excelência, mas é abrindo-se mentalmente às várias tonalidades da vida que se consegue a verdadeira humanidade e, já agora, se obtém longevidade - que é sempre um ser humano que está por detrás do esplêndido atleta.

 

 Querem um exemplo de um homem que insiste em não dar tréguas ao cérebro preguiçoso? Manuel Sérgio, esse admirável exemplo e modelo de uma estrénua curiosidade socrática.

 

Daqui se infere a relevância metodológica que ousaria pôr à consideração dos treinadores, sob a forma de sugestões:

Não confinar o combustível motivacional à aritmética dos resultados: o treinador deve, antes de tudo, ser um facilitador de empoderamento pessoal. A auto-consciência é a chave de todo o sucesso.

 

Diversificar criativamente os elementos de treino, surpreendendo com a imprevista introdução de modelos gestuais que vão, por sua vez, ocupar e revitalizar zonas cerebrais mais desconectadas e, com isso, abrir a mente ao sucesso.

 

Alguns conselhos práticos:

 

Decorar algumas estrofes de “Os Lusíadas”, ou de Fernando Pessoa.

Visualizar mentalmente gestos técnicos que rompam com a rigidez do estereótipo.

E não esquecer que, neste mundo de sombras, por muita Luz que haja, de repente, pode acontecer um apagão.

 

20 de abril de 2021

 

José Antunes de Sousa

 

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